LI, VI, OUVI, ESCREVI

“ESPRESSO DO DESTINO”

Um filme turco, remake de um sueco. Encantador. Para mim, inesquecível. Uma fotografia estupenda e dois atores excepcionais.

Roteiro é o maior segredo do cinema. Eu assisti hoje a um filme turco que me fez lembrar o Romoaldo Pelaquin,  um dos melhores roteiristas que eu conheço e de quem tenho saudades imensuráveis. Não nos falamos há séculos, mas nunca me sai da cabeça seus roteiros excepcionais, inteligentes, surpreendentes, maravilhosos. Lembro-me do tempo que e me dava o privilégio de ler seus roteiros. Trabalhos que nunca foram produzidos para o cinema. Para mim, não tinha importância alguma: o roteiro era tão minucioso e genial que eu via o filme pronto. E eram filmes lindíssimos, sensíveis, cheios de mensagens que necessitava de bons olhos, nada óbvio. Pelaquin nunca ligou se topavam ou não a produção de suas obras. Ele tinha prazer em criar. Só isso.

O filme turco que vi hoje apesar de remake de uma história sueca do começo da década, é lançamento Netflix mundial do mês passado, portanto, fresquíssimo: “Expresso do destino”. O roteirista é ousadíssimo. Divide uma história em oito partes, realiza-a num mesmo cenário com apenas dois atores dentro de uma cabine de trem. Parecia que tinha tudo para ser monótono, complicado demais ou cheio de lugar-comum. Nada disso. O filme é de uma beleza e de uma verdade que não se pode sequer respirar alto para que nem um fio dos diálogos seja perdido. Toda a história é importante. Não há um trecho, mesmo que tratando de situações já conhecidas que seja descartável. Em cada imersão que os personagens fazem na história, novidades de informação, de sentimentos e de expectativas e relação ao desenrolar da trama se manifestam.

Uma fotografia estupenda. Como é lindo ver aquele trem correr em direção à Esmirna. Os atores não estão lá para brincadeira. Dão um banho de atuação. Enquanto os via com raiva, alegres, misteriosos, angustiados, revoltados, serenos eu pensava no comentário que li no post do escritor Lucão, nesta segunda-feira, 13 de julho de 2020: “O capitalismo inventou os produtos de beleza que transformam as pessoas em outras pessoas. A beleza natural entrou na briga e agora o capitalismo inventou produtos que transformam as pessoas nelas mesmas”. Metin Akdülger e Dilan Çiçek Deniz, os donos dos quatro olhos maravilhosos que carregam a gente o tempo topo no filme são dois atores lindos de serem lindos mesmos.

A história merece, a meu ver, ser vista por grandes atrações e pela inesquecível beleza. Uma daquelas que deixei pregadas na parede de um quartinho de estudante durante os anos de 1990, lá em Roma, quando me pegava horas lendo os roteiros do Pelaquin assentado numa cadeira velha de plástico. De vez em quando, levantava os olhos para ver um foto emoldurado em dourado do meu afihado Ian, de uniforme branco e azul da escola maternal, carregando uma mochila gigante e com uma franjinha que me fazia rir sozinho.