LI, VI, OUVI, ESCREVI

HOLDING THE MAN

Uma história de amor, apenas isso, se não fosse o fato de ser protagonizada por dois rapazes que morrem precocemente por causa da AIDs.

História de amor

Um crítico de cinema brasileiro, Luis Carlos Merten, disse que o filme “Holding the man”, não é uma bela mensagem apenas para quem se interessa por temas relacionados ao universo do preconceito e da intolerância católica em face da homoafetividade, mas é para quem se interessa pelo amor. É quase uma fábula, sem personagens rodeados de luz, mas fincados no chão da realidade humana mais concreta e verdadeira. Um filme de amor. Um filme sobre o amor em tempos duros, na Austrália das três últimas décadas do século passado, quando ainda imperava a lei “Anti-sodomia” no quadro do aparecimento da AIDs em várias partes do mundo. Dois homens corajosos, completamente improváveis. Um ator e um jogador de futebol americano em um colégio dos Padres Jesuítas.

Amor leve e pesado

Um amor vivido sem problematização interior para os que o experimentaram. Timothy Conigrave, o Tim, vivido pelo excelente Ryan Corr, protagonista e narrador da história e o incrível John Caleo, o John, que parece mais um ator árabe, mas é vivido pelo australiano Craig Stott. Desde o momento inicial com a atração que sentem, passando pela trama que vivem para expressar um ao outro o que sentem e chegando a crise que criam em suas famílias católicas, nenhum deles tem dúvida sobre o que são ou carregam culpa pelo que sentem. São o que são e não se colocam, uma vez sequer, a costumeira questão da “diferença” que pretensamente teriam dos outros rapazes com os quais se relacionam bastante bem temperando tudo o que vivem com muita brincadeira. É um amor levíssimo para os dois e pesa várias toneladas para aqueles que os rodeiam.

Amor e dor

Um amor que enfrentou a dor. O autor da história é o próprio Conigrave. Ele morreu 10 dias depois de terminar de escrevê-la. As histórias autobiográficas tem uma lógica bem diferente daquelas inventadas. As cenas se mesclam entre passado e presente. O diretor, Neil Armfield, ajuda bastante colocando datas para que o público não se perca ao entrar na magia do filme. Pode-se dizer que, nessa história, o amor enfrenta uma dor com várias máscaras. A primeira é a da hipocrisia familiar que se desmorona ao saber que dois homens – sem terem uma explicação para isso – se amam. A segunda é a da punição a quem professa amar e respeitar – seus filhos e filhas – de uma instituição como a Igreja. A última não tem máscara. É a dor da dor. Os protagonistas do filme sofrem física e psiquicamente por desenvolverem câncer e problemas com o cérebro em decorrência da AIDs.

Amor eterno

Um amor que mereceu uma extraordinária moldura cinematográfica O filme, lançado em 2015, tem uma fotografia linda. Começa e termina em uma ilha italiana com um mar maravilhoso e algumas frases na língua de Dante. As cenas na Austrália convencem como cenário entre os anos de 1976 e 1990, período real da história. Conrado Heoli, crítico do “Papa de cinema” vê um bocado de erros no filme, um deles, que é mais fácil de ser identificado foi escalar os mesmos atores para fazerem os papéis com 15 e 31 anos. Confesso que não vi nenhum problema nisso e nem notei que usavam perucas para a primeira fase. E para terminar, achei muito significativo que o diretor tenha dado ênfase numa frase que concentra o  teor eterno desse amor tão (in) comum: “Ci vedremo lassù, Angelo!”.

Brasília, 9.4.2020

Rafael Vieira