LI, VI, OUVI, ESCREVI

BACURAU

É política em estado bruto encravada num lugar ermo do sertão que acolhe até mesmo a sóbria Sônia Braga num clima de puro terror.

Nossa história

Finalmente, depois de muito querer, assiti ao celebradíssimo “Bacurau“, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dorneles. Um filme de fazer a gente quase nem mudar de posição na poltrona, mesmo sentindo o desconforto. Intrigante, instigante, cheio de suspense, violento, inteligente, dinâmico e porque não dizer, catártico! Pelo menos, para mim é sempre libertador ver o lado mais fraco tomando consciência do drama que o envolve e reagindo. A história mostra um povoado no meio do nada, ainda que seja no estado do Pernambuco, que aparenta ter sido escolhido para ser a arena de diversão doentia dos donos do mundo. Uma história de contradições muito nossas: miséria, divisão, preconceitos, cumplicidades e violência. Mas também afeto, ternura, amor e força de organização.

Tecnologia

Nos primeiros quinze minutos do filme não conseguia entender o papel da tecnologia naquele ambiente. O celular funciona, naquele ermo, melhor do que com o wifi lá de casa. Aí, uma voz dentro de mim repreendeu: “é um símbolo, idiota!” E faz todo o sentido porque é exatamente a força que defende e que ataca, o instrumento da união e da morte. Um espécie de fio que perpassa o destino de quem ataca e de quem se defende. O artifício de quem engana e a força de quem luta para sobreviver. O retrato do nosso cotidiano em todo o canto desse mundo, nos tempos atuais. Quando aparece um disco voador achei que a coisa simbólica ia me complicar, mas aí um personagem disse que era um “drone”, então me dei conta que o buraco era mais embaixo.

Inglês

A maior parte do filme exige que se leia a legenda porque estão lá atores americanos apenas caprichando no falar para nos ajudar. Outro símbolo fortíssimo. E eu que fiquei esperando a Sônia Braga falar inglês, porque sei que ela é boa nisso, fiquei na mão. Ainda assim tem brasileiro falando outra língua e querendo ser “white people”. Que lástima. É tão verdadeiro aquele jeito de querer ser como os norte-americanos refletido no filme. Dá pena ver aquilo. É repugnante tanto quanto para aos estrangeiros que se entreolham, no deboche. Mas, a língua diz muito mais do que nos é apresentado como bom e justo e, no fim, nos custa simplesmente a vida. Nesse contexto, o racismo não poupa nem o chefe dos estrangeiros que é um alemão que quer ser mais dono do idioma do que os outros.

Política

O símbolo ou os símbolos que parecem dar senso à história estão na esfera da política. É por isso que esse filme tem incomodado tanto. A minha voz mal-educada disse: “é tudo política, idiota!”. Ando muito mal acostumado. O filme pode ser dissecado parte por parte e em todos os símbolos caberão a palavra “política”. Desde o sujeitinho ridículo de botas e cabelinho penteado de lado que fala num megafone até a frase final pronunciada por um homem totalmente coerente. Eu não vou dar spoiler, porque impediria que você pudesse ter a riqueza da visão que eu tive. Um filme incrível. Quero até ler algumas críticas feitas por quem entende para degustar ainda mais essa experiência que fiz encostado no sofá da casa da minha irmã.

Brasília, 11.12.2019

Rafael Vieira