EDITORIAL

QUEM QUER BARGANHAR?

Episódio recente de grande repercussão na mídia envolvendo TVs de inspiração católica me fez pensar em três coisas que me parecem fundamentais para se entender esse País:

Primeiro: somos filhos de uma cultura da troca. Desde a mais tenra idade, aprendemos que uma coisa tem valor e pode ser trocada por outra que também tem valor. Dinheiro e mercadoria. A gente vai na padaria comprar pão e deixa o dinheiro para poder levar o pão para a casa. Essa lógica, do ponto de vista econômico, tem um nome claro: sistema capitalista. Pouca gente quer saber disso nos dias de hoje. Esquece que para manter uma TV é preciso ter dinheiro para pagar as coisas. Eu li declarações que desconhecem essa realidade.

Segundo: Um governo que se preze deve atender a todos, sem discriminação. Eu sei que a premissa não é respeitada. Quem tem o mínimo de conhecimento sobre mídia técnica poderia (se quisesse) entender que esse tipo de mídia não é favor e nem elogio a governo algum. É um tipo de mensagem necessária para que a população fique informada sobre o que a União faz com o dinheiro impostos pagos pela população.

Terceiro: estamos impedidos de expressar qualquer demanda que não seja a de salvar vida. Infelicíssima, a iniciativa de quem quis promover reunião entre TVs de inspiração católica e governo num momento como esses. Todos os recursos e esforços devem ser canalizados para fazer frente a uma pandemia. São milhares de brasileiros mortos pelo Covid-19. Toda a atenção e cuidado devem voltar-se para a superação desse momento. Atenção de todos: governo, sociedade, Igrejas.

Brasília, 08.06.2020

Rafael Vieira

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BRASIL NA UTI

Eu tento, mas não consigo imaginar outro lugar onde a nação inteira se encontra. Estamos doentes, bem doentes e necessitados de tratatamento intensivo. Estamos todos em uma UTI, como aquelas que acolhem pacientes graves vítimas ddo Covid-19. Um vírus terrível nos atingiu a todos e não ouso dar um nome a ele, mesmo sabendo que faz tão mal como o corona que foi capaz de parar o mundo inteiro. Estamos submetidos a uma rotina dura de aguentar. Hoje mesmo, li um post de um colega de UTI que depois de assistir a um video de uma reunião ministerial, ele estava com dificuldades de respiração e avisou: se eu morrer, não tenham dúvidas sobre a razão da minha morte.

São jornadas inteiras marcadas por uma angústia que se assemelha ao que alguém poderia ter olhando para  o ambiente branco das UTIs e para aquelas pessoas que se aproximam como que vestidas de astronautas para evitarem um contágio. Está muito complicado viver, sem se alienar, no Brasil dos nossos dias. Compreendo que tenha quem não ligue mais o rádio e a TV. É para fugir dessa loucura. É para imaginar que já saiu da UTI e está num quarto mais sossegado. Mas, mesmo essas pessoas sabem que o seu lugar foi coupado lá na UTI e muitas pessoas só saem de lá para o cemitério e deixam de ser sujeitos com história e amores e passam a ser apenas números de uma pandemia sem nome.

Inisto em rezar. É o que faço todo dia. Peço a Deus que nos ilumine e nos dê forças para nos conformar com as restrições de vida que uma UTI exige. Peço a Deus que as pessoas que nos cercam tenham a coragem que somente o ceu pode dar e nos ajudem a tomar os remédios certos, nas hora certa sem tirarem os olhos dos aparelhos que demonstram nossos sinais vitais. Peço a Deus paz e serenidade para aqueles de quem a vida não será poupada e serão colcoados em sacos de napa preta e levado para os necrotérios. Peço a Deus que nos conserve de olhos abertos para que ninguém nos confunda e ache que já partimos. A UTI dá medo. É lugar dos fortes.

Brasília, 24.5.2020

Rafael Vieira