LI, VI, OUVI, ESCREVI

ELOGIO DA PAIXÃO

Elogio da Paixão

“A vida vivida com o máximo de intensidade e paixão”, este enunciado foi o que mais me chamou a atenção para ver o espetáculo musical que está em cartaz, até 5 de junho, no teatro dos Correios no centro do da cidade do Rio de Janeiro. Chegamos atrasados porque o taxista, estranhamente, não sabia onde ficava a rua Visconde de Itaboraí. Na entrada do Centro Cultural, no entanto, uma bela surpresa: minha irmã e eu indagamos o guarda sobre o local onde se poderia adquirir os ingressos e ele nos presenteou. “Hoje nos deram ingressos para os funcionários dos Correios e muita gente não veio”. Agradecidos e sorridentes com a situação fomos para a porta do teatro com tempo de beber um café expresso, de fato, pouca gente estava lá para ver a peça. De todo modo, vimos e fiquei muito impressionado com tudo: a música, a interpretação do André Arteche e a série de aforismas de Nietzsche e de Vinicius de Moraes projetados no fundo do palco.

Vinicius de Moares e Tom Jobim

Apesar de ser chamado de “musical”, a peça tem mais acento na dramaturgia. Os dois protagonistas dividem o palco por mais de uma hora e meia com diálogos incríveis. Os palavrões estão na medida certa. Fico meio decepcionado quando o texto se derrama na repetição de palavrões desnecessários. Durante todo o espetáculo, mais de 10 músicas de Vinicius e Tom Jobim são mencionadas, algumas apenas com um verso. Outras são quase que declamadas.  A voz de Marina Palha deixa tudo tão leve, tão gostoso, tão transcendente. Ela, basicamente é a intérprete que dá suavidade ás letras ternas das canções. A voz parece um fio bem fino que vai costurando um tecido grosso e felpudo de modo que, no final, resulte num aconchegante edredon para envolver quem uma pessoa apaixonada. Acho que sei o que é isso. Já estive embrulhado nisso, algumas vezes em minha vida.

Arthur Shopenhauer

O filósofo escolhido para contrapor esses loucos e apaixonados, no entanto, foi Shopenhauer. Seu pensamento sobre o amor poderia, grosseiramente, ser traduzido como “uma perda de tempo”. A vida é curta para que alguém se ocupe com isso. Por outro lado, as máximas do “eterno retorno” de Nietzsche e as afirmações sobre paixão do Vinicius de Moraes embolam um contraponto que mais ou menos quer dizer que sem paixão, a vida não vale a pena. A peça conta a história de um velho ator doente e ensandecido pela paixão que encomenda uma peça a um jovem dramaturgo pessimista e cheio de indisposição. Um está morrendo e o outro precisa de trabalho. Os quadros vão se encaixando e nasce uma amizade incrível entrecortada pela presença de uma mulher suave. Os dois personagens se digladiam de forma inteligente. A peça torna-se uma delícia justamente pela qualidade do texto. E a leveza das canções fazem o espectador sonhar. Me vi cantarolando com os atores.

Tímido afinado

André Arteche é um daqueles atores misteriosos. Ele tem a mesma idade que a personagem que interpreta, isto é, “está perto dos 30 anos”. Nota-se, ao observar o seu rosto em cena, a seriedade na composição do personagem, principalmente porque divide o palco com um Adriano Garib enlouquecido pelo seu Charles apaixonado. Ele permanece na introspecção diante de um exuberante falastrão. Não me pareceu convincente nas poucas vezes que pareceu simular emoção, sobretudo porque recorreu ao gesto óbvio de passar a mão nos olhos para conter as lágrimas. Ele torna-se corretíssimo quando canta. Aparenta uma timidez que eleva o personagem. Garanto que só havia visto uma atuação sua antes na novela da Gloria Perez que está repetindo à tarde e que se trata do universo dos indianos. Sem me esforçar muito sei que ele andou abalando o mundo das fofocas de televisão na pele de um jovem que ajudava a mãe num barzinho de periferia do Rio de Janeiro. Lembro mais de uma personagem do seu núcleo que acabou se tornando um dos grandes sucessos da talentosa Dira Paes que viveu uma personagem ninfomaníaca e que elevou aos primeiros números das paradas de sucesso uma música besta que tinha como refrão: “você não vale nada, mas eu gosto de você!”.

Texto, figurino e Direção: Marcelo Pedreira

Rafael Vieira

Rio de Janeiro, 16 de abril de 2016