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LIVRO: O VÍRUS MOSTROU COMO POLÍTICOS PERIGOSOS CHEGARAM AO PODER

Livro lançado recentemente na Itália faz um balanço de casos de Fake News e destaca a situação do Brasil. Leia uma tradução livre.

Os líderes dos países mais afetados pela Covid alcançaram ou consolidaram sua posição graças ao uso de notícias falsas. E o que acontece agora é a consequência.

DE MAURO MUNAFÒ

Antes que eles fingissem que o problema do Covid 19 não existia, eles o diminuíram, chamando-o de pouco mais que uma gripe, e continuaram ignorando as opiniões de cientistas e especialistas. Então, com o desastre em curso, eles evocaram a trama sem apresentar evidências ou entrincheiraram-se em negação.

Os líderes dos quatro países que, de acordo com os dados da Organização Mundial da Saúde, têm mais infectados por coronavírus – Estados Unidos, Rússia, Reino Unido e Brasil – administraram a pandemia usando a mesma estratégia que os levou ao poder ou força consolidada: poluindo o debate público, fazendo uso massivo de notícias falsas e ignorando dados reais. Exceto que o vírus não é o algoritmo de uma rede social: mesmo que você invente um fardo, ele continua infectando. E o resultado desse método de gerenciamento de energia está agora lá para todos verem.

O fio da falsificação que une esses quatro poderosos remonta a antes da última emergência. Durante o referendo do Brexit de 2016, o atual primeiro-ministro britânico Boris Johnson foi fotografado com o slogan “Damos 350 milhões de libras à Europa por semana. Vamos usá-los em nosso serviço nacional de saúde “. Essa mensagem, impressa em letras grandes em um ônibus que viajava pelo país, era falsa: o Reino Unido não pagava 350 milhões de libras da UE por semana, mas cerca de 250. E uma parte importante desse dinheiro foi devolvida aos cidadãos britânicos com programas financiados pela UE. Além de estar errado o número, também é impossível dizer que os fundos economizados podem realmente ser utilizados para o serviço nacional de saúde, uma vez que sair da União implica enormes custos diretos e indiretos para a economia inglesa. Apesar dessas “negações”, uma pesquisa conduzida pelo King’s College London mostrou como 42% das pessoas ainda acreditam que essa afirmação é “verdadeira” hoje.

Ainda mais estratégico foi o uso de desinformação pelo presidente dos Estados Unidos Donald Trump, que, conforme explicado por uma análise do New York Times sobre os mais de 11 mil tweets que “The Donald” escreveu desde que ele estava no cargo, em ao longo dos anos, ele relançou as teorias da conspiração (protagonistas de 1.700 de seus tweets), falsidades contra os migrantes, falsificações sobre fraudes eleitorais que o penalizariam ou à família Obama que o interceptaria ilegalmente, até conspirações chinesas e comparações com resfriados sazonais.

Jair Bolsonaro se inspirou em seu exemplo durante as eleições presidenciais vencidas no Brasil em 2018, nas quais as informações falsas enviadas via WhatsApp tiveram um papel importante: não surpreende que hoje seu filho Carlos esteja sendo investigado como suspeito de ser chefe de uma rede envolvida em propagação de notícias falsas. E com a produção industrial de informações falsas, Vladimir Putin e a Rússia, que há anos investem milhões nesse setor, com estruturas como a “Internet Research Agency (IRA)”, que ficou famosa por seu trabalho de poluir as eleições presidenciais americanas. Talvez o coronavírus seja uma vacina pós-verdade.

Este artigo foi retirado do livro “Fake news, haters and cyberbullying” de Mauro Munafò e publicado na área pública da Revista “L’espresso”.

Texto original:

https://espresso.repubblica.it/attualita/2020/05/27/news/fake-news-politici-1.348698