LI, VI, OUVI, ESCREVI

FILHO DE MIL HOMENS de Valter Hugo Mãe

Um livro absolutamente inquietante. Não tirei os olho de suas páginas nem quando a turbulência ficou severa no trajeto entre Recife e Brasília. Para quem entrava em “quase pânico” com esses solavanco nos ares, eu estava ótimo, absorto. O autor conta histórias com carcaterístcias o triplamente instigante: usa sempre o artigo definido antes do nome dos personagens para descrever as cenas e nunca usa o sinal ortográfico de exclamação e inventou uma coisa jamais pensada: a pessoa cair para dentro de si. Eu não consegui me desligar enquanto não terminei. O livro é sobre o amor incondicional. Sobre o ódio incondicional. Sobre a solidariedade incondicional. O fato das histórias se interpenetrarem umas nas outras é um dado assustador: aquelas sagas pessoais e familiares se dão num mesmíssimo ambiente envolvento um número muito pequeno de pessoas numa aldeiazinha perdida.

Enquanto lia, me emocionava. Primeiro, por causa da humanidade dos personagens. Não dá para não se envolver. Quando percebi, eu já estava dentro daquelas casas, daquelas vidas, daquelas histórias todas. Segundo porque aquela ficção diz muito da realidade de sempre em todas as famílias que conheço nessa parte ocidental do mundo. Não é possível deixar de associar com a cultura judaico-cristã deixando suas marcas no modo de pensar, de sentir e de agir das pessoas. E, por fim, me emocionei muito por causa dos desvalidos. Tenho me sentido muito nessa categoria. E aí, quando os personagens sofriam, impotentes, as agruras das histórias, era também eu que sofria. Não conseguia tomar distância deles. Não conseguia ficar longe deles nem quando fechava o livro para ir realizar alguma outra atividade. São histórias minhas, ainda que eu não tenha aqueles nomes e nem aqueles temperamentos tão fortes, tão grandiosos, tão marcantes.

O Crisóstomo, então, nem dá pra falar. Teria que dar spoiler. Mas, eu andei no cangote desse personagem e, juro que, no final, achei que o livro tratou muito pouco dele. Um ser pelo meio que acaba se multiplicando em muitos. Um centro agregador de dramas. Uma ternura dessas que não se vêem facilmente no meio dos homens de hoje. Um tipo que representa a busca paternal de todo mundo. Quem não queria encontrar o seu Camilo para dizer: “amo-te”? Quem não queria tocar na sua Isaura para dizer: “seu nome é lindo”? Quem não se entristece quando vê seu filho tratando um Antonino como se ele nao fosse gente porque era diferente das outras pessoas? Eu adoraria ser o Crisóstomo. Adoraria. Há falta de gente assim no mundo real dos nossos tempos. Gente que sabe olhar para a vida, para as coisas e, principalmente, para as pessoas com uma métrica larga, generosa, cheia de bondade. Gente que lida com o mar entende o que é tocar no imenso e se aninhar em sua limitação com serenidade de coração. O Crisóstemo era pescador.

Retiro desse universo uma expressão que me fez, inclusive, falar do livro aos meus companheiros de viagem. Em uma certa altura, no meio do diálogo entre dois personagens, o narrador registra: “ser o que se pode é a felicidade”. Eu já andei por tanto canto tentando entender esse negócio de ser feliz. Esse livro me jogou, de novo, sobre essa rede. Ser o que se pode é tão grande que parece um tudo e tão pequeno que parece um nada. Às vezes fico de um lado, e, em outros momentos, fico do outro. Ser o que se pode. É tão pouco, parece. É tão muito, parece. De todo modo, fiquei muito tocado e acho que me senti feliz. Sumiu, por uns instantes, a vontade de buscar a felicidade. Ela parecia estar alí, dentro de mim. Ser o que se pode. Valter Hugo Mãe: obrigado.

Rafael Vieira

Viagem à Recife de 1 a 4 de junho de 2021