LI, VI, OUVI, ESCREVI

DALLAS BUYERS CLUB: SOLIDARIEDADE NO MEIO DO DESESPERO

Compartilho, hoje, as impressões que me causaram o filme que fui ver nesse domingo. Ganhador de 3 Oscar e continua atraindo muita gente. 

DALLAS BUYERS CLUB (2013), com Matthew McConaughey e Jared Leto. Direção: Jean-Marc-Vallée.

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A solidariedade é algo sagrado e quando se manifesta em ambientes despojados de propaganda de valores tanto das religiões como de líderes espertos em discurso de humanidade, parece ser ainda mais profunda. A travesti que se aproxima do perturbado protagonista do filme que mereceu 3 estatuetas do Oscar na última temporada é uma explosão na tela. Um personagem feito com o coração de quem escreveu, dirigiu e interpretou. Uma figura que é solidária, ao seu modo e meio sem querer, mas que carrega uma força estrondosa de luz que os olhos do ator que a interpretou repassa com extraordinária firmeza. Ela não liga para a homofobia asquerosa do dono da história, não se eleva diante dos seus ataques de crueldade, mas mantém o passo de forma tão serena que no momento mais grave do percurso é justamente ela que traz o imprescindível suporte financeiro para a continuidade da batalha sem revelar a origem do dinheiro, realizando assim, um gesto nobre, profundo e decisivo.

O filme é pesado. McConaughey não lembra em nada o galã de outros tempos. É um fulano caquético com expressões corporais absolutamente distantes de suas conhecidas performances de sex simbol em filmes açucarados. Essa transformação faz o público esquecer o ator e se interessar pelo personagem e nisso está o melhor dessa arte. Um texano heterossexual, de hábitos sexuais bem amplos, descobre que carrega um vírus maldito, até então considerado que apenas se alojava no sangue dos gays. Ele passa por um corredor de grandes lances com a doença e não respeita aquela passagem por fases distintas da conhecida estrada do negar, sofrer, aceitar e vencer. Nele, ocorre tudo ao mesmo tempo. Pode se dizer que ele nega, sofre, aceita e vence do começo ao fim, ainda que morra de AIDS depois de 7 anos do diagnóstico positivo do HIV. Desde as primeiras até as últimas cenas, o que se vê é um inconformado rústico que faz de sua furiosa revolta um caminho para garantir sua sobrevida de doente e para ganhar dinheiro.

O sistema da fabricação de remédios, da condução de pesquisas e da aprovação de fármacos nos Estados Unidos – modelo quase igual no resto do mundo – é colocado sob suspeita. E o AZT, remédio mais conhecido da primeira fase do aparecimento da AIDS, é o grande vilão merecendo do protagonista combate árduo. Causa impressão que um homem dos rodeios se enfronhe pelas histórias de remédios antivirais daquele modo. A decisão tipicamente capitalista de fazer de toda ocasião um motivo para obter lucros se mistura com uma batalha insana de um doente que sai pelo mundo atrás daquilo que o pode manter vivo e faz disso a mercadoria do seu “Clube de compradores” que funciona nas instalações cedidas pela travesti que ele tanto  provoca. As manobras para driblar a fronteira  do México leva o maluco Ron a se disfarçar de padre e numa cena que parece rezar diante de velas, que no fim das contas era apenas a decoração de um palco de streap tease, ele diz: “me dá uma chance”.

O primeiro livro que li inteiramente em italiano, traduzido do inglês, era a autobiografia de Rock Hudson, o grande astro gay de Hollywood que encantou gerações de mulheres no mundo inteiro e foi a primeira vítima famosa do HIV. O personagem de McConaughey se refere a ele em seu ambiente de cowboys no Texas. E foi justamente sobre esse mesmo mal que transversalmente atingiu o protagonista e Hudson que eu encontrei a cena mais forte desse filme. Aquela que mais me fez refletir. E não tinha nada a ver com a linha principal da história. Descrevo-a: um rapaz com cabelo longo e preso espera por um senhor que desce uma escada e faz sinal para que ele suba. A cena segue dentro de um escritório e esse senhor que chamou o rapaz, está bem vestido, tem óculos e uma fisionomia grave. Ele olha para o rapaz que tem dificuldades para falar, mas diz que está indo bem e o chama de pai. Pergunta pela mãe e, no momento, em que o pai se refere a homossexualidade do filho e solta a expressão: “Oh Deus, me ajude”, é interrompido pela voz firme e cheia de dor do filho que responde: “Ele já ajudou. Eu tenho AIDS”. Senti uma pancada na boca do estômago. Naturalmente, lembrei-me de que esse vírus foi considerado uma maldição divina para com aqueles que não respeitam a lei chamada de natural. Um castigo dos céus. No final da cena, sem autocomiseração, esse rapaz que é o travesti, pede ajuda e  o que ganha vai ser sua colaboração na luta do protagonista.

Rafael Vieira,16.3.2014