MEUS LIVROS

PARA SER FELIZ É PRECISO CONHECER E ASSUMIR NOSSAS RAÍZES

Livro: “Colheita de aspargos – considerações livres sobre a felicidade

Rafael Vieira, 2005

Respeite as raízes

“Se alguém não encontra a felicidade em si mesmo,

é inútil que a procure noutro lugar”

(La Rochefoucald)

Alicerces

Nós, seres humanos, somos bípedes. Caminhamos com leveza como se voássemos. Movimentamo-nos para os lados sem cairmos. Nossa performance como seres depende de forma essencial da plataforma que nos ampara. E dos tentáculos que conseguimos penetrar nessa base. Assim como as árvores, as pessoas também dependem das raízes para crescerem, se desenvolverem e chegarem à maturidade produtiva. As chances de felicidade não existem para aqueles que não reconhecem que estão fincados, no chão da existência, qualquer projeto de vida. Pessoa alguma pode contar com o êxito se insistir em se comportar como se fosse uma paina perdida ao vento e levada de um lado para o outro. A liberdade total de trânsito no terreno da vida é uma mentira. Uma ilusão. Guinadas absolutas, distanciamento da própria origem, sensação de estar recomeçando do ponto zer são apenas técnicas de incentivo para mudanças necessárias, mas jamais expressão literal do que uma pessoa possa fazer no seu caminho. Há uma série de limitações, definidas justamente pela base que uma pessoa recebeu, desde a sua concepção até a morte, que impede a execução de transformações radicais. Uma investigação para o reconhecimento desses alicerces constitui, portanto, uma das tarefas primordiais de quem pretende dar sentido positivo permanente para seus passos na peregrinação pelas maravilhas do mundo. Eu estou certo de que poderíamos resumir o sentido da felicidade na seguinte fórmula: felicidade é o valor correto, sem engodo, dado ao conjunto das realizações, sentimentos, pensamentos e emoçoes que uma pessoa vive todo dia sem se esquecer de que tudo depende de sua postura.

Quando alguém se põe de pé, há sempre o risco de que seus pés não estejam firmes, embasados em uma superfície seca. Os planos esocrregadios frustram os melhores propósitos de manter-se ereto. A pessoa pode até chegar a equilibrar-se por um tempo ou o tepo todo, mas a ausência de condições de segurança na base em que ela pisa compromete de maneira profunda a serenidade dos seus passos. O tempo todo se considera a hipótese de que a ineficiência do passo poderá resultar em quedas terríveis e a iminência da queda atribui ao caminhante um modo de lidar com as sensações que o deixa em permanente risco. Nós sabemos disso. Quem vive com esse medo constante não degusta o sabor da hora vivida. Está sempre com os sentidos no porvir e nas probabilidades de cair. Não da para considerar que seja bom o estado de espírito daqueles que passam pela vida sem conhecer a base onde pisam. Eu e você podemos nos convencer disso, pois a ignorância arranca de cada um de nós o direito de relaxar. Tira da gente o alento e a atmosfera que possam dar alívio aos nossos constantes receios. O fantasma da queda, criado pela falta de conhecimento do solo onde nos apoiamos pode retirar de nossa vida o gosto de olhar para várias direções. Alguém que vive sob a tirania desse perigo só sabe olhar para o chão e, curiosamente, jamais chega a desconfiar do que a vida lhe reserva no próximo dia.

As raízes humanas têm funções ambíguas na existência. Elas criam a base que impossibilita as pessoas de caírem, mas tornam-se, aos olhos mais desatentos, uma espécie de prisão, porque segura e não dá permissão para que essas pessoas se confundam com os pássaros. Tomemos essa imagem como instrumento de aprendizagem. Mesmo que o voo seja uma das metáforas mais bem-sucedidas no campo explorado por aqueles que querem dizer com clareza como deve ser uma vida feliz, uma pessoa que se mete a voar vai estatelar-se no chão. É como acontecia com aqueles meninos pegavam toalhas, escondidos de suas mães, amarravam essas toalhas no pescoço deixando-as estendidas sobre as costas, subiam em escadas, colocavam as irmãs menores para assistirem à sua aventura, jogavam-se com braços abertos como se fossem o super-homem e caíam, invariavelmente deixando feridas e o desapontamento como o fim do jogo. Uma pessoa não pode confundir suas habilidades. Os personagens de ficção humana e seus poderes só podem valer enquanto conservam o sonho de expansão constante. Há sempre, no entanto, que perceber que toda história feliz depende de uma consciência apurada sobre as realidades que conservam as pessoas no patamar de segurança e firmeza, ainda que possam também definir liitações importantes.

