LI, VI, OUVI, ESCREVI

HORIZONTES DA DEPRESSÃO

Compartilhei minha experiência com a depressão com amigos e colegas jornalistas do grupo "Comunicadores Católicos" em uma live.

Fui convidado e aceitei compartilhar minha experiência pessoal com a depressão numa live promovida pelo grupo de Comunicadores Católicos que reúne jornalistas ligados às dioceses de todo o Brasil, como funcionários ou como agentes de pastoral ou como amigos. Foi uma experiência libertadora. Quando se pode expor a dor que se sente, a dor perde a força. Agradeço muito a todos que me acompanharam nessa transmissão e deixo aqui o roteiro da minha exposição. Dor compartilhada é dor amenizada, como dizia Santo Agostinho, segundo uma fonte confiável.

Depressão

INTRODUÇÃO

Já tive pudor em falar sobre isso. Preferia que ninguém soubesse. Mudei de ideia quando pessoas depressivas me procuraram achando se tratar um problema de natureza espiritual. Precisava dar um grito. Alertar para que aas pessoas que têm fé não duvidasssem da natureza espiritual da experiência do depressivo, bem formulada pelo padre italiano Maurizio Patricielo, em depoimento para o jornal Avvenire, em 8 de maio de 2015: “Eu estaria muito errado se dissesse que a fé me ajudou. A fé naqueles dias era tudo. Eu vivi por pura fé. Vivi de Deus, no entanto, sem nenhum consolo”.

O que apresento é apenas um testemunho. Não sou médico, nem psiquiatra, nem psicólogo. Sou um depressivo. Às vezes, sob controle, às vezes sem o controle. Depressão é uma doença. Uma doença crônica. Há vários tipos de depressão. Aquele tipo com o qual convivo pode não ter muito a ver com o que outras pessoas convivem. O que temos em comum, no entanto, é o sofrimento.

O tipo de depressão com a qual eu convivo me apareceu em dois momentos maravilhosos da minha vida:

1998: Convite para trabalhar na Rádio Vaticano. Foi duro deixar meu trabalho na Pastoral Popular, Rádio e Paroquia. Fui pra Roma. Muitíssimo bem acolhido pela equipe da Rádio. Estavam em plena preparação para o Jubileu do ano 2000. Muitas novidades. Eu estava com 35 anos. Jornalista e padre, trabalhar na Rádio do Papa. Assinei o contrato de 3 anos. Morava em uma paroquia redentorista, na Piazza dei Quiriti, a menos de 10 minutos do prédio da Rádio na Via Conciliazione. Trabalhava na parte da tarde e tinha as manhãs livres para estudar, rezar e andar pela bela Roma. Estava ótimo.

Do nada, passei a ter uma mania de perseguição em casa. Acha que o irmão de congregação desconfiava de mim. Passei a me esconder dele. Na rua, quando uma pessoa mudava de calçada me passava a impressão de que estava com nojo de mim. No trabalho, estava o tempo inteiro com uma vontade incontrolável de chorar. Eu redigia um texto e ia para o estúdio fazer o programa ao vivo. Quando o colega demonstrava a menor dificuldade na leitura do texto, eu pensava: “ele errou porque nao sei escrever“. Um dia, sai do programa ao vivo, me encolhi no canto do estúdio e chorei muito. Todos ficaram muito assustados. Fui ao médico. Diagnóstico: Depressão.

Conversei com o Pe. Federico Lombardi, que na época era Diretor de Programas, falei com meu provincial e sai da Itália e fui me tratar numa clínica de uma amiga minha no Canadá. Em dois meses, estava ótimo. Nunca mais me lembrei disso e nem tive recaídas.

 

2014: Em 2012, fui convidado para ser assessor de imprensa da CNBB, um ano e meio depois, as vésperas da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) de 2013, o Padre Geral da minha Congregação me convocou para assumir o Escritório Central de Comunicação da minha congregação que está presente em 89 países do mundo. Fui para Roma, outra vez, logo que terminou a JMJ. Fizemos um lindo planejamento de comunicação abrangendo os 5 continentes e em 7 idiomas. Estava muitíssimo animado. Procuramos fazer um caminho de maior conscientização sobre a necessidade de acolher a tecnologia atual e encontrar ferramentas novas para informar.

No ano seguinte, 2014, antecipei minhas férias para julho porque meu irmão havia falecido em maio e minha mãe estava precisando de mim. Fiquei 20 dias com ela. Antes da minha viagem de volta, fui fazer um exame de prevenção de câncer, uma colonoscopia e houve acidente médico. Fiquei com o intestino perfurado durante  quatro dias, quase morri. Passei por cirurgia complicada. Um mês e meio depois, como por um milagre, eu estava completamente bom e pronto para voltar para Roma.

No caminho para a remarcação da passagem, sozinho no carro, tive a sensação de que ia morrer. Parei. Tive uma das piores experiências de pânico da minha vida. Passei três semanas em que não conseguia comer direito, nao dormia quase nada. Fui ao Psiquiatra. Diagnostico: Estresse pós-trauma e síndrome do pânico. Remédios. Um mês depois, por minha própria conta, larguei os remédios. Estava super bem. A volta foi pior do que da primeira vez. Desde lá, lido com uma depressão que oscila. Passo meses bastante bem, do nada, me aparece uma baixa. Tomo remédio, vou aa psiquiatra todos os meses e frequento um psicólogo.

Pior tempo dessa depressão
Passei a conviver por vários meses com um cansaço mortal, um tédio terrivel e um completo desinteresse por tudo. Eu fico letárgico. Passo uma semana inteira no quarto escuro saindo somente na hora de uma outra refeição.

TERAPIAS

Interdisciplinar: o espaço que a minha amiga psicóloga tinha no Canadá em 1998 era experimental e interdisciplinar (médico, psiquiatra, psicólogo, nutricionista, fisioterapeuta, reiki). Imersão total. Lá eu fiz de tudo: regime alimentar rigoroso, caminhadas com tarefas para ocupar a cabeça, sessões diárias de terapia e passeios no final de semana. Em dois meses, de fato, eu estava ótimo.

Psiquiatria: Depois de 2014, já passei por 4 psiquiatras. Até acertar o remédio e dosagem, leva tempo.

Psicólogia. Me ajudou muito por ser um analista Junguiano.

MINHAS CONCLUSÕES

Essa luta tem me ensinado muito. Vou resumir em cinco lições.

  • É uma experiência de fé sem igual. É preciso se entregar, sem perguntas.
  • É preciso deixar de carregar o mundo nas costas. Evitar ativar a ansiedade porque ela desencadeia uma rede de males. Não fazer compromissos que aciona o gatilho. Viver com mais liberdade.
  • Comer direito, fazer exercício físico todos os dias e dormir bem.
  • Não cair na cilada da doença: personalize-a, converse sério com ela e dê um “chega pra lá”. A Depressão é vaidosa, quer todas as atenções. Mate-a pela indiferença.
  • Olho para frente e para o alto (no sentido físico, no sentido existencial e no sentido espiritual)

Pe. Rafael Vieira, CSsR
Live com os “Comunicadores Católicos”, em 09.06.2020