LI, VI, OUVI, ESCREVI

DOIS PAPAS

Dois tipos fortes interpretados por dois atores carismáricos numa trama incrível que poderia, tranquilamente, ser um fato histórico, mas não é.

Papas diferentes

Comentado por toda parte, o filme “Dois Papas”, disponível na Netflix, me chamou atenção do primeiro ao último dos 126 minutos de projeção. Quase nem vi passar. As cenas são tão instigantes que nem me lembrei que se tratava de ficção. Parece tudo muito plausível, muito possível. E olha que o conhecimento mais profundo do que se passa com esses dois homens tocou minha vida de perto. Eu estava em Roma, em 2005, depois dos funerais do São João Paulo II e vi o alvorço em torno da eleição de Joseph Ratzinger. Eu também estava em Roma em janeiro de 2014 e acompanhei um mês de catequese de Jorge Mario Bergoglio, Papa Francisco. Temi que a escolha do “Rotwailler de Deus” fosse nos colocar em uma situação muito difícil, na Igreja, mas fiquei felicíssimo quando li sua primeira Encíclica “Deus caritas est”. A renúncia de Bento XVI me pegou de calças curtas. Era assessor de imprensa da Conferência dos bispos e passei por um grande sufoco juntamente com minha equipe para digerir aquele fato tão inusitado. Tenho acompanhado o pontificado de Francisco com tanta esperança que me obrigo a ler, semanlmente, ao menos uma de suas homilias. 

Fatos

Nada dessa minha “intimidade” com esses dois personagens me distanciou daqueles presentes no filme dirigido por Fernando Meirelles. Retirando uma imprecisão aqui outra ali, o roteiro é tão fluente que dá gosto de imaginar aquele encontro inventado entre Ratzinger e Bergoglio antes do Conclave de 2013. Há elementos bem verdadeiros no filme. E um deles é a participação linda do Cardeal de Milão, Carlo Maria Martini. Ele falava de mudanças muito antes da morte de São João Paulo II. Seu pastoreio em Milão foi admirado por muita gente e dava gosto ler seus textos. Biblista e jesuíta como Bergoglio, ele foi a aposta de muitas pessoas como um Papa necessário para os nossos tempos. Os problemas enfrentados com sua saúde e a lucidez em saber que ele não teria condições físicas para se tornar Papa impediram que ele se tornasse um nome viável. Outra coisa muito coerente e bacana no filme é a expressão de um trecho da vida de Bergoglio que até hoje deixa pairar dúvidas: sua atuação nos tempos da ditadura militar na Argentina. O filme o redime ao colocá-lo no banco dos réus, por vontade dele mesmo.

A culpa

A culpa, na verdade, une os dois papas. Um, por ter sido tão “cuidadoso” com sua Ordem religiosa em detrimento do drama vivido pelo povo argentino. O outro, por ter sido tão próximo e possivelmente enganado por um mexicano que amealhou fortuna, fundou grupos religiosos e é chamado de bandido pelo saldo de crimes que cometeu dentro da Igreja. A culpa dos dois os deixam em pé de igualdade. A diferença de mentalidade e de compreensão a respeito da instituição a que pertencem ao invés de distanciá-los, aproxima-os de maneira muito simpática. Eu diria que tudo que se discute no filme, mesmo sendo ficção, é pertinente, faz sentido. Eu desejaria que aquele encontro tivesse acontecido e que aqueles diálogos tão corajosos e divertidos tivessem sido travados por Bergoglio e Ratzinger.

Excelente

Um aplauso final se deve à interpretação desses dois atores esplêndidos que protagonizam o filme. Anthony Hopkins e Jonathan Price estão impecáveis. Fico na dúvida de quem está melhor mas pendo para Hopkins porque ele tornou um alemão antipático num delicioso papa implicante, teimoso e super inteligente. A criação de Anthony McCarten é esplendorosa. Os cenários reproduzidos com efeitos especiais são absolutamente convincentes. Um brasileiro dirigindo tudo isso me traz uma alegria enorme. Vale a pena. É lindo.

Brasília, 8.1.2020

Rafael Vieira