LI, VI, OUVI, ESCREVI

ENTREVISTA COM PAPA FRANCISCO NO “IL MESSAGGERO”

No domingo, 29 de junho, o jornal italiano Il Messaggero divulgou nova entrevista do Papa Francisco concedida à reporter Franca Giansoldati.

Traduzi alguns trechos dessa entrevista para você.

O compromisso foi feito para ser cumprido na Casa Santa Marta, no período da tarde. Um controle breve e um guarda suíço me faz sentar e aguardar em uma pequena sala de estar.Cadeiras verdes de veludo um pouco desgastado, uma mesa de centro de madeira, um televisor dos mais antigos. Tudo em perfeita ordem, o mármore polido, alguns quadros. O ambiente poderia ser a sala de espera de qualquer paróquia, uma daquelas em que você vai para pedir conselhos ou para fazer os documentos de casamento. 

Francisco entra em um sorriso: “Finalmente! Eu leio o que a senhora escreve, agora a conheço”. Eu fico vermelha e digo: “Eu o vejo e agora o escuto.” Ele ri. O Papa ri com gosto como vai fazer outras vezes no decorrer de uma hora da nossa conversa livre… (…)  Francisco fala, explica, pára, retorna. Paixão, ternura, ironia. A voz fraca, as palavras parecem acalmar. Mãos que acompanham o raciocínio, tece, derrete, parecem desenhar formas invisíveis no ar. Ele esta em muito boa forma, apesar dos rumores sobre sua saúde. 

Esta na hora da partida entre Itália e Uruguai. Santo Padre, o senhor esta torcendo para quem? 

Oh, eu para ninguem, de verdade. Prometi ao presidente do Brasil (Dilma Rousseff ed) manter-me neutro.

Os animais, hoje, são mais que filhos?

Este é outro fenômeno da degradação cultural. Isto é porque a relação emocional com animais é mais fácil, mais programável. Um animal não é livre, enquanto ter um filho é uma coisa complexa. “

O Evangelho fala mais com os pobres ou com os ricos para convertê-los? 

A pobreza é o coração do Evangelho. Você não pode compreender o Evangelho sem entender a verdadeira pobreza, tendo em conta que há também uma grande pobreza de espírito: ser pobre diante de Deus, porque Deus é que deve preencher. O Evangelho é dirigido igualmente aos pobres e aos ricos. Ele fala de pobreza e de riqueza. Não condena os ricos em tudo, mas sim as riquezas quando se tornam objetos idolatrados. O deus do dinheiro, o bezerro de ouro.

O senhor esta sendo visto como um Papa comunista, pauperista, populista. A revista The Economist, que dedicou uma capa ao senhor, afirma que o senhor fala como Lenin. O senhor veste essa carapuça? 

Eu disse apenas que os comunistas nos têm roubado uma bandeira. A bandeira dos pobres é cristã. A pobreza é o coração do Evangelho. Os pobres são o coração do Evangelho. Tomemos Mateus 25, o protocolo através do qual seremos julgados: eu estava com fome, eu estava com sede, eu estava na prisão, eu estava doente, nu. Ou olhar para as bem-aventuranças, outra bandeira. Os comunistas dizem que isto é ser comunista. Sim, certo, vinte séculos depois. Então você poderia dizer quando falam com eles, mas vocês são cristãos “(risos).

Se me permite uma crítica ..

Claro…

O senhor, talvez, fala pouco das mulheres, e quando o senhor fala retoma somente o tema  do ponto de vista da maternidade, a mulher que se casa, a mulher mãe, e assim por diante. No entanto, as mulheres agora estao estados, exércitos multinacionais. Na Igreja, na sua opinião, as mulheres ocupam esse lugar?

As mulheres são a coisa mais linda que Deus fez. A Igreja é uma mulher. Igreja é uma palavra feminina. Você não pode fazer teologia sem essa feminilidade. Por isso, você está certa, não se fala o suficiente. Concordo que devemos trabalhar mais sobre a teologia da mulher. Eu já disse isso e se trabalha nessa direção.

Não vê uma certa misoginia subjacente?

O fato é que a mulher foi tirada de uma costela .. (ri com vontade). Piada, estou fazendo uma brincadeira. Concordo que devemos ir mais fundo na questão das mulheres, caso contrário não se consegue entender a própria Igreja.

Podemos esperar que a partir de suas decisões históricas, como o chefe de departamento de uma mulher, não digo do clero … 

(risos) Bem, tantas vezes os sacerdotes estão sob a autoridade das beatas …

Em agosto, o senhor vai para a Coréia. E a porta para a China? o senhor está se concentrando na Ásia? 

Na Ásia irei duas vezes, em seis meses. Na Coréia, em agosto para atender jovens asiáticos. Em janeiro, o Sri Lanka e Filipinas. A Igreja na Ásia é uma promessa. A Coreia tem uma bela história. Pordois séculos, não tinham sacerdotes e o catolicismo foi levado adiante graças ao laicato. Também houve mártires. Com relação à China é um grande desafio cultural. Enorme. E depois, existe o exemplo de Matteo Ricci, que fez tanto bem…

Para onde esta indo a Igreja de Bergoglio? 

Graças a Deus eu não tenho nenhuma igreja, eu sigo a Cristo. Eu não fundei nada. Do ponto de vista do estilo, não mudei em relacao ao que fazia quando estava em Buenos Aires. Sim, talvez em alguma coisa pequena, porque mudar na minha idade, teria sido ridículo. Quanto ao programa, no entanto, eu sigo o que os cardeais pediram durante as congregações gerais antes do conclave. Eu estou indo nessa direção. O Conselho dos oito cardeais, um organismo externo, vem de lá. Ele foi formado para ajudar a reformar a Cúria. O que, no entanto, não é fácil porque é preciso um passo aqui, outro la. Temos de fazer isto ou aquilo, e se antes havia um departamento, em seguida, tornar-se um outro. Minhas decisões são o resultado das reuniões pré-conclave. Nada do que esta acontecendo, eu fiz sozinho.

Uma abordagem democrática …

Sao as decisões dos cardeais. Eu não sei se é uma abordagem democrática, eu diria mais sínodal, mesmo que a palavra não seja adequada para os cardeais.

Rafael Vieira,30.6.2014