LI, VI, OUVI, ESCREVI

É POSSÍVEL APRENDER UMA LÍNGUA EM UM MÊS?

Eu noto que aprender um idioma novo é parte do sonho de muitos de nós e uma necessidade para aqueles que querem trabalhar fora do Brasil ou precisam fazer estudos com fontes que não estão disponíveis em português. Eu traduzi essa reportagem porque é atual e interessante. Espero que você goste. Observe, por favor, os créditos da revista e as regras de reprodução.

O MUNDO NO BOLSO. Bastam 24 horas de lições para se virar em um País com um idioma novo.

Chiara Palmerini

Scienza. Focus. Aprile 2014

É possível aprender uma língua em um mês?

Sim, para chegar ao chamado nível elementar, mesmo sendo adulto. Isso é garantido por livros, curos online e app. E também estão de acordo os linguistas e neurocientistas. Contando que você saiba como o nosso cérebro funciona.

Eis o desafio: você poderia imaginar que seria possível programar agora uma viagem para o próximo verão para… ( fica com você a escolha do País) e  quando chegar o momento de partir você já seria capaz de falar e entender, começando do zero, a língua daquele lugar? O jornalista Joshua Foer diz que conseguiu. Para realizar uma reportagem em uma região do Congo, habitada por Pigmeus, ele diz que se ligou a um site para aprofundamento chamado Menrise e aprendeu o idioma local, o Lingala, dedicando-se ao estudo por 22 horas no arco de três meses.

PROMESSAS. A internet está cheia de sites que apresentam métodos mais ou menos comprovados de aprendizagem e prometem ensinar línguas em breve tempo, também graças as redes sociais que permitem conversações e corrigir as tarefas dos internautas. Há livros e manuais que prometem sucesso em tempos curtos como “Inglês em 21 dias” ou “Aprenda inglês em um mês”, só para citar alguns dos títulos disponíveis. E os aplicativos para aprender línguas, do japonês ao russo, no tablet ou no celular, funcionam?

Até algum tempo atrás, o adágio dos cientistas era de que, terminada a fase da plasticidade extrema do cérebro da idade infantil, as esperanças de conseguir dominar um novo idioma despareceriam. As últimas pesquisas dizem  que se pode ser menos pessimista.

EM QUALQUER IDADE. “As crianças nascem predispostas para a linguagem e os primeiros anos de vida são cruciais. Entre 5 e 6 anos, termina o desenvolvimento fonológico, razão pela qual a pronúncia de quem aprende uma língua já adulto jamais será como aquela de quem é nativo. Lá pelos 8 anos, termina o desenvolvimento gramatical. O desenvolvimento lexical, isto é, a capacidade de apreender novas palavras, continua por toda a vida”, explica Franco Fabbro, docente de neuropsiquiatria do desenvolvimento da Universidade de Udine e estudioso de neurolinguistica. É justamente contando com esse dote permanente que os adultos podem contar de fazer algo melhor que as crianças. Um recente experimento de pesquisadores israelenses sobre a aprendizagem de uma língua artificial (isto é, que não existe), mostra que os adultos conseguem mais facilmente que as crianças de aprender as regras que governam um idioma e, portanto, de dominá-lo. Segundo um estudo de pesquisadores da Universidade de Georgetown, os cérebros dos adultos também, se treinados oportunamente, pode reaprender a distinguir novos sons (por exemplo, o “r” e o “l” para os chineses). Aprender a pronúncia correta não é uma miragem.

Outras pesquisas trazem hipóteses que a vantagem das crianças não estaria escrita no cérebro, mas depende mais das circunstâncias da aprendizagem. Ninguém se dirige a um adulto como se faz com as crianças que estão aprendendo a falar, silabando e repetindo lentamente as palavras. Os pesquisadores da Universidade de Minesota, que nos provaram, sustentam que, se o fizéssemos, também os adultos fariam progressos rápidos.

MERGULHADOS… Há ainda mais. As crianças estão propensas a “se jogarem” e estão menos expostas ao juízo dos outros. Diversas pesquisas demonstraram quanto este fator seja útil para a aprendizagem de uma língua. Alguns dos métodos para aprender online desfrutam de uma abordagem que entrou na didática a partir dos de 1980: deixar de lado, sobretudo no início, os livros e as regras de gramática para mergulhar diretamente na  língua, começando a ler e a escutar coisas simples. Steve Kaufmann, fundador de Lingq, se inspira na linguística do americano Stephen Krashen, que inovou o ensino com a teoria dos “imput compreensíveis”, quer dizer, aprendemos uma língua quando entedemos aquilo que as pessoas nos dizem. Se, por exemplo, nao sei alemão, mas vejo alguém com uma expressão de dor que toca a cabeça e diz “Ich hab Kopfschmerzen”, não será difícil intuir que aquela pessoa está com dor de cabeça.

As condições ideais para a aprendizagem, segundo Krashen, são aquelas nas quais não exista a ânsia de dever se exprimir a qualquer custo (uma das regras é não pedir, muito rapidamente, que os estudantes falem), escutando, lendo, e, depois, conversando sobre temas interessantes em um nível adequado de dificuldades.

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OS TRUQUES PARA APRENDER

Eis alguns truques (baseados nos últimos estudos e pesquisas) sobre o que realmente funciona para aprender uma língua:

MOVER-SE. Parece que a aprendizagem de uma língua se as palavras acompanham os movimentos.

