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(4) Perguntas e Respostas – O QUE VOCÊ FARIA SE?

Prezado Padre Rafael: O que você faria se o Papa lhe pedisse um conselho sobre uma forma de proclamar o Evangelho nesse mundo cada vez mais ateu e secularizado onde igrejas tem se transformado até em shopping centers? Abraços.

Carlos André, Brasília (DF)

Carlos André: você me colocou numa situação inimaginável e altamente nobre e lhe agradeço por isso. Eu, um reles padre, dando um conselho para o Santo Padre, o Vigário de Cristo na terra? E ainda mais sobre um assunto que ele é mestre e para o qual recebe uma assistência especial do Espírito Santo para dar a palavra certa, segura, firme e clara de como a Igreja deve agir. A razão de ser da Igreja é a evangelização. Se ela não fizer isso, não tem sentido a sua existência.

Mesmo com todas essas considerações, não irei fugir da raia. Você me apresenta, junto com a pergunta, uma verdadeira denúncia: “mundo cada vez mais ateu e secularizado onde igrejas tem se transformado até em shopping centers”. Eu creio que o mundo está mais idólatra do que ateu. Há muitos deuses ganhando o coração das pessoas e direcionando o rumo das sociedades. Há muita bijuteria se passando por joia verdadeira. Os ateus, por sua vez, parecem mais religiosos do que os religiosos: querem converter as pessoas. Os chamados “ateístas”, então, são, na verdade, pregadores fervorosos. Eles acreditam que poderão salvar o mundo pelo ateísmo e isso é uma religião.

Eu tenho pelo Santo Padre uma admiração sagrada. Acho que, diante dele, teria muita dificuldade de falar. E, ao invés de aconselhar eu ia preferir agradecer a ele pela coragem em dizer, todos os dias, uma palavra de ânimo para esse mundo cansado. Eu queria dizer a ele que suas iniciativas são inspiradoras e que seus documentos têm me confirmado na fé em Jesus Cristo, nosso Senhor. Dizer também que sua liderança tem me feito amar a Igreja ainda mais. Mas, se pudesse dar a ele um conselho sobre outro assunto que não a evangelização, eu diria que o San Lorenzo não chega perto do Flamengo e que se ele, por acaso, quisesse mudar de time, nós, rubro-negros, o acolheríamos de braços abertos.

O que você faria se pudesse fazer uma única viagem no tempo e no espaço, sem volta, para onde e em que tempo iria viver o restante de sua vida?

Léo Amorim (Ceguinho),Brasília (DF)

Belíssima pergunta meu querido Léo. Você sabia que um excelente método para conferir os valores que cultivamos e as escolhas que fazemos na vida é fazer uma projeção para frente ou para trás no tempo? Para frente, podemos sonhar em levar nossas crenças e ideias para um mundo absolutamente desconhecido sobre o qual só temos a ficção. Para trás, na história vivida pela humanidade, podemos tentar encontrar um modo de acomodar tudo o que somos numa situação com milhares de limitações circunstanciais.

E se fosse para conservar a atitude fundamental de Cristo, eu não iria para trás porque teria que me “conformar” ao tempo e a humanidade daquela hora. Assim como Jesus fez ao surgir num determinado ponto da história humana. Nasceu judeu, sob o império de Roma. Apresentou o testemunho definitivo da liberdade e do amor, mas teve que assumir as consequências da traição de um amigo, a tortura, o calvário e a cruz. Foi tragado pela incompreensão daquela hora. Deu-nos, não obstante tudo, o caminho para todas as gerações de todas as épocas. Permita-me uma irreverência, caro Léo, pois como dizia nosso baiano Raul Seixas: “Papai, não quero provar nada. Eu já servi à Pátria amada e todo mundo cobra minha luz. Oh, coitado, foi tão cedo. Deus me livre, eu tenho medo de morrer dependurado numa cruz”.

Então, prefiro responder sua pergunta dizendo que quero ir para o futuro. Bem distante. Um tempo quando ninguém mais considerar o semelhante menor ou inferior por causa da cor da pele. Um tempo no qual as mulheres serão valorizadas tanto quanto os homens e as pessoas vão experimentar o que hoje sonhamos e chamamos de igualdade. Quero ir passar o resto da minha vida num lugar e num tempo onde as crianças possam brincar livres e felizes nas ruas de pequenas aldeias – porque não existiriam mais as grandes cidades – com toda a infraestrutura que garante uma vida digna para todas as famílias. Um lugar e um tempo onde e quando todo mundo pudesse ser livre e feliz.

O que você faria com toda a grana se tivesse ganhado no BBB? 

