LI, VI, OUVI, ESCREVI

HOT JESUS: SÍMBOLOS SAGRADOS E IRREVERÊNCIA

Dois jovens de vinte e poucos anos da cidade de Racale, na província de Lecce, interior da Itália, está dando o que falar e o caso que envolve essa turma foi parar nas páginas da última edição da revista L’Espresso. Eles chamaram artistas plásticos conhecidos para pintar paredes. Entre esses convidados está Gionata Gesi que tem o nome artístico de Ozmo. É dele a obra que conseguiu romper as fronteiras da cidadezinha e ganhar o mundo: pintou um São Sebastião que usa cueca boxer assinada por uma grife famosa e as flechas no corpo do mártir são representados por peças do jogo de pôquer. A reação foi imediata de muitos grupos que aplaudiram e que criticaram ferozmente a aventura. E é claro que os jovens italianos que tiveram a ideia estão celebrando a polêmica. Ozmo acertou na mosca. Ele seguiu a linha de que para garantir a ruptura do marasmo na discussão pública nada melhor do que um toque em símbolos religiosos.

Iconografia sagrada aliada a nudez, sexo ou dinheiro forma uma receita infalível e sempre tem alguém lançando mão desse recurso. Mesmo que seja de forma velada, a fórmula faz sempre muito sucesso. Está sendo apresentado nas telas dos cinemas de shoppings espalhados pelos Estados Unidos, Europa e resto do mundo, um novo filme sobre Jesus. Os produtores de Son of the God são protestantes norte-americanos que partiram de uma série televisiva sobre a Bíblia, mas apostaram no sex appeal de Diogo Morgado, o ator português que faz o papel principal. Em várias entrevistas que foram concedidas para divulgar o filme, havia uma insistência sobre a filmografia de galã do ator. Na mais famosa delas, dada a campeã absoluta de audiência junto as donas de casa dos Estados Unidos, a carismática Oprah Winfrey, Morgado foi chamado de hot Jesus. Os resultados iniciais mostram que o esquema está funcionando bem também na Espanha e nos países hispânicos da América.

São Sebastião é uma “vítima” fácil desse tipo de estratégia, afinal sua imagem é de um homem forte, despido, elementos fáceis para serem associados a leituras mais sensuais. O artista francês Leo Caillard que vestiu estátuas renascentistas com roupas modernas e chegou até a colocar uma camisa jeans aberta até o umbigo de um másculo Cristo, esculpido por Germain Pilon em 1572, dizia em matéria da revista Super Interessante do mês de janeiro deste ano que “a realidade não existe por si mesma, é o só uma representação do mundo que depende do seu ponto de vista”. Ozmo, portanto, seguindo essa lógica, viu lá na cidadezinha de Racale, um São Sebastião de 6 metros de altura que parece um desses modelos que desfilam para Dolce e Gabbana. O problema maior dessa visão, no entanto, é que São Sebastião é o padroeiro da cidade e o prefeito, de 33 anos que se elegeu sob o lema Eu amo Racale, está exigindo que os jovens que convidaram Ozmo o convença de modificar sua obra cobrindo a cueca.

Um outro artista, de quem tive a honra de ser amigo, tinha uma escultura de São Sebastião quase nu em seu pequeno, mas belo apartamento do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. O ator Caíque Ferreira, nascido no interior Fluminense, Sao Pedro da Aldeia, não sabia bem dizer a razão daquela forma de representar o padroeiro da cidade que ele vivia, mas me disse que aquele santo era especial para ele. No correr dos anos de nossa amizade, fui entendendo que ele não via o que eu via naquela obra. Eu fiquei surpreso com a quase nudez do Sebastião, ele via o trabalho ousado e delicado do escultor. Ele que tinha uma impressionante sensibilidade. Anos mais tarde, um ano antes dele morrer, andando aqui pelas ruas de Roma, nós passávamos perto de ruínas no Fori Imperiali, perto do Colosseo, e ele me pediu para que encostássemos as mãos nas fendas de colunas de mármore. Eu achava aquilo estranho, não sentia nada, mas lembro-me, nitidamente, de vê-lo de olhos fechados fazendo aquele exercício. Ele via e sentia o que eu não tinha a mínima ideia do que fosse. Eu entendo pouco de tudo isso, mas acho que, afinal, é essa a chave de compreensão: o modo de ver e sentir. E é esse, afinal, o jogo. Há quem possa ver uma obra irreverente como aquela de Racale sem se escandalizar, sem imaginar que se trata de um atentado contra um símbolo cristão porque vê outra coisa e não as formas musculosas do corpo pintado e muito menos a grife da cueca. Há quem possa se sentir profundamente atingido em sua sensibilidade ao se deparar com um santo que usa somente roupa íntima. Há ainda o mercado, o merchandising, a publicidade, mas isso já é outro papo.

Fotos: L’Espresso e Canal Sony

Rafael Vieira, 18.3.2014