LI, VI, OUVI, ESCREVI

FRANCISCO EM ASSIS

Aquela cena clássica da vida de São Francisco que o cinema deu contornos que ficaram na memória das pessoas e que mostra o momento radical na vida do santo quando ele toma a decisão de largar tudo é tratada com profunda espiritualidade pelo Papa Francisco. Neste sexta-feira, 4 de outubro, ele se encontrou com pobres, no local chamado “Espoliação” (local onde São Francisco ficou nu diante do pai, do bispo e do povo). Havia um discurso preparado para ser pronunciado nessa hora e seus assessores distribuiu esse discurso aos jornalistas, mas ele não fez o discurso, mas conversou, bem a vontade, com os pobres que lá estavam. Leia o discurso que a publicação autorizada pelo Papa Francisco:

Queridos irmãos e irmãs,

Obrigado pelas sua boas vindas! Este lugar é um lugar especial e eu quis fazer uma parada aqui, mesmo tendo um dia muito cheio. Aqui, Francisco se despojou de tudo, na frente de seu pai, do bispo, e do povo de Assis. Foi um gesto profético, e também foi um ato de oração, um ato de amor e de confiança no Pai, que está nos céus.

Com esse gesto, Francisco fez a sua escolha: a escolha de ser pobre. Não é uma escolha sociológica, ideológica, é uma escolha para ser como Jesus, a imitá-lo, segui-lo até o fim. Jesus é Deus se despojou de sua glória. Lemos em São Paulo: “Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz (Fl 2,6-8). Jesus é Deus, mas ele nasceu nu, foi colocado em uma manjedoura e morreu nu e crucificado.

Francisco se despojou de tudo, de sua vida mundana e de si mesmo para seguir o seu Senhor, Jesus, para ser como Ele. O Bispo Guido imediatamente se levantou, abraçou Francisco e o cobriu com seu manto, e foi sempre o seu protetor e seu colaborador (cf. Vita primeiro , FF, 344) .

O despojamento de São Francisco nos diz exatamente o que o Evangelho nos ensina: seguir Jesus significa colocá-lo em primeiro lugar, privar-se de muitas coisas que temos e que sufocam o nosso coração, negar a nós mesmos, tomar a cruz e carregá-la com Jesus. Despir-se do ego orgulhoso, deixar o desejo pelo dinheiro, que é um ídolo que possuímos.

Todos nós somos chamados a ser pobres , despojarmos de nós mesmos, e, por isso, devemos aprender a estar com os pobres, a compartilhar com aqueles que estão privados do necessário, tocar a carne de Cristo! O cristão não é aquele que enche a boca com os pobres, não! E aquele que os atende, que olha nos olhos deles, que os toca. Eu não estou aqui para “fazer notícia”, mas para indicar que este é o caminho cristão, que veio de São Francisco. São Boaventura, falando sobre o despojamento de São Francisco, escreve: “assim, pois, o servo do sumo rei ficou nu, para que seguisse o Senhor nu e crucificado, o objeto do seu amor”. Ele acrescenta que foi assim que Francisco foi salvo do “naufrágio do mundo” (FF 1043).

Mas eu gostaria, como Pastor, também perguntar: do que deve despir a Igreja? Despir-se de todo o mundanismo espiritual, que é uma tentação para todos; livrar-se de qualquer ação que não é para Deus, que não é de Deus; do medo de abrir as portas e ir ao encontro de todos, especialmente dos mais pobres, dos necessitados, distantes, sem ficar esperando; certamente não fazer isso e se perder no naufrágio do mundo, mas para levar a luz de Cristo com coragem, a luz do Evangelho, mesmo no escuro, onde você não pode ver por onde está andando e pode acontecer de tropeçar; despojar-se da tranquilidade aparente que as estruturas podem, mesmo que sejam necessárias e importantes, mas que não devem nunca ocultar a única força real que carrega em si, a de Deus. Ele é a nossa força! Despir-se do que não é essencial, porque a referência é Cristo, a Igreja de Cristo! Muitos passos, especialmente nas últimas décadas, têm sido dados. Continuamos nesta estrada que é a de Cristo, a dos Santos.

Para todos, mesmo para a nossa sociedade que está mostrando sinais de cansaço, se queremos nos salvar do naufrágio, devemos seguir o caminho da pobreza, o que não é o da miséria – essa deve ser combatida – mas é saber compartilhar, ser mais solidário com os necessitados, é confiar mais em Deus e menos nossa força humana. Arcebispo Sorrentino lembrou o trabalho de solidariedade do Bispo Nicolini, que ajudou centenas de judeus, escondendo-os nos conventos, o centro secreto desse trabalho era exatamente aqui, no bispado. Também isso é despojamento, que parte sempre do amor, da misericórdia de Deus !

Neste lugar que nos desafia, eu rezo para que todos os cristãos, a Igreja, todos os homens e mulheres de boa vontade, sejamos capazes de nos despojar do que não é essencial para ir ao encontro daqueles que são pobres e pedem para serem amados. Obrigado a todos!

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Rafael Vieira, 4.10.2013