LI, VI, OUVI, ESCREVI

ESTIVE LÁ: DIÁLOGO DO VATICANO COM JORNALISTAS CATÓLICOS E NÃO-CRENTES

Nesta quarta-feira, 25 de setembro, foi realizado no espaço do antigo Templo de Adriano, hoje ocupado pela Câmara do Comércio de Roma, uma nova edição da já conhecida iniciativa do Pontifício Conselho para a Cultura do Vaticano, chamada “Pátio dos Gentios” para promover o diálogo entre crentes e não-crentes. Desta vez o foco foi o diálogo com jornalistas. Na primeira parte do encontro, um diálogo entre o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Pontificio Conselho e o jornalista Eugenio Scalfari, fundador do jornal “La Repubblica”, muito celebrado depois que mereceu uma resposta direta do Papa. Na segunda parte, 4 diretores de grandes jornais leigos discutiram temas sobre o trabalho jornalístico e a Igreja: Roberto Napolitano, do” Il Sole 24 ore”, Esio Mauro, do “La Repubbica”, Mario Calabresi, do “La Stampa”e Ferruccio de Bortoli, do “Corriere della Sera”. Na última parte do encontro, debateram sobre cultura, fé e comunicação, Virman Cusenza, do “Il Messaggero”, Marcelo Sorgi, da RAI, Marco Torquinio, do “Avvenire”e Giovanni Maria Vian, do “Osservatore Romano”.  Veja o resumo feito em três postagens pela agência SIR (Serviço de informação Religiosa):

CARDEAL GIANFRANCO RAVASI:  Jesus foi o primeiro a usar Twitter

“O Reino de Deus está próximo, arrependei-vos”, esta frase compreende 145 caracteres no original grego da Bíblia . E é a prova de que Jesus foi o primeiro a usar o twitter, disse o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, que começa hoje em Roma o “Pátio dos Jornalistas”, evento dentro do movimento “Pátio dos Gentios” (www.cortiledeigentili.com), promovido pelo  Vaticano para o diálogo com não crentes e, dessa vez, foi proposto aos profissionais de comunicação. “Cristo adotou o uso de twitter de forma sistemática”, disse o cardeal, ressaltando que o primeiro traço distintivo da forma de comunicar Jesus é “o uso sistemático da frase incisiva essencial.” A segunda parte do estilo de comunicação de Jesus é “a articulação de seu pensamento por meio de parábolas, que em essência é o uso da televisão” da época: a linguagem de Jesus, nessa perspectiva, “é um roteiro, em certos casos, com um refinamento extremo”. “Em terceiro lugar, Jesus usa para se comunicar o caminho da corporeidade, fala com o contato dos corpos: usa a saliva, as mãos, quebrando o tabu da religião judaica que não admitia o contato.” “Se um pastor não se ocupa de comunicação, ele está fora do próprio ministério”, advertiu o cardeal Ravasi, ressaltando que todas essas três formas de comunicação também “pertencem ao papa Francisco.”

EUGENIO SCALFARI: Os novos bárbaros, o narcisismo e a Cruz

“Jesus é um homem que resiste a tentação, o diabo ofereceu-lhe tudo, mas ele se recusa. Para mim, que não creio, o ponto culminante de sua vida é a crucificação, e não ressurreição, porque na cruz Jesus renuncia o amor por si, leva toda a culpa, a fim de resgatar as criaturas”. Esse foi “retrato” de Jesus feito pelo fundador do jornal  “La Repubblica”, Eugenio Scalfari, que falou com o cardeal Ravasi durante o “Pátio dos jornalistas”. Hoje, “a taxa de narcisismo excedeu a dimensão fisiológica, e tornou-se patológica”, disse Scalfari, denunciando que, hoje, “o amor de próximo está muito reduzido” e é preciso “tomar providências para garantir que o amor-próprio retorne a pelo menos ser igual ao amor ao próximo”. Começando, por exemplo, do “terreno moral e espiritual comum” entre crentes e não-crentes. Outro tema do diálogo com o cardeal Ravasi, as mudanças que ocorrem no mundo da comunicação: “Os novos bárbaros estão desenvolvendo uma nova linguagem”, disse o jornalista, explicando que “novos bárbaros” significa “aqueles que falam outra língua comparado com o nosso vocabulário, é muito mais pobre em palavras e mais rico em imagens”, mas traz o perigo de aumentar a solidão “, dado que “os novos mundos são extracorpóreos”.

DEBATE COM JORNALISTAS: católicos e os “valores não negociáveis​​”

“Papa Francesco abandonou a obsessão por valores não-negociáveis, que contou com quase exclusivamente a projeção da Igreja no mundo da mídia nos últimos anos”, disse Ferruccio De Bortoli, editor do jornal “Corriere della Sera”, uma das quatro vozes no debate entre os diretores dos quatro principais jornais italianos, realizada hoje em Roma, como parte do “Pátio dos jornalistas.” De acordo com De Bortoli, deve ser feita “uma reflexão sobre alguns acentos, alguns tons utilizados nos últimos anos pela Igreja: é uma falta, ou será uma página virada com facilidade?” perguntou o diretor. A resposta veio, de forma indireta, por Marco Tarquinio, diretor do Jornal “Avvenire”, na terceira parte da reunião dedicada à relação entre o jornalismo, a razão e a fé, entre crer e falar: “Ter a obsessão pelos valores não negociáveis ​​- explicou – é ter uma obsessão com o ser humano no momento da suposta pós-humano, tem um significado muito profundo”. Os assim chamados “valores não negociáveis​​”, disse Tarquinio referindo-se ao magistério da Igreja e, portanto, também do Papa Francisco, “são aqueles que não se pode fazer mercadoria de mercado, em um mundo em que tudo se torna mercado. Quando descobrirmos isso, vamos colocar um ponto final à essa situação na qual entramos”.

Rafael Vieira, 25.9.2013