LI, VI, OUVI, ESCREVI

JESUS COM 70 ANOS

Jesus Cristo Superstar em Roma

Estreia antes da Páscoa, aqui em Roma, uma nova montagem da ópera rock Jesus Cristo Superstar, dos americanos Tom Rice e Andrew Lloyd Webber. Sucesso mundial iniciado com uma peça em 1971, em Los Angeles e com um filme rodado em Israel, em 1973. O espetáculo romano conta com a presença de Ted Neeley, o protagonista da peça e do filme originais. Quando ele fez o filme, dirigido por Norman Jewison, ele já tinha 30 anos. Em setembro do ano passado, Neeley completou 70 e está com plena voz e malha todos os dias. Numa conversa com redatores da revista Il Venerdi, do jornal La Repubblica, ele falou que o personagem o marcou definitivamente sua vida e que espera, pasme, que o Papa Francisco vá ao Teatro Sistina para assistir a ópera. E se ele não for, Neeley disse que vai encontrar um modo de levar a peça ao Vaticano com a certeza de que o Papa vai gostar. Isso é que é convicção! Ele nem sabe que uma montagem atual dessa peça em São Paulo com atores jovens tem suscitado protestos entre católicos e evangélicos no Brasil.

Estou entre aqueles que consideram muito boa a história contada no espetáculo. E não se trata apenas de creditar meu encanto ao fato de gostar de musicais. Fui levado a conhecer e aprofundar o roteiro de Jesus Cristo Superstar por meu professor de Cristologia, um confrade da Província de São Paulo, o saudoso padre João Rezende Costa. Na época dos meus estudos institucionais de Teologia, no ambiente em que eu vivia, se respirava uma antipatia geral por tudo o que era produzido pelos Estados Unidos e ninguém admitia que Cristo tenha sido um Superstar. Padre João levou o filme em várias aulas e nos fez ver que a proposta da peça era mostrar exatamente o contrário. Um grupo de hippies chega a um deserto e canta a história de Cristo de modo a escancarar sua desconcertante humanidade. Nunca vou me esquecer de duas cenas amplamente analisadas pelo professor. Na primeira, Jesus é “sufocado” pelos pobres que “brotam” das pedras. A segunda é a reprodução da agonia no Getsemani quando o apelo de Jesus ao Pai chega ao máximo da sinceridade e da dor. Inesquecíveis.

Apesar de ainda não saber se poderei ver Neeley setentão no Sistina, eu o vi no aniversário de 20 anos do filme num teatro de San Francisco, na Califórnia, em 1993, na companhia de amigos muito queridos. Recordo que aquela noite me fez lembrar muito dos ensinamentos do padre João. Ele dizia que o Jesus histórico poderia ter sido alguém como aquele personagem encarnava: simples, pacífico, firme e revolucionário. Ilustra a matéria de Il Venerdi uma cena que representa muito da concepção do personagem quando numa incrível dança em que Jesus estabelece um diálogo cantado com Simão, o zelota. Qualquer pessoa que tenha algum conhecimento sobre a origem dos apóstolos sabe que os zelotas queriam o fim da ocupação romana na Palestina. Simão, vivido pelo ator Larry Marshall, diz a Jesus coisas sobre a libertação que o agradam e Jesus sorri, mas ele pede que Jesus inclua o ódio pelos romanos e Jesus franze o rosto, toma o centro da cena e declara que do amor não se abre mão em nenhuma luta.

Neeley nasceu e cresceu no católico estado do Texas, mas é filho de uma família da Igreja Batista. Diz conhecer a Bíblia e conta que sempre foi ele quem ajudou os colegas atores das montagens nas quais participou a entender certas peculiaridades do espetáculo. Ele considera que o Jesus que interpreta não foi escrito com preocupação religiosa, mas o foco é um homem absolutamente incrível.  Revela que os autores e diretores tiveram sempre muito respeito pelos grupos religiosos, mesmo tendo sido incompreendidos por judeus, que os acusavam de anti-semitismo e por católicos e evangélicos que preferiram achar que a peça era blasfema e que o Jesus mostrado era muito ligado a sexo. Neeley esclarece que sobre esse assunto, então, o “seu” Jesus realmente não trata, mesmo tendo, na história, uma Madalena que se refere ao protagonista como alguém que ela não consegue amar como amava outros homens. E dá um depoimento que me falta tempo para apurar sua veracidade. O ator diz que o filme antes de ser lançado em 1973, foi levado pelo diretor ao Papa Paulo VI que o assistiu numa sessão privada. Norman Jewison “fez isso para ter a aprovação e sei que o Papa gostou do filme, considerou que era respeitoso em relação à figura de Jesus e entendeu que a mensagem poderia alcançar muita gente no mundo, especialmente os mais jovens conheceriam o Filho de Deus e poderiam conhecer mais profundamente sua história graças à música, cantando as canções”.

Foto: Il Venerdi, La Reppublica, 4.4.2014

Rafael Vieira, 12.4.2014