ASSISTIR FILMES com legenda na língua original. Filmes com as legendas na própria língua, ao contrário, são contraproducentes para a aprendizagem.

DIVERTIR-SE. É aquilo que os especialistas chama de “exposição informal”, ou propriamente aprender brincando, fazendo jogos, escutando histórias, mas sem o objetivo explícito de aprender.

CANTAR. Segundo um estudo, as frases cantadas em uma língua estrangeira, ao invés de serem pronunciadas falando, são memorizadas mais facilmente (e fazem com que se obtenha uma melhor pronúncia).

DESLIGAR. Uma pesquisa evidencia que, depois de uma pausa de 5 meses, a atividade cerebral de quem está aprendendo um idioma é mais parecida com a dos nativos.

ESTUDAR MUITO. Quanto mais línguas se conhece, mais é fácil aprender outras.

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COMO AS PLANTAS. Outros métodos enfatizam as técnicas de memorização automática. Na aprendizagem da linguagem parece que está envolvida a chamada memória de trabalho, aquela na qual estão armazenadas temporariamente os estímulos verbais. A maior parte do trabalho, nesses casos, é dedicada aos exercícios para procurar fixar as palavras transferindo-as da memória de trabalho para aquela de longo prazo. No Menrise, por exemplo, as palavras isoladas se chamam “meme”. Qualquer termo novo aprendido é “regado”, isto é, repassado para evitar que se “murchem”. Enquanto isso, se semeia novos vocábulos, isto é, aprende-se novas palavras. Para favorecer a lembrança é aconselhado um sistema conhecido desde os tempos de Cícero, o chamado “codificação elaborativa”, que conecta o som de uma palavra a uma imagem para aprofundar uma aprendizagem.

Livros, sites, app, insistem sobre a constância: um pouco de exercício todos os dias, mesmo que por poucos minutos, com mensagens diárias via e-mail para ter o estudante em dia, ilustrando as oportunidades de aprender ou propondo alguma atividade da jornada.

“Se para aprender uma língua se entende fazer discursos elementares, isto é, juntar os pedaços para se fazer entender em situações que não exigem uma comunicação complexa, em linha de princípio, um mês é mais do que suficiente”, responde Luca Lampariello, engenheiro eletrônico, autodidata em línguas e poliglota, que fez da paixão uma profissão: language coach. Porém este é somente o nível básico. “Para conhecer uma língua, em um nível que permite de falar com a mesma desenvoltura da língua materna, é preciso de meses de não de anos e para isso não existem truques de associação”, acrescenta. Surpreendentemente, estão de acordo os linguistas acadêmicos. “Um mês é insuficiente se pensar na aprendizagem de uma segunda língua para um adulto que quer falar como os nativos”, diz Giuliano Bernini, docente da Universidade de Bergamo. E conclui: “é possível apenas chegar a um nível muito elementar”. Em um projeto europeu chamado Villa que envolveu diversas universidades de cinco Países e coordenado, na Itália, justamente por Bernini, grupos de cerca de 15 estudantes representando cada nação envolvida, totalmente sem saber coisa alguma de polonês, acompanharam durante 2 semanas, um curso de língua de 24 horas. “Este período foi suficiente para se ter uma primeira ideia da organização sintática, aquela que os linguistas chamam de variedade básica”, explica Bernini. É o conjunto das regras e não quer dizer que coincida com aquelas reais que faz com que alguém consiga recolher na fala dos nativos, depois de ter escutado por um pouco, a nova língua.

SE VOCÊ QUISER… como os estudos de psicolinguística mostram amplamente, a motivação é o ingrediente chave para progredir depois dos primeiros passos. Até mesmo viver constantemente em um novo País não é suficiente para apender um idioma se não existe uma razão mais forte para fazer isso. Ao lado do exemplo de imigrantes que, rapidamente, entendem e se fazem entender estão aqueles que vivem por muitos anos em um lugar sem nunca pronunciar bem uma língua local. Uma das motivações mais eficazes? Ter um namorado (a) cuja a língua materna você quer aprender.

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SER BILINGUE É MELHOR PARA O CÉREBRO

Por um longo período de pensou que crescer com pais que falam idiomas diferentes  fosse uma desvantagem: o temor era de que as crianças fizessem confusão entre uma língua e outra e que, ao se tornarem adultas, se exprimissem de maneira muito pobre. A pesquisa mais recente reiterou essa crença. Os bilíngues (ou plurilíngues) de nascimento fazem mais facilmente algumas tarefas, especialmente aquelas da chamada função executiva, concentrando mais a atenção em resolver os problemas. Observam os ambientes com mais precisão, focalizando os detalhes mais relevantes e deixando de lado os inúteis, e são mais conscientes das estruturas da linguagem. Coisa que, segundo os estudiosos, facilitariam a comunicação deles. Estudos ainda mais recentes parecem sugerir que o blilinguismo é benéfico para o cérebro: até mesmo para quem fala duas línguas, mas é analfabeta, a demência e o mal de Alzheimer chegam com anos de atraso, como se o treinamento adquirido com as línguas preservasse as funções cognitivas por mais tempo.

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Texto e foto da revista italiana FOCUS, abril de 2014

Rafael Vieira, 3.4.2014