LI, VI, OUVI, ESCREVI

FREIRA NO THE VOICE ITALY

Irmã Cristina Scuccia, 25 anos, o furor do The Voice Italy, fez noviciado na periferia de São Paulo, no Brasil, e é uma veterena em concursos de música na TV. Ela foi candidata e descartada pelo X-Factor, irmão gêmeo do The Voice, por exemplo (posteriormente, uma amiga desmentiu essa informaçao). Mas a história de vida dessa siciliana é bonita e chama atenção de muitos jovens. Ela tinha uma banda, cantava em casamentos e era particularmente implicada com a Igreja. Parece que a experiência num musical na qual ela interpretava uma freira que viveu no século passado tocou o coração da moça. Depois daquilo, ainda que os amigos protestassem, deixou tudo, veio para Roma e mudou sua vida. Ela é freira da congregação das Ursulinas da Sagrada Família. A aparição na TV deixou o público exaltado e, seguramente, passará a ser um personagem das próximas edições de publicações importantes, mesmo já tendo sido amplamente entrevistada pela revista Credere, em julho do ano passado, quando cantou numa das mais conhecidas praças de Roma, durante um concerto para a juventude dentro das comemorações do Ano da Fé.

The Voice, como todos os programas televisivos chamados de reality da empresa holandesa Endemol, tem uma estrutura fixa que sempre funciona em todos os países onde é apresentado. Essa primeira fase italiana, portanto, é aquela mesma conhecida no Brasil na qual os técnicos escutam sem ver quem canta e escolhem, digamos, às cegas. Já perderam grandes artistas nessas duas primeiras semanas. Os quatro técnicos, no entanto, são divertidos. Entre eles está aquele que foi escolhido pela freirinha cantora: o rapper J-ax. Um milanês nascido em 1972 que se chama Alessandro Aleotti.  Ele começou a carreira como um expoente do hip hop e, ultimamente, caminha para o lado do pop e do rock. É divertidíssimo. As tiradas, aparentemente espontâneas, que ele tem no programa garantem as risadas dos participantes, dos colegas e do público.  Todo tatuado, inclusive no pescoço, ele diz sempre que está do lado dos loosers, os perdedores. Escolhe sempre gente muito diferente e grandes vozes. Cada vez que vai apontar alguém, diz: “vem comigo e vamos quebrar tudo”. Visivelmente embaraçado na audição da Ir. Cristina, ele declarou: “se eu tivesse encontrado você quando era criança e ia à missa, eu seria o Papa”. E arrematou: “juntos, somos imbatíveis e você sabe a razão disso. Será o diabo e a agua santa”. Brincadeiras à parte, a irmã lembrou algo bonito sobre o que o Papa Francisco tem dito ao povo: “ Deus não nos tira nada, ao contrário, nos dá ainda mais!”.

Ir. Cristina apresentou uma música conhecida e amada pelos jovens, No one , de Alicia Keys, tirada de um dos discos mais vendidos em 2007 e 2008, nos Estados Unidos, e tem milhões de visualizações no Youtube. A letra pode, tranquilamente, ser considerada “apropriada” para uma freira, afinal fala do sentimento que quem canta tem por alguém, sem se referir explicitamente quem seja esse alguém o que pode favorecer leituras mais espirituais da canção: “sei que algumas pessoas no mundo procuram encontrar algo que nós já temos. Sei que as pessoas procuram algo real e eu vou dizer o que é isso, no final de tudo”. Enquanto o refrão que agitou a plateia do The Voice insiste: “ninguém, ninguém, ninguém pode entender o que eu sinto. Ninguém, ninguém, ninguém pode entender o que eu sinto por você”. Alicia Keys, nos últimos tempos, é mais lembrada pelos jovens, especialmente os adolescentes, pela música que há dois anos colocou-a no topo das paradas no mundo inteiro com aquele tipo de letra que a pessoa ouve tanto que não para de cantarolar na rua, no ônibus, em casa e na escola: the girl is on fire.

As chances da Ir. Cristina parecem boas. Esta edição italiana do The Voice, no entanto, se tiver semelhança com a última edição brasileira não vai premiá-la. Eu assisti, pela internet, a fase das chamadas “batalhas” e vi uma das coisas mais bonitas que encontrei na TV no ano passado: a apresentação de Eleanor Rigby, dos Beatles. Arranjos incríveis e as vozes extraordinárias de Raphael  Furtado e Nando Reis. O padrão Globo de qualidade na edição da apresentação só pecou por ter inserido o mais estúpido comentário que Carlinhos Brown fez no programa, o resto é perfeito. Tenho a impressão até que, os artistas jamais conseguirão cantar com tanta garra e emoção como daquela vez. A voz rouca de Furtado e a força do baixinho Reis fizeram uma mistura inesquecível. Um dos dois ou outros candidatos poderiam ter chegado à final e levado o prêmio, mas a trama das escolhas estratégicas dos técnicos, do jogo e do publico que vota jogou no palco da finalíssima um cearense que vive nos Estados Undios e que precisou provar que sabia cantar em português. Pena. Pelo que li de comentarios nos jornais, o conhecimento musical dos técnicos italianos não é lá essas coisas e está em jogo mais a capacidade de espetáculo. Nesse quesito, com todo o clima em torno da Igreja sorridente do Papa Francisco, Ir. Cristina pode ter possibilidades de ir adiante no páreo e de dar ainda muito o que comentar nas próximas semanas.

Rafael Vieira, 20.3.2014 

video da apresentação

https://www.youtube.com/watch?v=TpaQYSd75Ak