ESPECIAL

NORMALIZAR A MORTE

Eu sempre tive uma implicância particular com esse tema, desde que eu era apenas um garoto e vivia no interior. A morte me instigava a pensar sobre ela. Não tinha medo dela, mesmo imaginando que se a minha avó materna morresse, eu queria morrer também. Quando mais jovem, embalei um sonho de fundar uma escola que estudaria apenas sobre a morte. Nunca achei isso mórbido porque sempre achei que só se vive bem quando se está pronto para morrer. Está pleno, está vivendo tudo o que quer e pode. Nesse sentido antigo na minha vida, eu acho que a morte é um evento normal, mesmo que doloroso para quem morre e para quem fica vivo.

Agora, o que está acontecendo no Brasil dos nossos dias é outra “normalização”.  É aquela pútrida, suja. Aquela da chamada “paz de chiqueiro”. Sabe qual é? As fezes estão espalhadas, os porcos estão sobre elas, sossegados. Essa normalização, eu abomino. A semana entre 1 e 5 de março foi absolutamente terrível. Batemos 2 mil mortes por dia, no Brasil. Todas essas pessoas vítimas de uma única doença: a Covid 19. Uma doença que “namorou” o Brasil durante uns dois meses. Chegou devagarinho, começou a matar uma, 10, 100 pessoas. Houve tempo para se organizar e enfrentá-la de outra maneira. Mas, não fizemos isso. Toleramos os absurdos ditos e feitos e cá estamos com uma montanha de cadáveres por dia.

Não podemos nos acostumar com isso, achar “normal”. Não é normal. É um absurdo que nos dobremos ao argumento de que “todo mundo vai morrer”. Essa é uma verdade diante da qual não há o que dizer, mas o caos que estamos vivendo foi provocado por mortes evitáveis. São professores de meia idade altamente produtivos, jovens sem comorbidades, idosos com boa condição de saúde. Estão todos morrendo depois de uma falência dos cuidados médicos. E pior ainda e mais terrificante: há pessoas com Covid que estão morrendo porque não tem lugar para eles nos hospitais e nas UTIs. Essas mortes não são normais. Morte por culpa da falta de cuidado não é normal.

Pe. Rafael Vieira, CSsR  –  05.03.2021