A base de movimentos na vida de uma pessoa é formada pelas condições que a colocaram no mundo. Sua pré-história tem valor pedagógico de fundamental importância. Os fatos que antecedem a proeminência da cabeça e do coração de alguém são a chave e o segredo para se explicar, de forma profunda, as razões que levam esse alguém a marcar passo na vida ou caminhar com desenvoltura. A base pessoal precisa ser conhecida com muito zelo e assumida sem parcialidades. Quem nega suas raízes está condenado, sem apelo, a uma sucessão de fracassos. Nós estamos condenados a reconhecer essa verdade. A felicidade não visita a casa daqueles que renegam o barro do qual são feitos. Dos que rejeitam seu conteúdo primeiro e sua pele. Dos que, deliberadamente, fingem não ver os antecedentes dos passos e a base na qual tentam avançar para o futuro. A felicidade não é amiga dos iludidos contumazes. Dos que insistem em não ver o que está presente nas camadas mais profundas de sua história particular. Dos que comprazem com a casca e não ligam para o espírito. A base nisteriosa da vida individual é a caixa de surpresas que grante excelentes descobertas na vida de alguém que sabe onde pisa e qual é o seu destino.

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Livro “Cartas na mesa – mensagens para reflexão”

Rafael Vieira, 2008

Prezada senhora.

Há dias, eu tento encontrar um jeito de iniciar esta carta. Deparei com muitas dificulades em todas as tentativas que fiz até agora. A certeza de que a dor embaça seus olhos me aconselha a não dizer nada. A consciência de que o valor das palavras perde muita intensidade quando a indignação e a revolta nos rodeiam como cães selvagens também me desestimula. Fico pensando que sua desolação deve doer tanto, que sinto uma espécie de paralisia ao imaginar que mesmo sendo possível as mais poderosas expressões sobre a firmeza de vida diante das tragédias, e as mais encantadoras ideias sobre resignação, de pouco adiantaria. Ao ver a senhora sobre o caixão de seu filho chamando-o de “meu bebê”, experimentei a mais completa mudez. Supus que não há o que falar. Depois do sepultamento, voltei para casa achando que a senhora deve ter escutado muitas exclamações assustadas sobre a violência dos nossos dias e consoladoras afirmações de que Deus toma conta de tudo e que já acolheu seu filho no céu, mas desconfio, seriamente, que mesmo reconhecendo o fato de que a solidariedade tenha levado um pouco de paz ao seu coração diante das dramáticas constatações a respeito da barbárie que assola nossas ruas, a senhora continua a sentir um vazio inexplicável e uma profunda sensação de impotência. Foi por causa disso que me atrevi a escrever.

Outro dia, numa sala de cinema de um shopping barulhento da cidade, fui ver “Linha de passe”, um filme dirigido por Walter Salles e Daniela Thomas. Uma das intérprestes, Sandra Corveloni, ganhadora do prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes de 2008, na França, faz o papel de uma mãe que acompanha a vida de seus quatro filhos, aguardando o último, que ainda está no ventre, tendo justamente a impotência como sua companheira constante. Essa pobre mulher representada na tela, por mais que perceba as dificuldades dos filhos e queira deles um comportamento diferente, ele não tem poder algum para mudá-los ou mudar suas vidas. Ela disfarça sua angústia e dribla seu cotidiano duro torcendo para o Corinthians, lembrando seus antigos amores e se matando de trabalhar. Nada disso produz uma mudança grande no destino dos quatro rapazes, mas aquela mãe não os abandona, vive e se afunda no abandono com eles. Uma mãe quase ingênua, lutadora, forte como uma rocha e sem nenhuma, absolutamente nenhuma demonstração de que tem pena de si mesma. Ela evita a vala comum que deve estar diante da senhora neste momento: um desejo inexplicável de exigir compaixão do mundo pelo que a vida está fazendo com a sua família.

