ESPECIAL

Meu irmão italiano, Giampaolo Limardi, jornalista esportivo e escritor ganhador de vários prêmios de Literatura, conheceu a nossa “Casa” e resolveu ocupar um espaço nela, o que me deixou profundamente feliz e agradecido. Ele vai sempre trazer um olhar duplo: um olho na sua bela e querida Itália e outro no seu belo e querido Brasil!

Aprecie seus textos, sem moderação. São maravilhosos.

O caminho para a perfeição cristã passa pela alegria

Assistindo ao último programa “Parlatório” do pe. Rafael Vieira, na TV Pai Eterno, me deparei numa palavrinha que solicita uma reflexão profunda: alegria. Pois nesse tempo de muita dor, de um mundo que encara o sofrimento de maneira permanente, a alegria diminui“(…) como uma lagrima de amor”, tal como a felicidade pintada pelo mestre Vinícius de Moraes.

A alegria é uma atitude positiva ou um jeito quase doido de enfrentar problemas? Quem sorri está ciente do que acontece ou mora na cidade da bobagem desrespeitosa? A chave da resposta está na proximidade com Deus. “Um cristão deve ser alegre”, diz sempre o Papa Francisco seguindo os rastros de iluminados pensadores e homens de fé.

O Arcebispo da Arquidiocese italiana de Foggia-Troia, Fortunato Maria Farina, cujo processo de beatificação está encaminhado na Santa Sé, escreveu no seu diário, na época da Grande Guerra: “Serei sempre alegre e cheio de gioia. O diabo tem medo de uma alma alegre, pois uma alma alegre alcança com mais facilidade a perfeição.” Um coração alegre rumo a perfeição? Parece brincadeira, mas não é: trata-se de uma perspectiva real de salvação. Porque na concepção cristã, a alegria não nasce por uma abordagem superficial da existência, muito pelo contrario, ela tem origem pela certeza da presença de Deus Pai, que cuida de nós com amor e misericórdia e que nos acompanha nas dificuldades da vida.

Todo o mundo se lembra daquela linda história das trilhas na areia, quando durante os dias de maior sofrimento do homem as trilhas de Deus desapareciam pois Ele o carregava. É isso mesmo: o cristão há que ter a luz da alegria, simplesmente pois ele confia em Deus… “e ainda que caminhe nas sombras da vale da morte, não temerei, pois Vós estais comingo.” (Salmo 23).

Foggia, 3 de setembro de 2020

Giampaolo Limardi

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O trigo e o joio, a semente e os frutos:

Palavra e testemunhas por um mundo melhor

Quando a morte chega nos dá sempre um sentimento de impotência. Porém, quando a morte atinge dois jovens, é preciso pararmos e refletirmos. Tinham 15 e 16 anos, os rapazes que há duas semanas foram encontrados mortos numa cidade do Centro da Itália, Terni, região da Umbria. Eles tinham consumido substâncias que causaram o falecimento. O “pusher” que foi preso admitiu a venda aos meninos de uma garrafinha de metadona, mixturado com água, por 15 euros (90 reais). Numa entrevista ao jornal “Corriere della Sera”, Stefano Superbi, diretor de uma casa de reabilitação por menores toxicodependentes de Firenze, disse que os jovens consumidores de drogas estão aumentando cada vez mais e que a idade deles está sendo sempre mais baixa. Questionado sobre as causas desse fenômeno, ele respondeu: “Este é o efeito de uma sociedade na qual as referências são sempre mais escassas e o valor mais importante é o do consumo. E os jovens fazem parte deste mundo.

Uma frase que nos obriga a pensarmos em nossas responsabilidades. Que mundo estamos proporcionando aos nossos filhos? Quais valores lhes estamos trasmitindo? Que semeamos e que frutos estamos colhendo? Ecoa forte a palavra de Deus no Evangelho de Mateus sobre o trigo e o joio. Crescem juntos e o que nos permite de diferenciá-los são justamente os frutos. A morte de dois meninos de 15 e 16 anos, a difusão sempre maior de gangues juvenis que chantageam e aterrorizam menores e idosos, a história daqueles adolescentes ricos de Roma que falsificaram prescrições médicas para obterem substâncias para o “sballo”, assim como na Itália se define o efeito alucinogénico das drogas, estão aí para atestarem nosso fracasso como educadores. Pois está no comportamento de nossos filhos a medida para julgar nossa ação como pais.

