LI, VI, OUVI, ESCREVI

A SONDA QUE NÃO QUER MORRER

Li um artigo interessantíssimo na última edição da revista italiana “Panorama” sobre um tema que sempre causa certo fascínio: o espaço sideral. Uma sonda antiga conseguiu ultrapassar as fronteiras do Sistema Solar e vaga entre as estrelas vizinhas…. tradução minha (deu o maior trabalho!!). Leia o artigo que tem reprodução reservada. 

Um sonda que não quer morrer

Voyager 1, lançada no espaço em 1977 com instrumentos hoje antiquados (a memória de um smartphone é 1 milhão de vezes mais potente), deveria durar poucos anos e, ao máximo, chegar a Urano ou Netuno. Ao invés disso, a sonda fez o que está sendo considerado incrível pois está chegando onde nenhum objeto feito por humano e funcionando jamais chegou: além do sistema solar. E agora, viaja em direçãoo a outras estrelas…

di Giovanni Bignami*

A sonda interplanetária Voyager 1 da Nasa, foi lançada em 1977 e alguns dias atrás, saiu do Sistema Solar. Ou melhor: ela saiu da enorme bolha de partículas e radicações que circunda o Sol e todos os planetas e que tem um diâmetro de um centenas de bilhões de quilômetros, quase 200 vezes a distância entre a Terra e o Sol. Esse é, na verdade, um evento epocal: é o primeiro objeto construído pelo homem que ultrapassou essa fronteira. Para a sonda, ocorreu algo inesperado, como quando um submarino volta à superfície ou um satélite sai da atmosfera. E para a surpresa maior, o espaço de fora do Sistema Solar é mais denso que aquele interno. A notícia mais importante, no entanto, é que a Voyager 1 não é um objeto inerte numa viagem no escuro, mas está “vivo” e ainda com a capacidade enviar sinais.

Que uma sonda pudesse funcionar muito bem 36 anos depois que foi lançada, longe há quase 20 milhões de quilômetros da Terra, a Nasa, certamente, não esperava. E, no momento em que preparavam o balanço anual de previsões, por muito tempo, os chefes se perguntavam se valia a pena utilizar uma parte dos recursos do seu apertado programa científico continuar na gestão dessa “velhinha” espacial, cujo único mérito era estar sempre mais distante e continuar “contando”, ao seu modo, aquilo que vê pela frente. Agora, todos estão felizes porque Voyager 1 tornou-se uma bandeira para a Nasa (que quando quer, sabe fazer satélites) e para a humanidade. Essa sonda fez, realmente, cair uma barreira de exploração, furou uma esfera, aquela que circunda a nossa estrela, para nos levar àquelas das estrelas vizinhas, mais distantes, inteiramente a serem descobertas. É um resultado de Homo sapiens explorador comparável à última viagem de Fernão de Magalhães ou a primeira feita para a Lua. Nos tornamos, num só golpe, Homo sapiens sidereus: a próxima parada será na estrela vizinha.

Será preciso, certamente, de algum tempo. Com a velocidade atual de 17 quilômetros por segundo, Voyager 1 precisará de 300 anos somente para passar as nuvens que circundam o Sistema Solar e outros outros 40 mil para chegar à primeira estrela. A sonda vai “morrer” muito antes disso, mas continuará tendo um disco de ouro com conteúdos da Terra. Se um ET a encontrar e souber ouvir vai poder apreciar o som do vento e rumor da erupção de um vulcão, a quinta sinfonia de Ludwig van Beethoven e o choro de uma recém-nascido. Essa é uma possibilidade com a qual sonhou Carl Sagan, grande cientista e escritor que esteve sempre por trás dos projetos da Nasa desde os anos de 1960.

A sonda Voyager foi pensada, naquele tempo, com uma tecnologia que hoje parece patética. Foram construídos dois exemplares lançados no espaço com poucos dias de diferença em setembro de 1977, com a ideia de chegarem ao menos a Júpiter e Saturno em cinco anos e, depois, com um pouco de sorte, conseguir explorar outros gigantes gasosos: Urano e Netuno. Mais do que isso, não se ousava esperar dela: o computador a bordo tem uma velocidade e uma memória que são menos de 1 milionésimo daquelas dos mais simples smartphones com os quais jogam as nossas crianças. Para recolher dados, era o último grito da tecnologia da época: um gravador mecânico e uma fita com oito pistas, que rebobinava de seis em seis meses tendo uma graxa espacial para se lubrificar.

Para transmitir os dados para a Terra, uma antena de 4 metros e uma alimentação de energia nuclear baseada em alguns quilos de plutônio 238, que vence com 80 anos. Na partida, fornecia quase meio quilowatt, agora já estamos na metade disso, o equivalente ao consumo de qualquer lâmpada para conservar viva a missão e mandar os dados. Em terra, no entanto, requer toda a capacidade das maiores estações de escuta da Nasa, com antenas com de dezenas de metros,”pescando” os fraquíssimos sinais vindos do fundo do céu.

Depois de ter visitado, nos anos de 1980, os grandes planetas, Voyager 1 partiu na direção externa do Sistema. Em 1990, ela foi trazido para trás para fazer uma imagem da Terra. Nunca fotografado de tão longe, o nosso planeta é comovente: “uma bola azul”, um pontinho azul pálido no infinito. Será a última imagem porque a telecâmera foi desligada para economizar energia. Em 1998, Voyager se torna o objeto humano mais distante da Terra, pois supera outras duas sondas, as “Pioneiras”, lançadas alguns anos antes, muito mais lentas e mudas há muito tempo.

Enfim, alguns dias atrás, uma noticia-bomba: o contador de raios cósmicos, instrumento que ainda ligado no Voyager 1, mostra uma subida na contagem. Saímos da bolha protetora do Sol: perla primeira vez, uma sonda mede o ambiente entre uma estrela e outra. Mas Ed Stone, que tem 70 anos, que é o chefe da missão há mais de 40 anos não está seguro se lembra bem como se leem os dados enviados do incrível gravador de fita. Uma pesquisa, sem fôlego, o faz encontrar um ágil senhor de 80 anos, aposentado, que tinha projetado o objeto. Retirado do Campo de Golfe, se sentou diante dos instrumentos. Olhou e disse, docemente: “É verdade. Estamos fora, no meio das estrelas”.

Voyager 1 está no ponto máximo de meio século de exploração espacial,  que podemos imaginar como esferas concêntricas (como no meu livro “O mistério das sete esferas”): mais de 6 mil satélites estão em torno da Terra, cerca de 100 sondas na esfera lunar (1.000 vezes mais distante), 50 objetos na esfera de Marte (ainda mais 1.000 vezes mais distante), 14 além de Marte. 4 sondas além da esfera que fecha o planeta e uma só, a Voyager 1, na esfera das estrelas vizinhas. É uma dimensão ainda a ser entendida: o que quer dizer, por exemplo, que existem mais partículas do que o previsto. Mas sem surpresa, não há ciência. Voyager 1 vai “viver”, esperamos, dependendo do seu plutônio, até 2025. Mesmo muda, ninguém vai freá-la, a não ser um choque extremamente improvável. Poderá estar ainda em movimento até 5 bilhões de anos, quando a Terra será engolida pelo Sol que vai morrer. Voyager 1 e poucas das suas  “colegas” serão as únicas testemunhas da existência do Homo sapiens sidereus.

Giovanni Bignami é astrofísico, presidente do Instituto Nacional de Astrofísica (Itália).

www.panorama.it

Rafael Vieira, 30.9.2013