LI, VI, OUVI, ESCREVI

A RELÍQUIA de Eça de Queirós

Terminar a leitura de um Eça de Queirós é uma obra para se comemorar. Se não fosse na modalidade de áudio, imagino que seria privado para sempre dessa beleza de obra “A relíquia”. Penso que me perderia na busca infinita do dicionário para entender o que o autor faz com os adjetivos e com palavra pouco usuais. É um colosso. Aos poucos, o leitor começa a ver o que ele escreve dada a sua magnânima capacidade de detalhar. A gente fica inebriado com aqueles ambientes, com as situações, com o que vive esse super malandro Teodorico Raposo.

Ao ler esse livro, a gente entende a diferença da letra de um escritor que também foi jornalista e diplomata. O recurso incrível que ele usa para confundir o tempo de uma viagem normal à Terra Santa com os últimos momentos da vida de Cristo é absolutamente fenomenal. E o viés malicioso com que narra suas relações com a religião sendo fortemente incrédulo e anticlerical dá um sabor todo especial ao modo como resgata cenas tão importantes para o cristianismo e a crítica mordaz à falta de lógica de certas práticas religiosas tão arraigadas no modo de ser dos portugueses.

Tópsius, o erudito pesquisador alemão que acompanha nosso protagonista na maior parte da história é um misto de cumplicidade e segurança. Dele chegam os esclarecimentos mais importantes tanto para a aventura do português na peregrinação à palestina como para a condução psicodélica ao mundo de Jesus dos últimos dias. Aliás, é por implicância com esse douto pesquisador sobre reis antigos que o Raposão se motiva a contar toda a história.

Fiquei particularmente influenciado pela irreverência do sobrinho da dona Patrocínia. Ele era daqueles que não podia ver um rabo de saia que colocava a perder a maior das oportunidades que encontrava. Essa mania quase o faz perder cenas importantes do processo de morte e ressurreição de Jesus. Não de podia ver uma mulher passando por perto que ele já começava a transformar sua vida que, destruída por uma aventura no Egito, se modifica em saltos enormes no final do livro.

A última consideração que não vou mencionar, claro, para não deixar quem tem vontade de ler com a aquela raiva de ter lido o “final”, é uma fantástica revisão do livro inteiro e, talvez, naquela frase final esteja a moral de toda a mensagem que alonga história se propôs a passar. Só não vale você ler esse meu texto aqui e ir ler a última frase do livro.

Rafael Vieira

19.07.2021