Franklin Machado, Florianópolis (SC)

Meu prezado e querido amigo, Franklin. Você se refere à loucura de ter considerado e patricipado da primeira seleção do reality show mundial com muito sucesso por aqui, chamado “Big Brother Brasil”. Isso tudo aconteceu em 2002 e ninguém, nesse país, sabia bem o que era aquela proposta estranha de trancafiar um grupo de pessoas dentro de uma casa por três meses. Eu tinha na cabeça a obra do George Orwel, 1984, e pensava mais naquela incrível crítica que ele fez a um mundo sem liberdade. Eu pensava que podia ser um laboratório existencial interessante e fui lá achando que podia escrever um livro sobre espiritualidade do cotidiano em belos meses de férias.

Bom. É preciso dizer, antes de responder o que você perguntou, que eu não fui aprovado, mesmo tendo feito parte do último grupo que, efetivamente, realizou a primeira edição do programa. Não agradei a produção. E, depois, eu não era somente eu. Eu era a Igreja e os diretores devem ter avaliado o potencial de fracasso que poderia ter um programa que aposta muito no conflito tendo um padre no meio. O clima de segredo que tomava conta de todo mundo não me permitiu sequer conversar para saber exatamente qual era a razão da minha dispensa. O diretor me chamou e disse que eu estava dispensado. Eu peguei minhas coisas no quarto do hotel onde estávamos confinados, entre num van que não tinha a logo da emissora e fui embora para o aeroporto.

Você não  considerou nada disso, supõe que eu tivesse entrado no programa e mais: que tivesse ganhado o prêmio depois de todos aqueles incríveis paredões. Você se lembra, Franklin, quem ganhou aquela edição? Foi um rapaz musculoso chamado de “Bambam” e ele passou a ser o preferido do público depois que chorou conversando com uma boneca chamada de “Maria Eugênia”. Consideremos que eu não tivesse ficado tão doido e tivesse ganhado o prêmio de 500 mil reais. Não consigo imaginar o que esse montante significava no começo desse século, mas eu, hoje, penso que eu teria feito um projeto social ou cultural. Na minha congregação, temos pequenas rádios deficitárias. Talvez tivesse dado o dinheiro para isso. Ou largado tudo, viajado o mundo e comprado um chalé numa praia paradisíaca. É claro que estou brincando. Nas duas hipóteses.

Neste  momento tão  difícil  em que estamos vivendo eu pergunto: o que você  faria  para não perder a fé, ter vontade de viver, enfim não perder a esperança? O  isolamento, não poder sair, tudo isto nos maltrata.

Claudia Fernandes, Goiânia (GO)

Obrigado, Cláudia, pela pergunta muito oportuna. Primeiro, se me permite, quero expor minha experiência pessoal com a Covid-19. Recebi o resultado positivo do teste como se fosse um recado duro de que eu poderia ter complicações sérias uma vez que tenho comorbidades. Fiquei meio paralisado, mas por uma graça especial, tomei o rumo do meu quarto, passei 16 dias sem sair de lá e não me desesperei. Ficava atento a todos os sinais do meu organismo, mas não cheguei a ter pânico. Tive sintomas leves. Não perdi o olfato e o paladar. Uma tosse mais teimosa e no resto me sentia muito bem. Umas “anjas” doutoras me ajudaram demais e, depois de duas bateladas de exames repetidas entre 15 dias de diferença, recebi alta.

Contei toda essa história para tentar responder o que você me pergunta. Alguém pode achar que 16 dias de confinamento rigoroso seja pouco tempo, mas a expectativa de ter que ir para o hospital, entrar numa UTI e precisar ser entubado faz esse tempo ganhar uma dimensão “eterna”. Essa expectativa maltrata. O isolamento em si, na verdade, para mim, não foi peso algum. Suponho que tenha sido para quem teve a tarefa de me levar as refeições deixando-as numa cadeira colocada diante da minha porta por todo esse tempo. O isolamento tem lá suas vantagens. A gente pode descansar, pode dormir, pode ler todas as notícias da internet. Eu tenho um site no qual compartilho coisas que considero importantes. Tive que interromper para não “contaminar” ninguém com o que estava sentindo e pensando.

Essa situação, ao invés de ser ocasião de “perder a fé”, me jogou de cheio no coração de Deus. Renovei a entrega da minha vida. Todas as vezes que me levantava da cama, da poltrona ou da cadeira de trabalho, rezava um “Pai Nosso” bem lentamente para me lembrar que tudo o que eu estava vivendo era na esperança de “venha o vosso Reino e seja feita a vossa vontade”.  Eu suponho que esse tempo de isolamento social depende muito do tempo que se viveu antes da pandemia. Quem rezava antes, reza bem. Quem não tinha esse costume, pode ter mais dificuldades. E o risco permanece. Enquanto não tivermos uma vacina, teremos que fazer uma séria aposta no cuidado exagerado: lavar as mãos várias vezes, evitar levar a mão na boca, no nariz ou nos olhos, não aglomerar e usar máscara.