LI, VI, OUVI, ESCREVI

AMARELO – É TUDO PARA ONTEM

Assisti ao filme do Emicida e fiquei besta com tanta sabedoria, fineza, profundidade e luz. Confesso que olho para o movimento negro com um misto de reverência e temor. Tenho medo de não saber acolher, interpretar, compreender  seu conteúdo político, cultural e principalmente religioso. O documentário gira em torno do palco do Teatro Municipal e no placo, só consigo ver uma catedral com seus potentes vitrais. Não uma catedral católica porque não tem a rigidez dos lugares de poder eclesiástico. Uma catedral protestante nua com apenas um lugar rodeado de flores de onde emana a palavra, só a palavra. E, claro, a música.

“E tudo, tudo, tudo, tudo que nóis tem é nóis”. Essa frase levada ao delírio da repetição me deixa com um nó na garganta. Trata-se de uma verdade que transversalmente passa por dentro do humano de todas as cores e reflete na fé de quem acredita na fraternidade de forma colossal. Eu creio na força da unidade. A fé que me ensinou isso. Eu creio que é nesse pressuposto assumido, vivido e tornado militância é que todos poderão encontrar a força para viver e vencer, mesmo quando a história é trágica e cruel como foi com os negros no Brasil. Parece irreverente, mas não é. É cru. É a verdade. E só.

Amei a narração do Emicida, ou o Leandro como chama a mãe dele. Narração essa que traz pra gente um texto que costura um roteiro fantástico, inteligente, instigante e inspirador. Quem me dera que eu conseguisse coser as ideias dessa maneira e poder contar tão bem uma história. O documentário é uma aula de história do Brasil, da origem, desenvolvimento e expressão do hip hop e uma tremenda lição de humanidade, de cidadania. Os personagens que são alinhados na incrível ilustração do filme dão uma harmonia fantástica ao projeto.

O documentário começa com Belchior, que não era negro. E quase termina com ele quando Emicida, depois de fechar os olhos e ouvir dona Fernanda Montenegro declamar um poema grandioso, convida ao palco uma trans e a cantora Pablo Vittar para voltarem, os três, a cantarem Belchior: “O ano passado eu morri, mas este ano eu não morro não”. Aliás, a traducão do ditado  Yourubá: “Exu derrubou um pássaro ontem, com uma pedra que só jogou hoje”. E o documentário termina com a pandemia do Covid-19. Então, faz sentido: AmarElo, é tudo para ontem.