LI, VI, OUVI, ESCREVI

AS MAIS BELAS COISAS DO MUNDO

Um texto absolutamente delicioso. Precisa ser degustado devagar. Uma história linda, iluminada e iluminadora de Valter Hugo Mãe.

Lê-se em poucos minutos, mas é um livro para meses de aprofundamentos. “As mais belas coisas do mundo”, de Valter Hugo Mãe é uma preciosidade de lembranças da experiência delicada de um neto e o seu avô. Uma história de amor sem igual. Uma história de sutil ligação entre um idoso fantástico e uma criança sensível. Um texto simples, cheio de expressões que dão tiros de amor no coração da gente. Uma delícia de ler e, na edição brasileira da Biblioteca, também de se ver porque os textos são colocados entre figuras recortadas e pregadas em páginas vazias. Coisa bem de criança encantada, como é o personagem central.

Eu tinha tido contato com a história do melhor lugar do mundo ser o abraço quando ouvi uma música do Jota Quest e descobri que eles a buscaram numa crônica da Martha Medeiros. O Valter Hugo Mãe lançou esse texto em 2010 e a Martha em 2008. Não creio que tenham tido contato, mas certamente frequentavam a mesmo mistério. Aliás, o texto inteiro fala em encanto e mistério, modos como o avô do narrador gostava de ver e sentir as coisas e a criança ficou marcada por esse jeito único. E ela amava aqueles abraços que eram como prêmios que recebia por responder às provocações do avô.

“Para estudar os corações das pessoas é preciso de um cuidado cirúrgico”. Essa é uma das lições que o garoto aprende com o avô. É impossível não se encher de ternura ao ler essa e tantas outras expressões da aprendizagem. Pelo conjunto do texto, parece que ele tinha uns 6 anos de idade e nem por isso era poupado de perguntas complexas pelo avô. Coisa linda. Isso o instigava a descobrir, a crescer, a sonhar. E mais: a lidar com os outros com mais carinho e cuidado. O tal “cirúrgico” da afirmação é para dizer que se trata de um cuidado que não pode deixar de lado nenhum detalhe: a pressão, os batimentos, a circulação sanguínea, as reações, a respiração. Tudo isso conta, numa cirurgia.

Uma afirmação repetida no livro é que alguém “teve de morrer”. Primeiro, a avó. E o avô deixou no coração algumas marcas importantes de como olhar para a “avó que teve de morrer” para ficar sossegada. Depois, o garoto teve que enfrentar por própria conta, com a ajuda do pai, o momento em que o avô “teve de morrer”. É duro, triste, mas absolutamente cheio de vida e beleza.  Ele  diz: “eu entendi que o meu avô eram as coisas mais belas do mundo juntas numa só. E entendi que fazer-lhe justiça era acreditar que, um dia, alguém poderia reconhecer a sua influência em mim e, talvez, considerar da minha pessoa algo semelhante. Com maior erro ou virtude, eu prometi tentar”.

Ganhei esse livro, como presente de aniversário, de uma amiga muito querida.

Rafael Vieira, 21.07.2020