LI, VI, OUVI, ESCREVI

DEUS EXISTE?

Peço a permissão do leitor para uma partilha de outro tipo de conteúdo: começo a ler as 1096 páginas de uma obra histórica do teólogo suíço Hans kung. Tomei coragem porque conheço um dos seus trabalhos mais comentados, o “Ser cristão”, e mesmo que esta obra “Deus existe?” tenha sido lançada no ano que entrei no Seminário, em 1978, ela traz um debate muito atual. E desse modo, vou preparar para ler o último trabalho de Kung que tem o título “Volto a Jesus”.  O autor fez um belo prefácio para esta nova edição italiana (a tradução, dessa vez, não é do google, mas minha):

Nestes tempos de vida frenética, em geral, os livros, um ano apenas depois de seu lançamento, já são considerados “muito velhos”para o mercado e devem desocupar as prateleiras das livrarias para dar espaço aos produtos editoriais das novas tendências. Mais difícil do que escrever um bestseller é escrever um longseller. O meu livro “Deus existe?” é, felizmente, as duas coisas. Para mim, enquanto autor, é uma extraordinária satisfação constatar que um volume, publicado em alemão em 1978 e na Itália em 1979, possa ser lançado hoje, em 2012, numa segunda edição em língua italiana.

Este livro foi escrito para um vasto público. Não foi escrito para os teólogos, mesmo que se dirija também a eles.

Como o outro livro “Ser cristão”, esse livro quer abrir horizontes novos para a teologia contemporânea. A nova abordagem inaugurada pelo livro pode ser condensada em 10 princípios seguintes:

1. Não deve existir um saber esotérico reservado a quem crê, mas algo que seja compreendido também por quem não crê.

2. Não dou nenhum prêmio para a “fé pura” e nem defendo o sistema “eclesiástico”, mas apresento esforços científicos rigorosos e sem nenhum tipo de comprometimento, em busca da verdade.

3. Os adversários ideológicos não devem ser ignorados, nem estigmatizados, nem teologicamente supressos, mas interpretados em boa consciência, com a maior abertura e tolerância possíveis e, ao mesmo tempo, colocados à prova mediante correta e imparcial discussão.

4. A interdisciplinariedade não é somente para ser invocada, mas para ser exercitada: o diálogo entre cientistas que trabalham em setores convergentes deve acompanhar passo a passo o trabalho solitário realizado no âmbito da pesquisa.

5. Nenhuma hostilidade inconciliável, mas também nenhuma simplificação pacifista. O que serve mesmo é um confronto dialógico sobretudo entre filosofia e teologia, teologia e ciências naturais: a religião e a racionalidade caminham juntas.

6. As prioridades não devem contemplar os problemas do passado, mas os grandes e complexos problemas dos homens e da sociedade de hoje.

7. A norma fundamental da teologia cristã, da qual se origina todas as outras normas, não pode ser uma instituição ou uma tradição eclesiástica ou teológica. Deve ser o Evangelho, o original da mensagem cristã: queremos uma teologia orientada, em tudo e para tudo, à pesquisa histórica e crítica da Bíblia!

8. Não deve falar a linguagem arcaica da Bíblia, nem aquela dogmática de tipo helenista-escolástica, nem ainda o jargão filosófico-teológico tão moda nos dias de hoje, mas a língua compreensível a todos, aquela do homem moderno: não se deve economizar nenhum esforço nessa direção!

9. Teoria e Praxis, dogmática e ética, devoção pessoal das instituições não devem ser vistas como separadas, mas na sua indispensável relação.

10. De nada serve uma mentalidade confessional de gueto, mas uma abertura ecumênica, aquela concebida pelas religiões universais e das ideologias modernas: a maior tolerância possível em relação a quem está distante da Igreja, em relação a pessoas de outras religiões, e as pessoas em geral, ao mesmo tempo uma distinção precisa daquilo que é especificamente cristão.

Este livro foi escrito, portanto, para defender, justificar, explicar e desafiar a fé em Deus em uma época na qual sejam os representantes de Deus na terra, sejam seus opositores, todos perderam credibilidade: não pela própria, mas – como indicado na dedicação a Santo Inácio de Loyola e Giovane Calvino – pela glória de Deus, “ad maiorem Dei gloriam“! A fé não deve, no entanto, ser declarada de forma patética, dogmaticamente ou declarada do alto de uma cátedra, mas fundamentada com modéstia na teologia: como e por que, também um homem dotado de espírito crítico, pode dar satisfação, diante de si mesmo e dos outros, a respeito de sua fé em Deus? Eis uma resposta para hoje.

Hans Kung

Um dos maiores teólogos do nosso tempo, professor emérito de Teologia ecumênica na Universidade de Tubinga, Sempre empenhado em enriquecer o diálogo entre as religiões, é presidente da Fundação Weltethos, fundada por ele em 1993. Muito conhecido pela posição sempre crítica em relação ao ambiente interno da Igreja, Kung é autor de muitas obras, sendo as mais recentes: Islam (2005), O início de todas as coisas (2006) e Honestidade (2011).

Rafael Vieira, 21.9.2013