O que nós temos que ensinar é a caridade, o respeito e o amor para os outros. E para fazer tudo isso temos que ser nós mesmos testemunhas, pois como escreveu de maneira clara São Paolo VI na exortação apostólica “Evangelii Nuntiandi” de 1975: “O homem contemporâneo escuta mais os testemunhas do que os mestres e se ouve os mestres é porque ele são testemunhas também.” Se for assim, nossos jovens serão “(…) sempre mais testemunhas de unidade, de caridade e de proximidade com as pessoas”, tal como destacou o Dom Giovanni D’Aniello, núncio apostólico no Brasil pela Santa Sé, numa entrevista durante a qual se despediu de seu cargo antes de viajar para a Rússia. Uma mensagem de esperança para o futuro, aquele futuro que foi negado a dois meninos de 15 e 16 anos que, numa noite de julho, acharam as trevas da morte.

Foggia, 25 de julho de 2020

Giampaolo Limardi

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O consolo da fé, uma resposta aos acontecimentos da vida!

Quem não conhece a melodia de “C’era una volta in America” ou de “Per un pugno di dollari” ou de um monte de outras obras-primas realizadas por um gênio da música contemporânea, o Ennio Morricone? Ele faleceu no dia 6 de julho, num hospital de Roma. Tinha 91 anos. Numa nota escrita pelo amigo e advogado Giorgio Assumma, que anunciava a “subida ao céu” do mestre (Óscar à carreira em 2007), se lia que ele morreu com “o consolo da fé”. Esta
frase nos dá uma oportunidade pra fazermos uma reflexão sobre esse assunto.

Falar de fé nesse tempo de pandemia é mais do que necessário, pois ela está ligada estreitamente ao conceito de dor, de intervenção de Deus em nossa vida. Porque Deus permite a dor, o sofrimento, a morte, muitas vezes de inocentes? O povo o grita… nosso coração o grita. Uma pergunta natural, mais do que legítima pela nossa humanidade. Uma das santas mais amadas na história da Igreja, Santa Teresa de Calcutá, a nossa querida Madre Teresa, foi muitas vezes queimada por um fogo de dúvidas interiores lidando todos os dias com a morte, a fome, a injustiça de um mundo que gasta e onde se desperdiça enquanto milhões de pessoas (crianças, sobretudo) vivem sem água, comida e amparo. Mas a chama do espirito de fé sempre se alimentou nela com as orações e a humildade.

A mesma de uma figura bíblica bem conhecida, o Job, que foi muito provado nas riquezas, na família, na sua própria carne mas que nunca perdeu a fé. Ele dizia: “Deus nos dá, Deus nos tira: seja bendito o nome de Deus”. Eis a chave para aceitarmos o que acontece em nossa existência: confiar em Deus, no projeto de vida eterna que Ele nos proporcionou. Só assim uma doença pode ser enfrentada de maneira que não atrapalhe nossa caminhada na terra e a morte esperada na serenidade que vem do amor de Deus. É o que ocorreu com o mestre Morricone: ele deixou uma herança ainda maior do que suas esplendorosas músicas, ou seja que nos momentos de solidão, de sofrimento e mesmo de morte há sempre o consolo da fé!

Foggia, 12 de julho de 2020

Giampaolo Limardi

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Aprender dos erros e reencontrar um olhar luminoso para o céu

Aquela imagem ficará para sempre em nossa memória. Havia silêncio na noite de Bergamo, região da Lombardia, zona Norte da Itália. Uma cidade abalada pela Covid. Nem lágrimas pra serem derramadas. Nem o vento pra soprar. Só o ruído dos pneus dos caminhões militares que cruzavam as ruas desertas. Levavam as caixas dos mortos que não podiam ser abrigadas nos cemitérios. Uma marcha lenta até que as luzes dos faróis desapareceram nas trevas da dor. Era o mês de março, o mais terrível para Bergamo, 120 mil habitantes e uma luta feroz para sobreviver.

