EDITORIAL

MÁSCARA: UM SÍMBOLO EM ABERTO

O mundo inteiro está de máscara. Ela protege quem a usa e quem se aproxima do mascarado. Um símbolo bastante intrigante. Agora, soa como algo bom necessário, indispensável. Antes, era tradução de má intenção, de dupla face, de escamoteamento. Cinco séculos antes de Cristo, os gregos já usavam máscaras nas representações teatrais e na prática deles, naquele tempo, já havia uma simbologia que alcança os dias atuais: as máscaras serviam para a atuação de atores nas tragédias e nas comédias. E tinha ainda um agravante: eram recursos para que homens fizessem papéis femininos porque as mulheres não eram consideradas naquela arte.

As manifestações contra e a favor do governo que se alternam nas telas da TV têm mascarados e não-mascarados que se revezam entre o riso e o choro. Há quem coloca a máscara para obedecer os protocolos sanitários e para dar exemplo aos mais resistentes. Há quem usa máscara com desenhos ou alusões a pessoas ou causas que parecem mais epilépticos em crise (com todo o respeito aos epilépticos, a comparação é só para lembrar as convulsões). Máscara para se mostrar, máscara para se esconder.

Carl Gustav Jung, fundador da Psicologia Analítica, dizia que a máscara usada pelo ator, significava o papel que ele ia desempenhar. É importante lembrar essas duas coisas: máscara e causa. As máscaras usadas por quem pode jogá-la no lixo para respirar à vontade quando chega em casa não é a mesma usada por um profissional da saúde que, por força, deve passar várias horas sem poder tocar nela. São diferentes, mesmo que feitas do mesmo tecido, as máscaras de quem vê a realidade brasileira como aquela de um país que que precisa “salvar” sua economia e máscaras de quem quer salvar as vidas humanas a qualquer custo, ainda que seja à custa da economia.

Rafael Vieira, 15 de junho de 2020