LI, VI, OUVI, ESCREVI

EU QUERIA A VIDA DE STEVE McCURRY

Steve McCurry é aquele fotógrafo norte-americano que trabalha para a National Geographic e já enriqueceu revistas do mundo inteiro com suas imagens impagáveis. Neste domingo, 15 de setembro, o jornal italiano “La Repubblica” trouxe uma matéria, no caderno especial “Domenica”, com o seguinte título: “Eu queria ter a vida de Steve McCurry”. O texto é de Michele Smargiassi. O jornal também apresenta textos do próprio McCurry tratando do vasto trabalho de jornalismo fotográfico que ele já realizou pelo mundo afora. Reproduzo aqui, parte da matéria, para sua degustação:

As pessoas o invejam pelas sete vidas de gato que o tem preservado por 63 anos; o invejam também por causa das sete cores do arco-iris que somente diante de sua lente são combinadas de modo tão especial. Para milhares de fotógrafos de viagens, diletantes e semiprofissionais, Steve McCurry é, ao mesmo tempo, mito e pesadelo, é um doce suplício de Tântalo (a expressão refere-se ao sofrimento daquele que deseja algo que parece perto, mas está distante, inalcançável. ndt). Os seus instantes de magia exótica, os seus retratos parecem transparentes e “fáceis”, e para fazê-los bastaria ir lá onde foi, não? Na  Índia, na Birmânia, no Nepal, diante daqueles cenários como que “pintados” pela paleta de qualquer divindade oriental, bastaria disparar a câmera com um pouco de atenção… depois, em casa, diante da tela do computador, vem a desilusão que nem o photoshop consola.

Inimitável, nunca alcançavel: talvez seja por isso que McCurry é o mais famoso “fotostar” vivo. A web está cheia de galerias de seus seguidores, frustrados e seu fã clube online de orgulha de ter 180 mil inscritos. E no seu blog fotográfico, mais de um milhão e meio de acessos.

O “La Repubblica” selecionou fotos célebres de McCurry com legendas do próprio fotógrafo:

India, 1983, “Junto de nós, as mulheres e as crianças que se ocupavam com a manutenção das estradas, se abraçaram umas às outras para se protegerem da areia e do pó. Enquanto faziam isso, cantavam e rezavam e quase só conseguiam ficar de pé”.

 

 

 

Birmânia, 1985, “Fiquei intrigado com o estilo de vida dos monges, com o modo com que a filosofia budista enfatiza a compaixão e também a iconografia. Ética e Estética no budismo são compreendidas de forma única”.

 

 

 

 

Tibete, 2001, “Os tibetanos serão esmagados, dominados completamente, como acontece com os nativos americanos nos Estados Unidos”.

 

 

 

 

 

Paquistão, 1984, “Quando comecei a fotografar Gula, não ouvi e nem vi mais nada. Ela me tomou completamente”.

 

 

 

 

 

Bangladesh, 1983, “Você viaja, faz anotações e olha à sua volta. No início, você não vê nada e começa a se preocupar… mas, com o passar do tempo, as coisas começam a se revelar. Na medida que a viagem prossegue, de repente, você começa a ver coisas que antes não via”.

 

 

 

 

Caximira, 1995, “É importante estabelecer um relacionamento; explicar o que se está fazendo e criar um clima de respeito e de diálogo”.

 

 

 

 

 

China, 2000, “Caminhar sobre essas montanhas e visitar os mosteiros, me inspira em muitíssimos níveis”.

 

 

 

 

O Jornal também trouxe um texto de como tudo começou na vida do fotógrafo:

TUDO COMEÇOU COM 

DUZENTOS ROLOS DE FILME E UMA PASSAGEM SÓ DE IDA

Nada poderá minar a minha fé no espírito humano, na bondade, às vezes inesperadas, do próximo. Desde o pescador que nos trouxe a salvo das águas geladas do lago Bled, até o estrangeiro, que me salvou na praia, em Bombaim, quando eu fui agredido em Chowpatty Beach durante o Festival Ganesh Chaturthi em 1993. No curso de minhas viagens, tive a sorte de conhecer muitas pessoas sensíveis e hospitaleiras, e, muitas vezes, as mais amáveis ​​eram aquelas que viviam nas situações mais difíceis.

Para fazer fotos interessantes não há necessidade de viajar a países distantes, mas eu tinha a necessidade de me mover e de explorar o mundo. Esta é uma lição que eu aprendi muito cedo. Tudo teve início em 1978, ano em que me demiti do meu trabalho de fotógrafo de um jornal da Filadélfia e comprei 200 rolos de filmes fotográficos e um bilhete só de ida para a Índia. Um ano depois, em 1979, entrei clandestinamente no Afeganistão lodo depois dos mujaheddin (Talibãs, ndt), levando comigo só a máquina fotográfica e um canivete suíço. E voltei de lá, depois de alguns meses, com uma bagagem de experiências que até hoje me são preciosas.

Em todas as viagens, realizando cada trabalho, em todos os lugares e com cada pessoa que eu conheci e fotografei representam uma etapa do percurso que parte das minhas primeiras experiências até chegar o dia de hoje. A máquina fotográfica permite registrar um lugar e um momento particular, e cada foto que tiro pode ser vista como uma imagem independente e memorável, mas ao mesmo tempo é parte de uma história muito mais ampla.

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Rafael Vieira, 15.9.2013