LI, VI, OUVI, ESCREVI

JOCKER

Joaquim Phoenix ganhou o oscar, mas esse filme tem muito mais do que uma interpretação histórica desse filho de hippies.

Personagem

O Joaquim Phoenix está massérrimo e brilhante. Fiquei a sessão inteira com dificuldade de comer a pipoca que havíamos comprado para ver o filme num shopping da cidade. É um drama. Uma história fácil de ser montada em cima da tese de que uma pessoa boa, doente e esforçada pode se tornar um assassino caprichoso depois de uma série de injustiças manifestadas pela intervenção das pessoas. Eu pensava o tempo todo na ligação que aquilo tudo ia ter com o Batman. Afinal, o Coringa não é o inimigo do homem morcego? E o Batman não ajuda as pessoas boas e combate o mal? Então, como é que encaixa que esse pobre diabo, machucado pela vida, incompreendido pelo mundo e humilhado pelos ricos tenha incendiado Gotton City com uma revolução de palhaços que pedem a morte dos mais abastados. Ou não entendi nada? Essa hipótese também deve ser considerada. Em todo caso, fiquei muito tocado com a interpretação do Joaquim, irmão do River Phoenix, um garoto tão promissor no cinema que fez sucesso ao lado de Keanu Reeves em “Garotos de aluguel” e morreu de overdose aos 23 anos de idade. Uma vez li que os pais deles eram ex hippies e, por isso, colocaram nomes extravagantes nos filhos. Só o Joaquim era “normal”, os outros eram Rain, Liberty e Summer, além do River.

Lágrimas

O personagem que se torna o Coringa desse filme, o palhaço de rua Arthur Fleck, tem um distúrbio que o faz rir, quando nervoso. Claro, nisso fui remetido aos filmes que vi o Coringa nos filmes do Batman. Lembro-me que o cara ria sem parar quando fazia suas maldades. Nisso vou precisar reconsiderar, da próxima vez porque ele está rindo sem querer e não porque seja um malvado sádico que se delicia de ver o herói tendo problemas. O riso histérico é doentio. Talvez também nisso não fui devidamente informado anteriormente. Será que todo mundo sabia que o Coringa ria sem querer e só eu que achava que ele estava de deboche? De toda maneira, aquelas cenas em que ele não foi compreendido a respeito de seu problema de saúde me tocaram assazmente. Não suporto esse tido de cena. Tenho vontade de chorar. A impotência de alguém quando não pode dizer com clareza a razão de seus atos e é punido por isso. Caio no choro. Tive que me conter porque não dá pra derramar lágrimas num filme do Coringa.

Sangue

Outra particularidade desse fime, sem spoiler, é a presença de um ator considerado “monstro sagrado”, Robert de Niro. Acho que não exagero se disser que ele faz apenas uma “ponta”. De todo modo, é sempre o impecável protagonista do mítico “Taxi Driver” do Martin Scorsese. A fotografia do filme é merecedora de comentário. Creio que seja mais complicado fazer o feio do que fazer o bonito. Há sempre o risco de errar a mão. Os ambientes por onde anda o palhaço são sempre sujos, esquisitos. Tem-se a impressão que um rato vai sair de algum lugar. Não chega a ser nojento, mas dá um certo mal estar de acompanhar algumas sequências, apesar de que sangue esguinchando não me apavora. Aliás, acho que virou lugar comum para fazer com que as histórias fiquem mais encharcadas de dor e desespero. Isso não me derruba mais.

Esquerda ou Direita?

Fiquei fora do debate no qual se dizia que o filme é de esquerda. Aliás, tudo o que não toca uma certa nota musical, no Brasil de hoje, é de esquerda. Fico sem parâmetro para argumentar. Assisti a uma jocosa cena feita pela Fernanda Torres na minisserie “Filhos da Pátria”, da Rede Globo, na semana passada e fiquei impressionado com a facilidade com que ela se dobrava à ditadura do Getúlio Vargas e achava que o golpe era uma revolução. O filme do Coringa tem revolução. Não se esqueça que é uma produção norte-americana. Revolução tem outro sentido naquelas terras. E um fiapo de reflexão sobre desigualdade social só serve para garantir plateias numerosas no próximo filme da franquia.

Brasília, 10.10.2019

Rafael Vieira