LI, VI, OUVI, ESCREVI

A HORA DO DIABO de Fernando Pessoa

A HORA DO DIABO de Fernando Pessoa

Assustou-me o fato de ter vontade de rir do começo ao fim do livro. Uma conversa para lá de boa entre uma mulher que meio desmaia depois de um baile e o Diabo. Mas que fulano sensato, lúcido, inteligente, esclarecedor dos “mistérios”. Fiquei como a personagem: encantado com aquela conversa a ponto de elogiá-la quando ele chegou ao fim. Quanta expressão de luz. Depois do encerramento da leitura fiquei pensando nas pessoas que se encantam com o Diabo e falam bem dele. Desse “sujeito” que protagoniza o livro, eu também não teria nenhuma dificuldade de dizer que ele é até “necessário”.

Claro que não quero me bandear para o lado do satanismo. Isso é outra coisa. Estou muitíssimo bem do lado que estou e a vida do Capeta não me interessa. Faço como ensina um grande teólogo popular irlandês, C. S. Lewis, quando cita Lutero no começo de um outro livro curioso: “Cartas de um Diabo a seu aprendiz”: “O melhor método para expulsar um demônio, se ele não ceder aos textos das Escrituras, é ridicularizá-lo, zombar dele, pois ele não suporta o escárnio.” Fico com esse ensinamento e isso tem me dado, inclusive, distância do Diabo e das situações e pessoas que gostam muito de falar dele.

Esse livro, no entanto, me fez rir. Os conceitos delineados pelos interlocutor da pobre senhora que ficou zonza são lisos, claros, engraçados, profundos. Mas, ele não fala a verdade. Ele confessa isso. Ele diz que não a conhece. Tirando as provocações que ele faz a Deus, achei que sua conversa era uma das boas. E curioso: ele leva a senhora com quem conversa para um pináculo de onde se podia ver o mundo. Mostrou Paris, Berlin e Londres para ela. Daquelas alturas contou-lhes muitas coisas curiosas.

Do conteúdo do papo, que nem dá para imaginar que o Diabo seja o protagonista, há definições que se compreendidas poderiam dar muita tolerância a todos. Ele elogia as religiões. Todas. Fala da busca constante por entendimento. E uma coisa muito engraçada: ele se diz cansado. Muito cansado. O texto no UBook é lido por uma portuguesa e isso deu um sabor todo especial à audição. Gosto imensamente do sotaque. Que deleite foi essa leitura. Ah, não nos esqueçamos: é uma obra de Fernando Pessoa.

Rafael Vieira

Ubook, Goiânia, 20.03.3021