LI, VI, OUVI, ESCREVI

SITUAÇÃO NO ORIENTE MÉDIO

O mundo árabe quer reação do Ocidente

ENTREVISTA
“Cafebabel”, revista européia publicada em vários idiomas, entrevistou o jornalista Sakhr Al-Makhadhi, analista de política no Oriente Médio da BBC de Londres. Na opinião dele, o mundo árabe mostra-se favorável a ação militar dos Estados Unidos na Síria. Leia alguns trechos da entrevista:

No mundo árabe, quem é a favor de uma intervenção militar e por quê?

No Oriente Médio, a Turquia guia os intervencionistas. O primeiro-ministro Erdogan está desapontado com o fato de que seu ex-aliado não foi capaz de reformar o país . Ele acredita que al- Assad mentiu. Além disso, o seu país está acolhendo um número crescente de refugiados e houve confrontos ao longo da fronteira entre os dois países . Erdogan também acusou o governo sírio de patrocinar rebeldes curdos, para não mencionar que a defesa aérea do vizinho já derrubaram um jet turco.

A intervenção militar não vai facilitar a vida dos membros da Al -Qaeda?

Não. O mundo árabe e o povo sírio afirmam que o Ocidente está agindo e para colocar um fim à guerra civil. Os EUA devem fazer sentir seu peso internacional. Se não fizerem isso, ficará a ideia de que a OTAN só age quando há grandes jazidas de petróleo em jogo. Quanto a Al- Qaeda, a organização beneficia mais com a desintegração lenta, mas contínua do país do que vice-versa.

Pode-se realmente falar de que há uma guerra civil na Síria ? Há estimativas que consideram o apoio popular ao governo ou aos rebeldes ?

Bem … você tem uma guerra civil cada vez que os cidadãos de um mesmo povo (neste caso, os sírios ) lutam entre si fazendo com que um grande número de mortes. É isso o que está acontecendo há 18 meses na Síria. Mesmo que o regime continua a ter o apoio da maioria da população, al- Assad não é nada mais do que um senhor da guerra , embora seja o mais poderoso .

Não. A intervenção militar só tem o objetivo de ensinar uma lição ao governo sírio. Seria um ato mais político do que militar. O objetivo é responder ao uso de armas químicas e não o de fortalecer os rebeldes ou derrubar o regime. Os governos ocidentais deixaram claro que não vão enviar tropas para a Síria.Você está considerando a possibilidade de atingir alvos militares precisos na Síria . Tal ação iria mudar o equilíbrio de poder na guerra civil ?

Alemanha está pressionando por uma solução diplomática . Há as condições para as negociações de paz na Síria ?

Nenhum partido sírio está pronto para uma solução diplomática. A oposição disse que após os acontecimentos de Qusair e o envolvimento do Hezbollah não vai mais participar de quaisquer negociações de paz . Por outro lado, o regime tem mostrado pouca honestidade em não reconhecer a Coalizão Nacional até agora .

Que importância tem a Rússia nessa crise internacional?

Muita. Se Putin decide chamar al- Assad em uma mesa ou cortar seus suprimentos de armas, o equilíbrio de poder na Síria mudaria rapidamente, dados os recursos limitados do governo .

Quanto tempo poderia durar a guerra civil na Síria?

Bem … Talvez o quanto tempo durou a guerra civil libanesa ? (15 anos , 1975-1990 , ed. ).

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PERIGO

A “Internazionale” é, na verdade, uma revista de revistas feita por um grupo de jornalistas que escolhe as melhores pautas de mais de 300 jornais e revistas do mundo inteiro. Em cada edição reproduz uma matéria mais elaborada de uma outra revista importante de qualquer país que trate de um tema urgente. A edição desta semana, 02 a 08 de setembro, traz um texto interessantíssimo sobre a situação atual da Síria. O texto publicado é da revista alemã “Der Spiegel” e a análise respeita a lógica da grande mídia ocidental que vê em Bashar al Assad um demônio vivo e que um ataque estratégico dos Estados Unidos é mais do que conveniente.

