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ANDRÉS TORRES QUEIRUGA: POR UMA RELIGIAO HUMANIZADORA

Em 1997, um livro foi lançado na Espanha ganhou o mundo pela beleza da proposta teológica que trazia nele: “Recuperar a Criação – Por uma religião humanizadora”, de Andrés Torres Queiruga. Quem fez o prólogo do livro, que copiei para que você aprecie, foi o escritor galego Carlos Casares.

PRÓLOGO

Para nós, que fomos educados com uma rigorosa ideia de religião, segundo a qual a vida profana não era e nem devia ser mais que um vale de lágrimas que era preciso atravessar com muita atenção e sumo cuidado, não tanto para merecer a glória como para evitar cair de ponta-cabeça no inferno, vigiados sempre pelo olho terrível de um Deus mais justo que bondoso, um livro como este de André Torres Queiruga opera como um bálsamo: alivia e faz bem.

As feridas foram muitas, dolorosas, e difíceis de curar. Pode ser que algumas não tenham mais remédio. Lançar Deus do próprio coração por sentir-se incompatível com ele é decisão dura que não se toma sem consequências, a mesma coisa que ocorre quando alguém decide que não cabem sob o mesmo teto ele e a pessoa com quem convive. Chegar à conclusão de que a vida sem Deus é mais plena e rica do que com ele, deixa cicatrizes que ensombrecem a alegria da liberdade conquistada.

Se, apesar de tudo, ainda fica um raio de esperança, é porque, lendo livros como este, descobre-se que Deus continua aí, vítima das limitações humanas, inclusive das da própria inteligência, mas também das do próprio caráter, ou seja, do temor, da prevenção, do egoísmo, da segurança… todas essas interferências psicológicas, que se situam entre nós e a realidade para nos afastar dela, envolvendo-a de nuvem espessa que às vezes a faz tão difícil de entender. Deste processo de ocultação, destes véus tecidos ao longo de tantos séculos de história, não se livrou nem Deus, como, por outro lado, é lógico, submetido como está aos avatares e dificuldades que qualquer outro objeto de conhecimento, pelo menos quando se refere o assunto à teologia.

Depois de ler este livro, pode-se pensar que aquele Deus, expulso do coração por incompatibilidade, não era Deus, e sim fantasma construído com essas limitações humanas: um ser cruel, capaz de castigar eternamente, com infinito rancor; um ser arbitrário e caprichoso, disposto a ajudar a uns e não a outros; um ser infantil, empenhado em assuntos tão “transcendentes” como a salvação ou a condenação eternas dependem do cumprimento ou não cumprimento de alguns ritos meramente formais, como a missa dominical ou a abstinência nas sextas-feiras da quaresma.

Esse Deus foi, com efeito, o Deus de muitos dentre nós, talvez o Deus que puseram em nosso coração quando começamos a pensar. Não era fácil conviver com ele, sobretudo quando se suspeitava que, na luta pela construção da própria vida, Deus era um estorvo, não porque impedisse fazer muitas coisas – e nos impedia demasiadas – mas porque, simplesmente, não permitia ser honrados conosco mesmos, a não ser que se aceitasse permanecer uma pessoa imatura, disposta a crer em coisas incríveis, incompatíveis com a inteligência. Livrar-se desse Deus era questão de saúde mental e de dignidade.

O Deus que este livro ajuda a encontrar é um Deus digno do homem: melhor que ele e não pior; mais inteligente, e não menos; mais justo, não tão arbitrário; mais maduro, não tão infantil… Crer nele não implica, portanto, nenhuma extravagância. Não é o Deus que muda as leis da natureza a seu bel-prazer ou segundo as suas conveniências, nem o que desatende às súplicas de seus filhos, ainda que essas sejam justas, como acabar coma fome ou com a guerra, comportando-se assim de maneira como não se comportariam muitas pessoas, até mesmo as menos inclinadas à misericórdia.