Há sete dias, o presidente italiano Sergio Mattarella assistiu a um concerto justamente lá onde a pandemia bateu mais forte. Uma homenagem aos óbitos, às famílias, às pessoas de Bergamo e província e um convite claro: “Aprender dos erros”. Foi o que Mattarella disse a quem estava presente e a quem acompanhava pela televisão. Que erros? O que faltou? É verdade: todo mundo foi surpreendido pelo surto, houveram atrasos nas respostas, medidas prudentes no começo.

Porém vamos um pouco além das polêmicas políticas e médicas. Nossa vida anda rapidinha, mas por causa da Covid parou. Foi a oportunidade para pensarmos nesse mundo de socialidade… “asocial”. O que faltou? Compartilhamos o que expressou dom Walmor de Oliveira Azevedo, arcebispo de Belo Horizonte e Presidente da CNBB no programa Parlatório do pe Rafael Vieira na TV Pai Eterno. Questionado sobre o momento do Brasil disse: “O que nos falta é um olhar luminoso de solidariedade e cidadania.” É isso mesmo: solidariedade e cidadania. A pandemia nos ensinou que correr rumo ao sucesso pessoal é uma armadilha perigosa. Devemos ter uma visão diferente: aquela dos pequenos, das crianças. O que faz uma criança é brincar pelo puro gosto de brincar. Não há competitividade de jeito nenhum. Estabalece regras pelo jogo e as respeita.

E mais ainda, uma criança olha sempre para cima, para o pai no qual confia totalmente. A gente, hoje em dia, está acostumada a olhar para baixo na medida de seus passos. Perdeu o “olhar luminoso” para o céu, para as coisas grandes. Para aquele Pai que nos ampara e nos espera: “Venhai pra mim”, está escrito no Evangelho de Mateus do primeiro domingo de julho. Uma mensagem entregada para os pequenos, as crianças, os “anawim” (na linguagem judaica), ou seja para quem mira para cima com humildade. A pandemia veio e nos sacudiu. Então, aproveitemos esse tempo e aprendamos de nosso erros, deixando com ternura um pensamento para quem – numa noite de dignidade e tristeza – foi escoltado até o céu…

Foggia, 5 de julho de 2020

Giampaolo Limardi

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Lute pela vida pois é um caminho rumo a verdade e a liberdade

Um acidente para a gente refletir. O mundo do esporte parou e se comoveu. Alex Zanardi está lutando pela vida numa UTI do hospital de Siena, região da Toscana, no centro da Itália, onde foi internado após um acidente ocorrido durante uma prova “de revezamento” de paraciclismo à qual o campeão estava participando (chocou-se contra um caminhão depois de ter perdido o controle de sua bicicleta).

Pelos poucos que não o sabem, o Alex Zanardi é um ex piloto que em setembro de 2001 numa corrida da antiga Fórmula Cart (parecida com a Fórmula Indy) na Alemanha sofreu um outro terrível acidente e teve a amputação das pernas. Ele porém não se rendeu ao que tinha acontecido, deu uma arrancada para uma nova vida e virou um craque de paraciclismo ganhando medalhas de ouro nas Olimpíadas de Londres e Rio de Janeiro. Mas – sobretudo – o Alex se tornou um exemplo de renascimento, de como lidar com as adversidades, registrou uma marca muito pessoal na luta pela vida.

A vida é vida, viva-a”, falava Santa Teresa de Calcutá. A vida é um dom e enfrentar os desafios dela é uma missão, é a nossa missão. Temos “talentos” que não podemos desperdiçar enterrando-os como fez aquele servidor da parábola do Evangelho temendo a dureza de seu dono. Devemos aproveitar a vida, respeitá-la desde o começo até o fim e vencer os empecilhos que ela nos propõe no cotidiano. Enfim, o que é a vida? “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, disse Jesus aos apóstolos: a vida é – pela sua mesma natureza – a busca de um caminho de verdade, pois é a verdade que nos torna livres.

