LI, VI, OUVI, ESCREVI

FELICIDADE FOI-SE EMBORA?

Felicidade pessoal, social e planetária

Felicidade é tema e dilema. É corrente e recorrente na vida da gente. É desejo, sonho, busca. Na verdade, a única razão da existência. As religiões têm sinônimos bacanas, mas no fim, é sempre a boa e velha felicidade que interessa a quase todo mundo. Frei Betto, Leonardo Boff e Mario Sergio Cortella são, reconhecidamente, um trio de pensadores acima de qualquer suspeita para quem aprecia Teologia, Socialismo e Filosofia. Eles escreveram três textos sobre o assunto – sem se consultarem mutuamente – e o resultado é de uma harmonia rara. Um retrato bastante rico da felicidade. Frei Betto, como sempre, alerta para a necessária dimensão social da felicidade. Boff, como era de se esperar, trata de algo como uma “felicidade cósmica” e Cortella se detém sobre o tempo da felicidade, além de acrescentar elementos fantásticos como a partilha, a abundância e a gratidão. O leitor não tem do que reclamar. E é bom advertir: não é um livro de autoajuda.

Sentido de vida e amizade

Gosto demais do modo simples que Frei Betto assume ao sintetizar que a felicidade se mantém firme e presente na vida da gente sustentada por duas colunas: o sentido que atribuímos à nossa existência e as amizades que fazemos nesse percurso. Fica claro. Lembrei-me do ditado que confirma o fato de que qualquer caminho serve para quem não sabe onde quer chegar. O sentido que damos ao nosso cotidiano em vista de algo maior garante a possibilidade da irrupção da felicidade. E, nesse constante definir e redefinir, consolidar e corrigir o sentido que damos à vida é inevitável olhar à nossa volta. Gente feliz é gente comprometida consigo, com os outros, com o mundo e com as realidades do Mistério. As considerações sociais e os perigos do capitalismo “vencedor” apresentadas por Frei Betto são de grande valia. E as amizades? Irrenunciáveis. Não dá para ser feliz sem amigos.

Felicidade da Mãe Terra

Leonardo Boff faz longas reflexões sobre a importância da felicidade e infelicidade da Mãe Terra. Um organismo vivo. Dela saímos e para ela voltamos. Nela nos movemos. Se insistirmos em ficar alheios ao que ocorre com a Gaia, Mãe Terra, a felicidade não nos alcançará. Nós somos a parte criativa, inteligente e pensante da Terra. A nós cabe a tarefa de reconhecer a necessidade de proteção e de harmonia com os biomas, a biodiversidade e os ecossistemas. Boff se refere a algumas passagens da Encíclica do Papa Francisco, Laudato Si, para ilustrar a importância de uma nova consciência ecológica. Vale a pena prestar a atenção numa das menções que ele faz sobre os limites da chamada literatura de autoajuda quando trata do tema da felicidade. Na reflexão, há também números atuais e interessantes sobre a situação atual do planeta. É o texto mais longo e, diria, mais denso dos três apresentados no livro.

Momentos felizes

Mario Sergio Cortella mantém sua verve de conferencista. Dá a nítida sensação de ouvi-lo enquanto se lê o texto. E, como ele costuma falar à TV, sua reflexão está entrecortada de exemplos pessoais, citações objetivas e expressões quase bombásticas. O que se repete, no entanto, é que a felicidade é realidade fugidia. Ela nos escapa, sempre. Gosto do modo como ele conclui a partilha de experiências quando diz: “isso me felicita”. Não tenho o costume de associar o verbo ao substantivo. É bacana compreender a felicidade como um movimento parecido, como diz Cortella, com as ondas do mar. Um ir e vir que se renova que faz com que a gente esteja sempre pronto para a surpresa do novo cenário. Ele também insiste na importância da partilha, da abundância e da gratidão. O texto no qual ele identifica a expressão da felicidade no Evangelho é de São João: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em plenitude” Jo 10,10).


Rafael Vieira

Aparecida, 11.04.2016