LI, VI, OUVI, ESCREVI

ENTREVISTA de Cristina Serra

O livro de um entrevistador é algo que não se pode avaliar com facilidade, uma vez que o conteúdo fundamental não é da pergunta, mas da resposta. Busquei encontrar a Cristina Serra no livro e a encontrei. Consegui ver aqueles olhos bonitos se dirigindo aos grande nomes da poesia e da prosa no Brasil. Ela é técnica, concisa, direta. Parece que os senhores que a receberam e a Isabel Allende ficaram impressionados com o domínio do tema manifestado nas entrelinhas das questões da entrevistadora. E, ela foi extremamente honesta em dizer que foi conversar com João Ubaldo Ribeiro sem ter lido “Viva o povo brasileiro”. Além disso, pareceu um valor agregado o fato dela introduzir, nos dias atuais, o relato de como foi entrevistar aqueles ídolos. Outra coisa incrível é que os escritores poetas dão respostas que são essenciais sobre métodos, ofício, correção.

Eu me lembro de, antes de encerrar meus estudos institucionais de Teologia, entrevistei o Superior Geral dos Redentoristas, antes da virada do milênio. Adorei o modo como ele me respondeu. Foi uma entrevista maravilhosa. Pedi ao Pe. Juan Lasso de la Vega que não me fizesse discursos, mas apenas me contasse histórias. Ele seguiu, ao pé da letra, a minha recomendação e o resultado final foi de que, com entrevista, eu tinha um livro pronto com começo, meio e fim. Um verdadeiro passeio do Padre Geral pelos quatro cantos do mundo mostrando quem eram seus irmãos.

Esse livro da Cristina Serra abre um caminho para nós, jornalistas, que estamos perdendo o hábito de programar grandes entrevistas sobre temas mais de fundo. Hoje, as fontes nos atendem com pressa, precisamos ser muito objetivos e nenhum tempo é dedicado a um papo mais prolongado que nos ajude a compreender melhor os personagens da nossa história atual trazendo para o nosso público certos olhares, certas nuances que o texto factual é incapaz de reproduzir. É, na verdade, um deleite perceber que a preparação nos leva para grandes escutas e a elaboração de grandes conversas.

Confesso que não sei apreciar poesia, não entendo coisa alguma de métrica. Quase todos os autores brasileiros entrevistado pela Cristina são também, aqui e ali, prosaicos e, por causa disso, tenho algum conhecimento deles. Drumond é espetacular; Ferreira Gular me passa um ar meio complicado em falar em ser possuído por algo quando vai escrever poesia; João Cabral de Melo Neto parece tristonho, mas cheio de inteligência; Isabel Allende, uma descoberta magnífica no sentido de conhecer sua adesão à defesa da América Latina em detrimento de nossas nacionalidades; Jorge Amado, gênio brincalhão; Mário Quinta é farmacêutico, dava para desconfiar de suas medidas finas; Fernando Sabio, o exigente; Darcy Ribeiro no fogo ideológico do PDT mandando no Rio de Janeiro; Antonio Callado, o solene; Rachel de Queiroz, gracinha e competente; João Ubaldo no baianês estarrecedor e  Tom Jobim levita.

Quando estudei jornalismo, no CEUB, um dia recebemos, tendo sido convidada por um professor, a repórter Cristina Serra, da TV Globo. Lembro-me que a turma ficou ouriçada durante a aula inteira e depois ela atendeu alguns para um papinho no corredor. Não vou poder provar porque na última década do século passado, a humanidade ainda não havia descoberto a selfie.

Rafael Vieira

10.07.2021