Há detalhes terríveis. Ninguém contesta que já está em curso, há bastante tempo, uma guerra civil na Síria e que Al Assad não é o único responsável pela morte de mais de 100 mil pessoas. O Irã se beneficia da confusão e Rússia e China não aceitam a sensibilidade dos americanos como decisiva. Uma coisa, pelo que está escrito, pode-se afirmar sem medo de errar: o ataque com armas químicas, no sul de Damasco, que segundo os números da ONG “Médico sem Fronteiras”, provocou a morte de 355 pessoas, entre os quais mulheres e crianças que agonizaram com espasmos musculares, encharcados de lágrimas enquanto tinham a boca cheia de espuma não é um crime somente contra o povo sírio, mas um crime contra a humanidade.

Para contrapor, a revista oferece uma artigo curto, mas incisivo da revista inglesa “The Independent” no qual se afirma que, neste momento, ninguém sabe bem quem está contra o ditador sírio. Na oposição ou no meio dos tais rebeldes se misturam guerrilheiros jihadistas que estão celebrando a ajuda do ocidente considerando os líderes mundiais apenas como “idiotas úteis” e oposicionistas sunitas que querem o fim do domínio absoluto da família Al Assad. Se um ataque acaba com o odiado ditador, o poder na Síria cai na mão de quem? Se os Estados Unidos e aliados insistirem numa aventura militar poderá ocorrer o mesmo que aconteceu no Iraque: milhares de inocentes são mortos e a população é condenada à continuidade de um desastre político depois do desaparecimento de um ditador.

CONVITE: O Papa está pedindo para que se faça jejum e uma vigília de oração pela paz na Síria, no sábado, 7 de setembro.

www.internazionale.it

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OUTROS TEMAS

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ALIMENTO DO FUTURO
** Na capa da revista “Panorama” uma afirmação curiosa: “a carne não é suficiente para todos e o peixe diminui. Assim, serão os insetos que vão salvar o planeta. Palavras dos cientistas da FAO”.  A matéria mostra que que já se come cerca de 1.900 insetos na Ásia: besouros (31%), lagartas (18%), abelhas, vespas e formigas (14%), grilos e outros (13%).

VEM AI
A revista traz matéria exclusiva: a nova encíclica do Papa Francisco. Segundo a “Panorama”, o título será “bem-aventurados os pobres” e vai conter as linhas principais do pontificado.

www.panorama.it

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ESCRITORES AFRICANOS
* “Todas as histórias nascem na África” é o título de uma matéria da revista “l’espresso” desta semana. O texto trata de uma geração de escritores (como Menegstu Dinaw, na foto) que adota o modo de contar histórias dos africanos, mas são cosmopolitas, filhos da diáspora que, mesmo tendo raízes na África e quase sempre a pele negra vivem de forma estável a maior parte do ano em algum país fora do continente africano. A esse tipo de literatura deram o nome de “Afropolitan” e já terá destaque no Festival de Literatura de Mantova, o mais amado dos italianos, que se realizará esta semana,  de 4 a 8 de setembro (http://www.festivaletteratura.it/).

SITE DE ADOLESCENTE

Um tema atual e interessante que também é destaque na revista “l’espresso” desta semana: os adolescentes que que se cadastram no site Ad Ask. No Brasil, o site não faz tanto sucesso, mas na Itália mais de um milhão de meninos e meninas estão nesse site feito somente para eles, mas como se afirma na matéria, está cheio de riscos. Desde perguntas sobre os atributos físicos de uma menina da escola, a turma faz questiona coisas esquisitas como: “já pensou em suicidar?”. No mundo, são mais de 70 milhões de usuários com idade entre 13 e 18 anos. O conteúdo é simples, mas preocupante: uma pergunta qualquer, uma resposta qualquer e a crítica ácida dos demais. Uma menina se matou no interior da Inglaterra por causa das críticas que recebeu no site.

www.espressoonline.it

// Fotos: Cafebabel e The Guardian//

Rafael Vieira

Roma, 3 de setembro de 2013