E é justamente pela libertade que brigou Milada Horáková, política e jurista da velha Tchecoslováquia, que foi enforcada pelo regime comunista no dia 27 de junho de 1950, depois de ter combatido tanto o nazismo (foi reclusa num campo de extermínio por cinco anos) quanto o próprio comunismo em nome dos direitos das pessoas. Numa carta para a filha escreveu: “Quando achar uma coisa justa, lute até morrer pra ela”. Foi o que ela fez. Então, desejamos ao Zanardi que ele saia vencedor dessa nova batalha pela vida e recordamos que a Milada nasceu em 25 de dezembro (de 1901). O dia da vida, o dia de Quem nos apontou um caminho de salvação, proclamou a verdade e se sacrificou para libertar nossa vida da escravidão do pecado.

Foggia, 27 de junho de 2020

Giampaolo Limardi

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A dignidade não tem cores nem bandeiras ideológicas

Ajoelhar-se para recordar George Floyd: foi o que fizeram alguns deputados italianos durante uma sessão do Parlamento, no rastro dos protestos que incendiaram os Estados Unidos e as consciências de um mundo em luta permanente contra o racismo. Uma atitude aplaudida por uma parte, criticada por outra: uma nova peça no teatro da eterna contraposição política que corrompe também os mais puros sentimentos, tornando a ideologia um verdadeiro “moloch” ao qual sacrificar inclusive o espirito de piedade. Aqui não estão em jogo um punhado de votos, trata-se de defender a vida e respeitá-la sem cores nem bandeiras, sem espadas desembainhadas em busca do inimigo, sem alimentar o fogo do ódio pois está justamente no ódio a raiz da violência.

Uma mulher que protagonizou uma luta feroz pelos direitos humanos na Colômbia, Íngrid Betancourt – sequestrada pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (as Farc) em 2002 e libertada depois de seis anos de cativeiro – escreveu que o “ódio é um sentimento auto- destrutivo. Ele tira dignidade e grandeza, é como uma cadeia”. E a primeira coisa que uma cadeia tira é a libertade, que caminha junta com a dignitade, do latim “dignitatem”, que vem de “dignus”, ou seja digno, que merece de ser assim como é. A chave está toda na dignidade, que vai muito além de nossa humanidade. A dignidade tem uma inspiração divina.

Na magnifica Carta de São Paulo aos Romanos, no capítulo oitavo, ele fala do homem como “predestinado por Deus a ser conforme com a imagem de seu filho Jesus”. Eis o significado mais profundo da dignidade: ela não é de esquerda nem de direita, pertence ao ser humano criado por Deus como imagem de Jesus em toda a sua plenitude e diversidade. A dignidade “chora” ao ver um rapaz viver num bairro degradado e morrer num amontoado de trapos e farrapos na solidão de uma barraca “invisível”, assim como aconteceu a Mohamed Ben Ali, queimado há dez dias nos arredores de Foggia, cidade da região Puglia, no Sul da Itália. Ben Ali trabalhava no campo, sorria sempre e queria só um existência… digna. A mesma que pedia uma imigrante portuguesa na Suiça, forçada a renunciar ao almoço para pegar o último ônibus e voltar pra casa.

A dignidade não é branca nem negra, a dignidade é própria do homem pensado no plano divino e devemos cuidar com ela. Então, ajoelhar-se sim… mas depois precisa levantar-se e comprometer-se para construir um futuro mais justo e igualitário onde um George Floyd, um Ben Ali ou uma imigrante qualquer sejam respeitatos como seres humanos indEpendentemente da cor da pele, da carteira assinada e das idéias políticas.

 

Giampaolo Limardi

Foggia, 19 de junho de 2020

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Um número pode ficar sozinho, uma pessoa não

“A solidão dos números primos” è o título de um romance de muito sucesso escrito por Paolo Giordano e publicado na Itália em 2008. Contava a história de dois jovens marcados pelos acontecimentos da infância. Haviam vidas “paralelas” que se encontravam de vez em quando mas que nunca andavam juntas, como os dois «números primos» que os identificavam.

A aritmética, a estatística, a contagem, os contaminados, os óbitos, os recuperados, os internados: justamente os números se tornaram o assunto muito debatido nesse tempo de pandemia. Mais casos ontem, menos hoje, amanhã quem sabe… Uma enxurrada de dados, uma batalha quase ideológica entre uma difusão, as vezes mórbida, e um encobrimento criminoso, uma luta acalorada que esconde porém uma cilada perigrosa: esquecer que atrás de um número há sempre uma pessoa. Uma pessoa é a humanidade.

