LI, VI, OUVI, ESCREVI

DEIXA A NEVE CAIR Netflix

Deixe a neve cair

Bacaninha. Uma história completamente inverossímil com perfis psicológicos facilmente encontrados em todo canto. Talvez por isso o filme seja palatável para muita gente. E a poesia da neve… já vou logo avisando: não caiam nessa! Entre 1990 e 1994 tive que andar sob queda de neve enquanto procurava as capelas para celebrar missa junto com os imigrantes portugueses do cantão alemão da Suíça e, em poucos minutos, aquela beleza toda dos floquinhos cainda vira frio e incômodo com aquilo entrando por todas aberturas do seu casaco.

Uma menina realista, altruísta, responsável e totalmente distante da cultura de celebridades encontra um famoso entediado com seu o casulo e tremendamente solitário, cheio de mistérios. Eles se relacionam, tem conflitos e terminam bem. Um gordinho aspirante a DJ que é oprimido pela família tenta uma aventura, dá errado, e termina bem. Uma menina bonita e possessiva que não consegue imaginar o namorado distante dela briga com meio mundo tem um encontro hilário com uma senhora embrulhada no alumínio e termina bem. Uma menina gay resolvida, assumida, solta e intensa se dá super mal com suas declarações, sofre e termina bem. E, por fim, dois amigos de infância que se amam, mas não se declaram, se machucam, se declaram e terminam bem.

Três mulheres escreveram essa história: Kay Cannon, Victoria Strouse e Laura Solon. E tudo termina bem. E termina num lugar simbólico: uma lanchonete que se chama “waffle town”. As coisas, na vida, são meio assim: gigantescamente instaladas no comum das nossas histórias particulares e degustáveis como se faz com uma  bolacha feita de farinha de trigo, ovos, leite, fermento, açúcar e manteiga. Aqui e ali o filme destila um ensinamento de autoajuda que são legais. Por exemplo: para de dar importância para quem não dá importância para você. E tudo ocorre na véspera de Natal, em Laurel, em Illinois. Se eu tivesse 20 anos, ia querer ser americano.

Rafael Vieira

Netflix, Goiânia, 03.03.2021