LI, VI, OUVI, ESCREVI

DONA FERNANDA MONTENEGRO

Eu posso morrer dizendo que já me encontrei, pessoalmente, com essa dama do teatro brasileiro que conta sua história em páginas lindas.

“Não fique emocionado!”

Conheci Fernanda Montenegro, pessolamente, em março de 2017. Época em que coordenei a entrega das Menções Honrosas “Ir. Dorothy Stang” dos Prêmios de Comunicação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). O principal deles, o prêmio de cinema, “Margarida de Prata”, completava 50 anos e a Comissão de Comunicação da CNBB resolveu homenagear cinco figuras do cinema brasileiro: um crítico, Prof. Miguel Pereira; um diretor, Silvio Tendler; um produtor, a atriz Dira Paes; e dois atores, Rodrigo Santoro e a Fernanda. Durante meses, tentei falar com ela em vão. Certo dia, quase já não tendo mais esperança e tempo, um padre do Rio de Janeiro me deu o telefone do secretário dela. Liguei. Ela atendeu. Tremi as pernas. Perguntei se o secretário, estava só para me recompor. Perguntei, em seguida, se era ela e com a confirmação, eu disse: “estou muito emocionado!”. Ela respondeu: “Não fique emocionado!”. Expliquei a razão do telefonema e a ligação caiu. Não tinha mais créditos no meu telefone. Liguei no chipe da Conferência. Ela atendeu gentil, eu expliquei que havia tido um problema com o telefone e ela foi compreensiva. Retomei a história e a ligação caiu de novo. Acabaram os créditos também. Quase morri. Procurei um telefone fixo achando que ela não ia mais atender. Atendeu e combinamos tudo.

“Melhore o som das igrejas!”

No dia da entrega da Menção, no prédio da Mitra do Rio de Janeiro, na Glória, me aparece ela. Eu achava que ela tinha oitenta metros. Um gigante. Lá estava uma senhora frágil e de baixa estatura. Pura doçura. Me apresentou uma amiga que viera acompanha-la. Elogiou o cardeal Orani, conversou com todos e gravou tudo com muita calma. Parecia à vontade. Quase indo embora me disse: “padre, pede para melhorar o som dessas igrejas! Outro dia, fui pra missa e não ouvi quase nada!”. Pura simpatia. Vou levar para sempre guardados no coração aqueles olhos vivos e interessados em ajudar a gente naquele episódio.

Sem revelações bombásticas

Terminei de ler a autobiografia dela: Fernanda Montenegro – Prólogo, ato, epílogo – Memórias. Não vou dizer que a leitura é fácil, pois não é. Ela escolheu contar a história da própria vida contando a história da dramaturgia brasileira, principalmente do teatro. Isso significa que quem não tem muita informação sobre esse tema ou pouca paciência para conhecê-lo vai ter certa dificuldade em ler o livro até o fim. Não há fofocas, nem revelações bombásticas, a não ser pequenos detalhes de fatos amplamente conhecidos na história política do Brasil dos anos de chumbo. Um spoiler apenas: ao ser convidada a consumir LSD para encenar, ela responde que seu barato é viver. Que dama! Ela contextualiza todas as peças, filmes, quase todas as series e novelas em que atuou, pondera sobre o elenco e comenta, sobretudo, a respeito dos autores e diretores. É tudo muito bem escrito. Ela contou com a colaboração de Marta Góes. É tudo muito elegante. É bonito ver como ela costura toda a sua história pessoal emaranhando-se na história dos personagens que interpretou. Fala muito dos seus pais, imigrantes italianos e portugueses. O marido, Fernando Torres, com quem viveu sessenta anos, é onipresente em todos os projetos. Ela vive da arte e para a arte.

Ler e relerVale a pena ler. Há momentos que é necessário reler. Ela é profunda e encontra sempre termos magistrais para tratar do teatro e da figura do ator, na verdade, é de si que ela fala. Elogia colegas, evita polêmicas. No final do livro há uma lista das peças, filmes, séries e novelas. E há uma lista de prêmios. Sabe o que você vai encontrar lá? 2017 – Menção Honrosa do Prêmio Margarida de Prata da Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil! Eu estava lá.

Goiânia, 30.10.2019

Rafael Vieira