ESPECIAL

IMPROVISO

Eugenio Mussak, Revista Vida Simples, Editora Abril

Uma das histórias sobre o compositor Frédéric Chopin conta seu primeiro encontro com outro gênio do romantismo do século 19, o húngaro Franz Liszt. Conta que Chopin, ainda desconhecido, visitava um empresário artístico em Paris quando, de repente, ouviu o som de uma de suas polonaises vindo da sala ao lado. Assustado, correu para o local e viu ninguém menos que o famoso Liszt sentado ao piano, tocando uma das partituras que Chopin havia esquecido sobre  a mesa enquanto aguardava ser chamado para a reunião com o empresário.

Liszt, sem interromper, perguntou se a composição era daquele jovem desconhecido que olhava assustado. Ao receber a confirmação, disse que estava tão impressionado com a qualidade da obra que gostaria de apertar a mão do compositor, mas não podia fazer isso, pois não conseguia parar de tocar. Chopin então apresentou a solução: “Eu posso substituir sua mão direita com a minha mão esquerda. Então poderemos nos cumprimentar”. Esse dueto de mãos esquerdas foi apenas o primeiro improviso daquela tarde parisiense. O que se seguiu foi um concerto a quatro mãos, improvisando variações sobre a orba de ambos.

Não tenho confirmação dessa história. Mas não importa. É muito bela. Além disso, ensina que o improviso não é um ato de irresponsáveis. Só improvisa quem conhece o assunto sobre o qual deve improvisar. Chefes de cozzinha improvisam nas panelas, músicos improvisam com os instrumentos, professores improvisam na sala de aula, médicos improvisam no hospital de campanha, poetas improvisam ao ouvido de suas musas […] improviso não é aventura. Exige preparo e responsabilidade. Improvisar sobre o que não se domina é como achar que se pode pilotar um avião porque se tem carteira de motorista. Não vai dar certo no fim.