LI, VI, OUVI, ESCREVI

A METAMORFOSE de Franz Kafka

A METAMORFOSE

Franz Kafka

Eu sempre resisti a ler esse clássico da literatura mundial. Fiz, na verdade, um itinerário de sentimentos durante a audição do livro (é, ouvi o livro). Primeiro uma sensação de que o Gregor, o caixeiro viajante que acorda e se tornou um inseto, era eu mesmo. Parecia que ele falava de mim cada vez que, com naturalidade, referia-se à descoberta do novo corpo. Um corpo, aliás, desajeitado e muito feio. Era um inseto. Depois, pelo modo como seus pensamentos sobre a família e o trabalho pareciam com as minhas preocupações a respeito da vida pessoal, da minha vocação religiosa e da minha profissão. Depois, veio um sentimento de distância.

Passei a observar mais a reação da o pai, senhor Sansa, da mãe, senhora Sansa e principalmente da irmã, Greta, que se transforma tão radicalmente durante toda a história. Considerei, profundamente, o que Gregor falava sobre todos eles, sobre a profissão e sobre seus gestos de solidariedade imediatamente esquecidos depois da metamorfose. Instigou-me suas considerações sobre a relação de trabalho quando os colegas pensam que, pelo fato de você ter um modo próprio de trabalhar, está escondendo artimanhas e planos não tão honestos quanto os deles que se martirizam no escritório.

Franz Kafka, eu sei, já teve sua obra estudada em diversas perspectivas. Eu, da minha parte e humilde apreciação, destaco uma particularidade da sua linguagem primorosa: ele fala diversas vezes que seu protagonista pensou ou falou de “si para si”. Em um outro momento diz que o pai de Gregor também fez o mesmo. Eu tenho passado minha vida inteira, quase seis décadas, alimentado esse tipo de coisa. A maioria das coisas que penso, creio, sonho e busco ficam no duro diálogo de mim comigo mesmo. Quando deixo algo desse ambiente íntimo transbordar e anuncio como uma “ideia que vai mudar nossas vidas”, tenho recebido dos amigos mais próximos a advertência de que o que vou apresentar terá duas consequências drásticas: vamos trabalhar mais e não ganhar nada.

Uma última consideração. Kafka começa o livro contando o fim de uma vida normal vivida por um trabalhador justo, honesto, irmão dedicado e filho altruísta que sacrifica seus planos pessoais para ajudar os pais a pagarem uma dívida enorme. E conclui com o desabrochar de uma nova vítima da estrutura familiar: uma mulher que pode se casar e resolver os problemas com esse casamento. Um livro realmente inesquecível.

Rafael Vieira

Ubook, Goiânia 16.03.2021