LI, VI, OUVI, ESCREVI

JAMES BOND EXISTIU E FOI NO BRASIL QUE ELE APRENDEU A SER O 007

A revista “Il Venerdi” do jornal “La Repubblica” trouxe na edição da semana passada a recensão de um livro que parece interessante: “Avventura brasiliana”, escrito em 1933 e que volta a ser traduzido para o italiano. Publicado no Brasil, o livro tem tudo a ver conosco pois mostra o país no começo do século passado, até mesmo o nosso querido Rio Araguaia, além de nos dar uma bela notícia sobre James Bond, o cinematográfico espião inglês. Leia o texto:

James Bond existiu. Ele era irmão de Ian Fleming.

Alberto Riva, Il Venerdi, La Reppublica, 11.10.2013

Seu nome era Peter. Era um jornalista, explorador, e, claro , um agente secreto. Em 1933, escreveu um livro, agora traduzido para o italiano, chamado-se como o 007, mas era uma paródia do imperialismo.

Isaac B. Singer também tinha um irmão mais velho que era escritor  e que, generosamente, dizia ser melhor do que ele. Não era verdade: era muito melhor o pequeno Isaac, autor de Shosha e O Mago de Lublin. Da mesma forma, ocorre com a leitura de Avventura brasiliana de Peter Fleming, o irmão mais velho de Ian que inventou a saga de James Bond. Descobrimos que toda a devoção que Ian concedeu a seu irmão era simplesmente amor fraternal. Ainda assim, o livro de viagens escrito por Peter, quando ele tinha vinte e seis anos, em 1932 , que volta à livraria, tem em si uma série de qualidades que o torna interessante, incluindo uma revelação, em contra-luz, a respeito do personagem inventado por seu irmão.

Peter, de fato, nasceu em 1907, foi um jornalista, explorador e herói na guerra  de 1939-1945, onde teve um papel crucial em seus serviços de inteligência contra os tentáculos nazistas. Ele e Ian foram os filhos de um importante político, Valentine Fleming, que morreu jovem , durante o conflito em 1914 -1918. Ambos tinham talentos versáteis. Peter se formou em Oxford e, em seguida, empreendeu várias carreiras, incluindo a de crítico de cinema do Spectator. Em 1932, lê um anúncio no Times que recruta voluntários para uma expedição na Amazônia, no rastro do Coronel Fawcett, explorador de Sua Majestade que desapareceu em 1925. Não pensou duas vezes e se engajou. E assim, nas páginas do relatório que ele escreveu em seu retorno, por um lado encontramos a descrição da viagem, primeiro ao Rio, depois São Paulo, Mato Grosso e ao Rio Araguaia e, segundo, um jogo literário muito divertido .

Peter Fleming está disposto a morrer para não ser levado a sério e, como ele descreve o que vê, reflete sobre o gênero de narrativa de viagem, com tiques dos exploradores e produz a paródia de um herói imperialista, que hoje seria politicamente incorreto. Seu jogo fica tão refinado que chega a produzir um gênero em si, uma “meta- não-ficção”. Fleming escreveu: “Desde a saída, em Londres, a expedição teve uma conduta que poderia ser chamada, para dizer o mínimo, grotescamente profissional”. E, em seguida, anota, sendo testemunha de um passo histórico da política brasileira dos anos trinta: “Quando voltamos para o nosso hotel, fomos informados de que tinha havido uma revolução. ( … ). Ficamos decepcionados e até irritados. Nenhum de nós tinha participado de uma revolução experientes antes, mas tanto quanto eu sei, estar no meio de uma revolução e não ter a menor idéia daquilo 18 horas depois dessa revolução ter começado, parecia indicar uma certa falta de perspicácia”.

Quem está acostumado ao alarde de certos enviados especiais de hoje, a ingenuidade de Fleming parece ter as propriedades de um bálsamo. Nunca é para menos que o repórter, conhecendo as ferramentas do ofício, faz o sanduíche com os ingredientes certos: improváveis ​​companheiros de viagem, encontro com o grande rio “de fogo e de sangue” e um “país jovem, onde a indústria cresce descontroladamente e ainda não adquiriu o falso encanto com que os filmes russos e os poetas modernos mais aquiescentes são parcialmente capazes de embelezar o simulacro de uma era mecânica”.

Dedicado a Shakespeare, cria um antagonista, o organizador da viagem, o insuportável Pingle, o amigo que se transforma em adversário e faz a segunda parte da narrativa quase um thriller .

Mas as páginas contam a verdade. Fleming navegou nestas águas a sério e o livro, que saiu com grande ressonância em 1933, tem certamente desempenhado um papel no imaginário de então que estava se formando no público europeu a respeito do hemisfério sul, uma imagem que, até certo ponto ainda hoje existe. Um mundo misterioso, selvagem e lânguido, afetado pelo vício da calma (“O atraso no Brasil é uma condição necessária que o habita”) que nem mesmo os mais famosos textos deste tempo e posteriores, como o Brasile de Stefan Zweig e Tristes Trópicos, de Claude Lévi -Strauss seriam capazes de desmontar. E assim surge a maior qualidade do livro : a sua lucidez .

Fleming, que volta para casa sem qualquer notícia relevante a respeito do destino de Fawcett, mostra que o mistério do Brasil permanecerá intacto apesar das expedições, das viagens, das descobertas. O jovem Peter, por outro lado, sem diverte muito diante dos mapas errados de Pingle, das alegações enganosas, a pistas não marcadas que, de repente, apareciam, de improviso. E assim, o mais convincente é a viagem ao coração das trevas, mas sim o retorno. Quando você não tem nada realmente para relatar como um troféu a não ser o que vivemos e não poderemos viver de novo, que seja, ao menos, para escrever sobre isso, diligentemente, em um Moleskine qualquer

E é aí que reside está a última  descoberta: a de que Pedro foi o modelo para que Ian inventasse Bond, o homem que na frente de um crocodilo com a boca aberta teria esboçado um sorriso e bebido um Martini Vodka sem se mexer. Ele existiu: se chamava Peter Fleming.

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Rafael Vieira, 24.10.2013