O itinerário entre um programa de rádio até a fundação da “Casa Horizontes”

Um programa de Rádio que começou dando formação e informação para a comunidade e depois atravessou anos e oceanos para apresentar uma reflexão sobre a Palavra de Deus.
P. Rafael Vieira

MORGAN HILL
Maria, José Alcorta e eu nos encontrávamos na sala de espera da Rádio Comercial Portuguesa, a KSQQ 96 FM, aguardando para uma entrevista em Morgan Hill. Isso era lá pelo ano de 1992. Fui entrevistado pelo Jerônimo Ponciano, na época. Falamos de muitas coisas. Lembrei a minha história de família humilde que vive no interior do Brasil. Falei dos meus longos anos de formação no Seminário dos Missionários Redentoristas. Depois, compartilhei com os ouvintes a felicidade de ter recebido a chance de me especializar na Europa. Lá, durante os anos do Mestrado em Teologia Moral, tive o primeiro contato com a comunidade portuguesa, desta feita em Interlaken e Thun, no cantão alemão da Suiça. Trabalhei como missionário junto aos irmãos portugueses visitando as famílias, indo aos hospitais da região e celebrando a Eucaristia em várias pequenas cidades onde os portugueses trabalhavam em hotéis e restaurantes em estâncias de esqui. Naquele dia da entrevista, em Morgan Hill, falei com os Alcorta o quanto
seria interessante termos um programa de evangelização em língua portuguesa. Eles, sempre generosos,  concordaram com a ideia.

KSQQ 96 FM
Depois de uma boa negociação com padre Bernardino que, por sua vez, falou com o senhor bispo e também depois de contatados os dirigentes da Rádio Comercial Portuguesa, começamos a montar o programa que contou com uma grande equipa nos seus primeiros meses. Lembro-me que havia uma rubrica do padre Bernardino, notícias das comunidades, reflexões do casal que era responsável pelos encontros matrimoniais. Rui Sousa e tantas outras pessoas nos ajudaram a começar. Preparávamos muitas notícias sobre a Igreja no mundo inteiro. Naquele tempo conheci a agência Adista de Roma que enviava notícias muito interessantes de várias partes do mundo onde os católicos eram comprometidos com os pobres e sofredores. Passávamos todas essas notícias para os ouvintes do programa de modo que todos teriam também a possibilidade de rezar pelos cristãos da África, da Ásia, da Oceania, da Europa e de outras partes da América. Era um programa muito rico de conteúdo e bem animado. Eu apresentava o programa na companhia de uma jovem portuguesa muito simpática.

RÁDIO VATICANO
Quando passou aquela primeira fase, eu encerrei meu tempo na Califórnia e voltei para continuar meus estudos na Pontifícia Universidade Lateranense, em Roma, passei a gravar um programa com o tempo menor e levando apenas a reflexão sobre a Palavra de Deus sem as rubricas e sem a participação da equipa. Nesse período, cobri as férias do repórter do programa brasileiro da Rádio Vaticano e tive a possibilidade de gravar alguns programas naquele mês. Em seguida, eu consegui um equipamento para gravar na Casa Geral da minha Congregação, onde eu morava. Daí para frente, começamos a fazer uma verdadeira peregrinação mensal: eu preparava a cassete e levava ao correio e a Maria Alcorta ia ao postoffice pegava a cassete e levava à Rádio Comercial que mudou sua sede para San José. Todos
os meses, a mesma peregrinação. Eu sabia que podíamos fazer a gravação de vários meses e enviar todos de uma só vez, mas nosso compromisso era de todo mês fazer uma reflexão nova e cumprir os mesmos ritos. Nesse ritmo, terminei meus estudos e voltei para o Brasil continuando a produzir o programa do mesmo jeito.

CELEBRAÇÃO DE 7 ANOS
Religiosamente produzido e enviado todos os meses, atravessamos sete anos de história do Programa Horizontes. A comunidade portuguesa e a pastoral organizou uma linda festa que contou até mesmo com a presença do senhor Cônsul do Brasil, em San Francisco. Foi um encontro inesquecível. Presidimos a Missa que contou com a participação de padre Bernardino, meu confrade brasileiro, padre Domingos Cardoso e ainda com a participação do querido padre Jeff, da paróquia de Santo Eduardo. Houve um lindo almoço que contou com a participação de muitas pessoas. O salão de festas do Newark Pavilian ficou lotado. Se eu pudesse viver mil anos, nunca iria me esquecer daquele dia. Era uma demonstração de que estávamos no caminho certo com o programa e que era preciso perseverar levando adiante aquele projeto tão abençoado. As dificuldades não eram nada perto do bem que aquele programa tinha feito para as nossas vidas, e eu fui a pessoa mais beneficiada com o programa que produzia todos os meses para enviar à Califórnia.

INTERNET
Quando encerramos o contrato ainda ficamos mais um tempo colocando o programa horizontes para ser ouvido através da internet. Naquele tempo, não era como hoje que as pessoas se acostumam de ouvir coisas no computador, no tablete ou no smartphone. Nossa audiência mudou muito e, quando completamos 10 anos de caminhada, conversamos bastante e resolvemos encerrar aquele projeto. Confesso que vivi, por muitos meses, um vazio profundo em minha vida missionária. O programa Horizontes era parte do meu rol de tarefas apostólicas que eu realizava todos os meses com muita alegria. Não foi fácil dar adeus ao programa. Lembro-me que pensei ainda em transformá-lo em outro tipo de programa, mas os tempos eram outros, minha vida estava muito atribulada com a administração de emissoras de Rádio da Congregação no Brasil e eu tinha que reconhecer que era o final de um caminho que tinha sido muito bonito, mas que se encerrava. Uma estrada percorrida com profunda consciência de que era preciso deixar que a Palavra de Deus conduzisse nossas vidas com luzes e segurança. Mas, acabou o programa e não tinha mais o que fazer sobre isso.

CASA HORIZONTES
Minha Congregação me confiou a coordenação dos trabalhos de uma rede de pequenas rádios no interior do estado de Goiás, no Brasil. Nesse trabalho, criei um informativo mensal que era enviado para os ouvintes de três emissoras de Rádio: Serra Azul, de Caiapônia, Vale da Serra, de São Luís de Montes Belos e Rio Claro de Iporá. Fazendo todos os meses aquele Jornal Horizontes, eu me sentia ligado ao projeto realizado na Califórnia, por muitos anos. Agora, em 2019, como continuidade do Programa Horizontes, da Califórnia e do Jornal Horizontes da Fundação Dom Stanislaw Van Melis chegou a Casa Horizontes, uma pequena editora de livros e revistas que pretendo levar adiante sempre cultivando bons textos. Nessa pequena editora, vamos resgatar a amizade com os queridos irmãos portugueses da América. Espero que todos visitem o nosso site, participe dos nossos projetos e levem a mensagem dos nossos livros.
Todos os amigos portugueses que vivem na Califórnia ou fora dela e tiveram contato com a pastoral da Diocese de Oakland são convidados a continuar conosco levando boas reflexões por um mundo melhor.