LI, VI, OUVI, ESCREVI

LIVRO DE MÁGOAS de Florbela Espanca

Fiquei assustado com o fato de ter me identificado muito com os poemas de Florbela Espanca. Textos amargos. Entre eles, uma autodefinição tão próxima a mim: “Sou aquela que passa e ninguém vê… Sou a que chamam triste sem o ser… Sou a que chora sem saber por que… Sou talvez a visão que Alguém sonhou, Alguém que veio ao mundo pra me ver, E que nunca na vida me encontrou!”. Cada um dos 32 textos do livro tem uma força descomunal. Fiquei besta. Eu sabia do grande nome dessa portuguesa. Tenho anotados nos arquivos da memória, que a Zezé Polessa montou um espetáculo com textos dela em algum ano do passado. Mas, nunca tinha tido um contato direto com o mundo dessa mulher.

Este livro tem enunciados inquietantes. Num deles, que não me lembro em qual poema se encontra, ela fala que entende mais a dor quem a tem. Nada mais certeiro e direto. As tragédias são mais sentidas por quem, de algum modo, as tocou. Fico impressionado com a insensibilidade de certas pessoas que encontro na vida e que parecem viver em outro planeta. Por outro lado, o conceito também se aplica ao prazer. Aí, me vem na cabeeça uma cena da Opera do Malandro, do Chico Buarque, na qual uma personagem se dirige a outra que estava pretendendo saber muito da vida e dispara: “você nunca gozou, pirralha!”.

Um outro enunciado que me martelou a cabeça está no poema “Pior velhice”. Espanca diz: “E dizem que sou nova … A mocidade estará só, então, na nossa idade, ou está em nós e em nosso peito mora?! Tenho a pior velhice, a que é mais triste, aquela onde nem sequer existe lembrança de ter sido nova … outrora ...”. Eu tenho essas alucinações, de vez em quando. Fico procurando quando fui jovem e não tenho facilidade para encontrar esse tempo na cronologia da minha vida vivida até agora. Lembro-me que quando completei 20 anos, fui parar num curso de revitalização, em Petrópolis. Era cedo demais para aquilo.

A experiência de ouvir um livro também me encantou. Foi minha primeira vez, não vou me esquecer. Eu que me distraio com muita facilidade quando estou lendo e me sentia completamente incapaz de enfrentar a leitura de um livro de poesia fiquei encantado com o ubook. A voz da narradora me levou para o teatro da minha mente. Eu conseguia ver o rosto dela declamando os poemas. Depois de terminar a “leitura”, audição do livro, fui pesquisar e vi que a a autora morreu muito jovem e teve uma vida atribulada.

Rafael Vieira, CSsR

Ubook, Goiânia, 13.03.2021