LI, VI, OUVI, ESCREVI

CONVERSA EM CHAT SOBRE XADREZ

No Caderno de Cultura da edição do último domingo, 15 de setembro, do Jornal “Il Sole 24 ore”, encontrei uma conversa enigmática entre um homem e uma mulher no chat. A ideia do texto traz uma crítica ao modo de lidar com a internet e dos riscos. Vale a pena acompanhar o papo. O texto é de Roberto Casati e Achille Varzi. A tradução (sem grande qualidade) é do blogueiro.

Simplicidade intransponível

Estratagema para uma vitória certa

Ela (inicia o chat): Eu encontrei um site onde você pode desafiar um grande mestre de xadrez.

Ele: Você sabe muito bem que eu sou muito ruim no xadrez.

Ela: Não tem problema nenhum. O importante que você entre também neste site. Existe a possibilidade de ganhar um prêmio. Por uma módica quantia de 10 euros você pode desafiar um Grande Mestre, e se você vencê-lo, vai ganhar 100 euros. E você pode escolher jogar com preto ou com branco.

Ele: Eu disse que eu sou um cara que não sabe jogar. Vou jogar no lixo 10 euros tanto jogando com o branco como com o preto.

Ela: Mesmo que eu não sou muito boa nesse jogo.

Ele: Na verdade, eu não entendo toda essa sua animação. Se você não quer ser a única a perder, é simples: só não jogar. Se ambos vamos perder, parece ser uma má estratégia.

Ela: A estratégia não é. Eu tenho uma ideia muito melhor.

Ele: Explique-se.

Ela: Suponha que se inscrevermos tanto você quanto eu e você e eu jogarmos com o preto e com o branco. Neste caso, nossos adversários terão, respectivamente, a branco e preto.

Ele: Até agora não me parece uma grande sacada.

Ela: Espera. Então: depois que entrarmos no jogo, vamos começar nossos jogos mais ou menos simultaneamente. Você espera o movimento de seu oponente (branco). Quando o seu Grande Mestre fizer a primeira jogada, eu vou começar o meu jogo da mesma forma.

Ele: Você irá copiar a jogada dele?

Ela: Exatamente. Você vai continuar a esperar para ver qual peça o meu adversário (preto) vai mudar e, nesse ponto, mas só então, você vai fazer o seu primeiro movimento, copiando essa jogada. Depois eu vou copiar de novo o movimento do seu oponente e você copia a nova resposta do meu adversário. E assim por diante.

Ele: Não me parece muito honesto.

Ela: O que é certo é que no final um de nós vai ganhar com certeza. E, assim, levar para casa 80 euros.

Ele: Por que você diz isso?

Ela: Porque é que para um de nós perder, o outro terá de ganhar. Por exemplo, se você perder com o preto, eu ganho com o branco, porque os meus movimentos são exatamente os do seu oponente, e os do meu oponente serão exatamente os seus. Se eu perco, isso significa que você ganha. Na prática, será como se os nossos dois adversários estivessem jogando um contra o outro. Nós seríamos suas suas sombras.  E a sombra do vencedor,  vence.

Ele: Talvez não existam dois Grandes Mestres, mas apenas um.

Ela: Isso significa que irá jogar contra si mesmo tanto com o branco quanto com o preto. Isso não muda nada. Ou ganha o branco ou o a vitória será do preto.

Ele: Você pode sempre acabar empatando.

Ela:  Em tal caso, há regras no site que dizem que você tem direito a um segundo jogo livre. Se um de nós empata, o outro também empata. Em seguida, pode se repetir o mesmo procedimento gratuitamente. Mais cedo ou mais tarde alguém vai ganhar e o outro vai perder, e quem ganhar levar 8o euros para casa.

Ele: Eu entendo que dois Grandes Mestres não são obrigados a empatar uma partida. Mas você se lembre que estes mestres poderiam ser uma única pessoa que tem vários desafios ao mesmo tempo.

Ela: E eu vou repetir a minha resposta: nada muda. Mesmo jogando contra si mesmo ou você pode ganhar ou perder. Não é a identidade do jogador que faz a diferença, mas o jogo, a sequência de movimentos.

Ele: Eu reconheço que, em qualquer caso, seria bons jogos! Mas ..

Ela: Mas?

Ele: Mais cedo ou mais tarde alguém vai perceber o golpe. Principalmente se os grandes mestres forem uma só pessoa. Mas, mesmo se eles forem diferentes pessoas, imagino que alguém é responsável de controlar os jogos, e não vai demorar muito notar que os jogos são iguais. A possibilidade de que dois jogos de xadrez sejam exatamente iguais é muito baixa.

Ela: Se não estou enganado, o número de jogos diferentes em 40 movimentos é igual a 25 x 10.115.

Ele: Certo. É um número estratosférico. Considere-se que o número de eléctrons do universo do inteiro é estimado em 1.079.

Ela: Nós podemos generalizar este entendimento e perceber que é o que pode acontecer  com todos os jogos intelectuais quando há dois concorrentes.

Ela: Eu sinto muito, mas eu acabei de escrever isso que você me enviou..

Ele: Oops .

Ela: Mas veja isso .. você … o que tipo de cara você é.. Você está conversando com outra pessoa enquanto conversa comigo e você copia e cola minhas frases! E você errou agora, quando, ao invés de copiar e mandar para essa pessoa, acabou copiando e enviou para mim uma das minhas frases. E talvez as frases que você estava escrevendo para mim você também estava copiando de alguém.. era isso? Diga-me! Diga-me!

(Nenhuma resposta)

www.ilsole24ore.com/domenica

Rafael Vieira, 20.9.2013