LI, VI, OUVI, ESCREVI

MERLÌ

A misteriosa Catalunha com sua cultura de resistência é o ambiente das peripécias de um professor de Filosofia e seus "peripatéticos"

Professor

Vou considerar como uma descoberta da quarentena, mesmo sabendo que já é um sucesso netflix antigo e muita gente que viu a série, nem se lembra muito dela. Estou “maratonando” uma série da TV catalunha: Merlì. Primeiro, deixe-me compartilhar com você minha rápida e inesquecível experiência de passar por Barcelona. No ano de 2013, por ocasião da beatificação dos mártires redentoristas em Terragona, eu acompanhei o Padre Geral da minha Congregação à Espanha, na condição de “Diretor de Comunicação” da Congregação. Nem sabia como me comportar. Não falo espanhol. Mas, era importante participar daquilo tudo e me virava com quem falava italiano. Contava ainda com um amigo brasileiro, que fazia parte da comitiva e, na época, era secretário-geral da Congregação. Ele me dizia o tempo todo: “ao invés de italiano, fala português”.

Sagrada Família

Bom, chegamos a Barcelona, vindos de Roma, e a única coisa que tinha no coração era a insatisfação de que não iríamos ter oportunidade de conhecer o Camp Nou. Tudo bem. Fizemos um lanche rápido na casa dos redentoristas e fomos conhecer a lindíssima e inacabada igreja da Sagrada Família acompanhados, nada menos, do que pelo Postulador da Causa de Canonização do Antoni Gaudí. Um senhor muito simpático que nos mostrou a genialidade, a profundidade teológica e a grande aventura espiritual desse arquiteto ao levantar um templo, chamado de expiatório, para o louvor de Deus. A igreja parece uma árvore frondosa. A gente anda de um lado para o outro olhando tudo e em cada relevo, uma mensagem. Do lado de fora, pode-se ver grandes guindastes denunciando que a obra ainda não está terminada. A construção teve início em 1882.

Filosofia

Na série que estou vendo, Merlì é um professor de Filosofia. Coleciono, até agora, uma porção de adjetivos contraditórios sobre ele: desorganizado, desalmado, sincero, enganador, carinhoso, cafajeste, generoso, manipulador, bondoso, lúcido, confuso, fraco, forte, dedicado, relaxado, ateu, crente, debochado, bom pai, péssimo pai, bom filho, péssimo filho, coerente, livre. Um sujeito encantador. Aos, poucos, percebo que, com o passar dos episódios, vejo que todos os personagens que cercam esse professor tão sinngular também têm quase todas essas facetas. Estou, realmente, impressionado com a humanidade assustadora que o roteirista imprimiu nessas figuras. Cada capítulo tem um tema relacionado ao mundo da Filosofia. Os garotos da sala, por exemplo, são batizados como “peripatéticos”, isto é, como reza a Wikipedia: “eram chamados os alunos oriundos da escola fundada em 336 a.C., cerca de 50 anos depois da Academia de Platão, quando Aristóteles abriu sua escola filosófica no Liceu em Atenas”.

Preferido

Para neutralizar o aluno mais preguiçoso e esperto da sala, Merlì o elege, no primeiro dia de aula, como o seu “preferido”. Eu, sinceramente, ando atrás do meu e não consigo escolher. Todos têm perfis interessantíssimos e é uma tão bom ver o modo como reagem diante das sínteses incríveis que o professor faz nas aulas de Filosofia. Tenho pendido para escolher a Tânia, mas até agora – me encontro no final da primeira temporada – ela ainda não floresceu completamente. Aparenta ser gordinha. É uma linda moça e a melhor amiga do personagem emblemático que convive com a homossexualidade tendo ataques homofóbicos. Ela é serena. Participa das aulas de um modo delicioso: responde, erra, corrige e ri muito. Tem olhos claros e usa roupas largas. É uma graça.

É isso. E mais: as imagens de Barcelona entrecortadas por uma coruja são recursos incríveis. Outra coisa incrível: é uma delícia ouvir catalão, há frases que parecem português. Acho que vale ver!

Brasília, 21.05.2020

Rafael Vieira