A semana passada, o presidente italiano Sergio Mattarella entregou o título de “Cavaleiro da República”, entre os outros, à uma enfermeira de Cremona na Lombardia (região do Norte da Itália, a mais atingida pelo virus) cuja imagem impressionante foi difundida pelas redes sociais no mundo inteiro. Ela estava jogada no teclado do computador “destruída” pelo cansaço depois de um turno massacrante na primeira fase do surto, aquela que nos jogou no inferno da Covid 19 enchendo os hospitais de doentes e congelando as esperanças de todos.

Costuma-se dizer que “a palavra empolga mas é o exemplo que arrasta” e ela foi um exemplo de humanidade. O que ela fez foi cuidar das pessoas e não registar números. O que ela fez foi compartilhar um piscar de olhos, único contacto permitido pelo equipamentos de protecção, com os doentes deitados na cama. O que ela fez foi comover-se ao ver uma “avozinha” sair ganhadora desse combate ímpar e cumprimentá-la com um sorriso de felicidade. O que ela fez foi doar o tempo todo para tirar a solidão de pacientes longes da família. O que ela fez foi um ato de misericórdia e caridade.

Um dia, há muitos séculos, alguns bandidos assaltaram um viajante que descia de Jerusalém até Jericó e o abandonaram lá quase morto. Passaram um sacerdote e um doutor da lei e nem o olharam, foi a vez de um samaritano que parou, cuidou dele e o salvou. Portanto, deixe pra cientistas e políticos os números e repare no ser humano. Está no atendimento a quem sofre a faísca do Amor divino. Pois um número pode ficar sozinho, uma pessoa não!

Gianpaolo Limardi

Foggia, Itália, 11 de junho de 2020

Renascer na esperança, no respeito e no Amor

Escrevo de um jeito imediato. Impetuoso como as águas de uma cachoeira caindo na estação das chuvas. Diretinho, com sentimento e amor pelo “meu” Brasil que está sofrendo, está chorando. Choro que se espalha pelas ruas cheias de temor, de um medo que brota das veias dessa terra encantadora. Um pedaço de meu coração desamparado. Uma doença é uma doença. Traz sempre lágrimas. Nesse caso, trouxe o isolamento também. Todo mundo fala de isolamento. Está correto, é justamente graças ao isolamento social que as pessoas – aqui na Itália – podem hoje (com enorme cuidado!) falar em “retomada”, num novo começo depois de 33 mil óbitos e gotas de dor derramadas com fartura.

Há um inimigo sorrateiro, desonesto, capaz de sufocar inclusive o fôlego da esperança. Voltar a ter esperança: esta é a dica. Sentir a esperança, viver a esperança, confiar na salvação pela esperança. Aquela esperança que levou milhares de italianos para o Brasil no início do século passado. Era gente em busca de uma existência melhor. Encontraram uma possibilidade e muitas dificultades. Lutaram e deu certo, com “muito orgulho e muito amor”, assim como cantava a torcida rubronegra no Maracanã naquele dia de setembro de 1997. Havia clásico, o Fla-Flu, havia bola rolando. Havia paixão, havia loucura. Havia cores, havia respeito pelo futebol. Hoje em dia – no “meu” Brasil – não dá nem para pensar no futebol, mas no respeito sim.

O respeito que se deve aos que mais precisam de ajuda, de compreensão, de amizade, de solidariedade, de um sorriso consolador. Respeito pelas famílias que perderam pessoas caras sem poderem deixar lá uma flor ou uma carícia. Respeito pelos que trabalham enfrentando o perigo de serem contaminados e pelos que ficaram desempregados devendo confiar num sistema de poder cruel e responsável pelas desigualdades. Respeito pela vida que é um dom de Deus. Respeito pelo Evangelho que nos convida a sermos imagem de Jesus Cristo. Ou seja, imagem de Caridade, de Amor, de quem subiu em cima da cruz para nós. Então, “meu” Brasil, pega a tua cruz e levanta-te! O sol vai renascer. O sofrimento, a morte não escreverão a última palavra. A esperança, o respeito, o Amor sim. Eles vão travar o Bom Combate e irão ganhar. Sem dúvida alguma…

Gianpaolo Limardi

Foggia, Itália, 04 de junho de 2020