Seu filho foi assassinado. Diante dessa realidade, qualquer raciocínio sobre conflitos urbanos, falta de política de segurança pública o cautela no modo de enfrentar as ruas tem importância menor. Essa é uma verdade completamente surda aos argumentos. Seu coração não se aquieta diante dos dedos levantados em riste contra os culpados por essedrama. Sensatez é uma mera decoração da alma para essa toda encharcada pela sensação de que seu menino não vai mais aparecer para almoçar, não vai mais se envolver em relacionamentos afetivos que a preocupam e nem encher a cabeça de sobressaltos com a hora que ele chega da rua. Seu menino morreu. As pessoas estão insistindo, de forma justa, no fato de que o assassinato é uma forma cruel de encerrar a existência de uma pessoa, mas para a senhora, eu creio, a morte do seu filho é morte e pronto! Não há aumento de dor pela forma como ela ocorreu. A covardia de quem atirou no seu filho, a seriedade da crueza dos fatos e os possíveis motivos ou a falta deles para circunstanciar a morte dele não retira um grama do peso que a senhora sente sobre as costas. Até mesmo os contantes e oportunos apoios em vista da apuração do crime e da necessária busca de punição para quem tem a culpa não são suficientes e não aplacam a sua dor.

Preciso me lembrar que só pode ter real e completa noção de uma perda quem efetivamente compreendeu a dimensão do que tinha e desconfio que, por mais que existam falhas no modo de acompanhar o crescimento de um filho, somente que o pariu  e o embalou pode dizer o que significa perdê-lo. Somente a senhora, dessa maneira, pode dizer algo que nos remeta, mesmo que palidamente, ao sentimento que a inunda nessa hora. Estou convencido de que antes de falar, deveríamos ouvi-la. Mas eu sei também que se a senhora encontrar forças e o mínimo de condições emocionais para falar, vai querer nos contar que, noutro dia, seu filho chegou em casa com a roupa suja, disse uma porçao de coisas que a deixou intrigada e que mantinha aquele olhar desprotegido. A senhora não será capaz, eu sei,de nos revelar com a frieza necessária para a nossa compreensão, o que realmente ele fazia de negativo e que a deixava chorando pelos cantos. Não se pode esperar de uma mãe que ela tenha uma imagem imparcial sobre um filho. A senhora não será capaz, jamais, de nos contar quem era seu filho naquelas características problemáticas. Primeiro porque mãe é quase sempre a última a ser comunicada sobre isso e, depois, mesmo sabendo, com algum esforço, a senhora só vai nos dizer de maneira vaga e rápida que ele tinha lá seus “defeitinhos”. Eu entendo e não quero e não espero que a senhora seja diferente. A senhora não precisa dizer nada, essaé que é a verdade.

O quadro de violência de nossas cidades é o maior e mais perfeito boletim de que esse é um país acossado. A desenfrada e espetacular corrida ao crescimento econômico continua deixando para trás uma multidão de pessoas entregue à própria sorte. Obalizamento das políticas públicas em relação à segurança do cidadão está sufocado pelas metas econômicas de um sistema ancorado na sede do triunfo. Há analistas que já nos colocam como uma força emergente global detentora de reservas de petróelo e de alternativa de combustíveis limpos. Nesse clima, não há controle sério e engajado dos números da violência. Essa tarefa primordial do estado está relegada ao trabaho de organizações não-governamentais, das igrejas e dos organismos internacionais. O discurso sobre a exclusão social promovida por uma economia desalmada está confinado aos encontros alternativos dos chamados saudosistas dos regimes coletivistas. A cobiça, querida senhora, é o conteúdo mais precioso desses tempos de expansão. Desse modo, a morte do seu filho não interessa aos maiores responsáveis pela discussão de nossa convivencia nas cidades e, com muito favor, dependendo do relacionamento de sua família com os círculos políticos, nesse momento de dor e de desamparo, a senhora vai receber de autoridades, um abraço de condolências.

Outras mulheres, como a senhora, estão sentindo a mesma dor. No Brasil, há assassinatos todos os os dias e em grande quantidade. Milhares de mães, do mesmo modo que a senhora fez naquele dia lá no cemitério, estão, neste momento, debruçada sobre caixões. Algumas acham que foi uma injustiça total porque seus filhos eram homens de bem e que andavam inocentemente pelas ruas num final de semana. Outras sabem que os envolvimentos com droga e o tráfico já haviam condenados seus meninos a morrer. Há mães ainda, que choram  a perda de filhso assassinados porque eram defensores dos mais fracos. Todas elas, como a senhora, têm o direito sagrado de chorar, de exigir justiça, de pedir força espiritual, de lamentar, de contar histórias bonitas dos seus meninos, de mostrar suas fotografias e vídeos, de guardá-los no peito, de fazer camisetas com o sorriso deles estampado e, claro, têm tambem o direito, se quiserem, de ficar quietinhas e em silêncio. E eu queria pedir que a senhora me entenda, acolha essas minhas palavras como expressão do meu carinho e me perdoe pela falta de jeito.

Com minha oração, um abraço longo e afetuoso.