Este Deus é, antes de tudo, amor. Como nos vai descobrindo Andrés Torres Queiruga ao longo de seu livro, é o grande companheiro que está com o enfermo e não com a enfermidade (contra a qual, ademais, nada pode fazer, porque permanece na esfera autônoma da natureza, que ele respeita). É aquele que está contra o mal, que se apresenta como resistência contra seus projetos em favor das pessoas , expostas, como seres livres, ao imprevisto e ao fracasso. É aquele que quer que cumpramos com nossas obrigações morais – obrigações que todos levamos em nossos corações pelo simples fato de sermos humanos – porque esse cumprimento é bom para nós, e ele não quer senão o nosso bem. É, finalmente, aquele que ama sem limites as pessoas e aquele, portanto, que perdoa também sem condição.

Confesso que, pelo que sei e pelo suponho, se muitas pessoas tivessem podido ler este livro aos dezesseis ou dezessete anos, nossa vida seria diferente. Em primeiro lugar, teríamos nos libertado de muitas horas de angústia. Em segundo lugar, poderíamos conservar Deus dentro de nós, colocado ai por nossos pais na infância. É certo que pelo menos, mas não era mais do que uma figura bondosa, com barba branca e amigo das crianças, mas que podia converter-se nesse Deus do amor que este livro nos ajuda a descobrir. Infelizmente, ao crescer, aquela figura de nossa infância, em vez de tornar-se mais rica, adaptada à mentalidade de adulto, converteu-se em um ser pouco atraente (menos atraente, com efeito, do que homens como Feuerbach, Marx ou Nietzsche).

Devo dizer, para ser justo, que conheci sacerdotes e leigos que se esforçaram, já naqueles anos difíceis, para dar outra imagem de Deus, acentuando alguns dos traços que aparecem como essenciais neste livro de Torres Queiruga, limpando-a das características inaceitáveis para quem pretendesse levar a vida a sério. Neste sentido, o concílio Vaticano II representou grande esforço e abriu caminhos que muitos já abandonaram, ainda que às custas, muitas vezes, de transitar por eles em difícil solidão.

Um dos aspectos mais atraentes deste livro de Torres Queiruga é sua coerência interna, em que a arquitetura do raciocínio, confrontada com as contradições que se vão levantando no processo de argumentação resolve-se sempre sem artifícios com valentia, sem jamais atraiçoar nem as leis da lógica nem a honradez. De maneira que, aceitando o principio fundamental de que Deus ama gratuitamente os homens e as mulheres e que perdoa de forma incondicional, tudo mais encaixa sem fricção no andaime da obra, inclusive os aspectos mais arrevezados e polêmicos, como podem ser as ideias de culpa, pecado, perdão, ou oração destinada a pedir coisas a Deus.

Se ainda é possível um Deus compatível com a ideia de liberdade e dignidade humanas que têm muitas pessoas honestas, sobretudo os habitantes deste mundo tão sensível à crítica e à racionalidade que chamamos de “intelectuais”, deve ser um Deus como este de que fala Torres Queiruga em seu livro. Com efeito, este é o Deus em quem muitos de nós teríamos gostado de crer nos anos atormentados da adolescência e em quem podemos voltar a crer os que já não vemos tão longe o horizonte e o mar sereno da velhice.

Estou seguro de que este livro de Torres Queiruga ajudará muitos a repensar o problema de Deus. O esforço, como poderá avaliar a seguir o leitor, é imenso, sobretudo para que as coisas se encaixem e nada fique às meias e sem tratar: o autor vai até o fundo com inteligência e rigor, mas também com grande fé. O que surge ai é a face resplandecente de um ser maravilhoso, que se fica surpreso por não tê-lo visto antes, tão claro como aparece agora etão necessário que era. Damo-nos conta de imediato que Deus tinha que ser assim e não podia ser de outra maneira.

E ao chegar aqui, ao final, sentimos que o desejo de escrever uma frase que não sei se seria pertinente, tendo em conta a linguagem neste livro, tão cuidadoso de não incorrer em contradições: que Deus pague a Torres Queiruga. Em todo caso, pelo menos que lhe paguemos todos nós, seus leitores, que neste ato de agradecimento seguramente que também está o amor de Deus.

Carlos Casares