LI, VI, OUVI, ESCREVI

AVE MARIA DA RUA

Uma música desconhecida, para mim, do "Maluco Beleza" expressa coisas lindas sobre a "Maria" da minha fé e das "Marias" da minha vida.

Raul Seixas

Tendo tempo para procurar coisas antigas, encontrei uma música que não conhecia: “Ave Maria da rua” (1976), do Raul Seixas. Emocionei-me, ao ouvir. Sempre gostei da fúria criativa desse baiano que marcou, definitivamente, os anos da minha adolescência e começo da juventude, mas só conheço aquelas músicas mais famosas dele. Acho que sua poesia é muito atual. Quem, hoje, duvida da força que tem “Metamorfose ambulante” (1973), “Gita” e “Sociedade alternativa” (1974) ou “Tente outra vez!”(1975)? Quem pode dizer que “Maluco beleza”(1978) já perdeu seu sentido? Eu achava o máximo cantar “Al Capone”(1973) para parecer irreverente naquele tempo: “Ei Jesus Cristo, o melhor que você faz é deixar o Pai de lado pra depois, morrer em paz” e também uma parte da quela doidinha “Cawboy fora da lei”(1987) que dizia assim: “Durando Kid só existe no gibi, e quem quiser que fique aqui, entrar para história é com vocês!”.

Paulo Coelho

A parceria dele com Paulo Coelho eu só descobri, depois, quando este último fez muito sucesso na venda de livros. Na verdade, li apenas uma obra desse fazedor de best seller: “O Alquimista”(1988). Segundo os últimos comentários que li a respeito, esse é o livro brasileiro mais traduzido no mundo. Achei a história interessante e inspiradora, mas o entusiasmo passou logo. Nunca tive a tentação de comprar e ler outro livro dele, ainda que tenha tido conhecimento das grandes campanhas em torno de outros títulos como a do “Diário de Mago”, escrito antes e que trata do caminho a Compostela, um dos temas que mais me encanta. Comprei um exemplar e nunca li uma página. No fim das contas, resisto em vê-lo junto com o anarquista Raul, apesar de eu estar certo que a terra é redonda e que eles foram parceiros. Sei também que não foi com ele, mas com Cláudio Roberto que Raul compôs a profética “O dia em que a terra parou”(1977) que muita gente está dizendo que cabe como uma luva nesses dias em que reina o corona vírus.

Mulher

“Ave Maria da rua” faz parte do disco “Há dez mil anos atrás” e é uma das últimas composições do Raul em parceria com o Paulo. É linda. Talvez mais linda para quem ama Nossa Senhora, como é o meu caso. A letra traz para a roda a questão do sincretismo. Nada mais baiano. Lembrar-se de Maria e falar em Iemanjá é a coisa mais tranquila do mundo para quem respira na Bahia. Mas, fiquei particularmente tocado com o trecho: “É Virgem Maria, é Glória e é Cecília, na noite fria, oh, minha mãe, minha filha tu és qualquer mulher, mulher em qualquer dia”. Fez-me lembrar de uma antiga discussão a respeito das disputas com evangélicos em que alguém dizia que Maria era “uma mulher como outra qualquer”. Eu pensava, em silêncio: “É mesmo! Maria é linda, maravilhosa, querida, santa, santíssima justamente porque não era uma deusa que exibia seus poderes, mas uma mulher como outra qualquer”. Uma correção: não existe mulher qualquer. Existe mulher, e, pronto.

Minha fome

Há dois trechos da música que parecem meditação mariana. O primeiro: “Bastou o teu olhar pra me calar a voz. De onde está você, rogai por nós. Ooooh, Ooooh! Minha mãe, minha mãe, me ensina a segurar a barra de te amar”. E o segundo: “Não estou cantando só. Cantamos todos nós. Mas cada um nasceu com a sua voz. Ooooh, Ooooh!nPra dizer, pra falar de forma diferente o que todo mundo sente”. E a música termina em tom de prece: “Minha mãe, nossa mãe. E mata minha fome nas letras do teu nome. Ooooh, Ooooh! minha mãe, nossa mãe. E mata minha fome na glória do teu nome”.

Brasília, 30.04.2020

Rafael Vieira