LI, VI, OUVI, ESCREVI

MILAGRE DA CELA 7

Em qualquer lugar do mundo, pai é pai e filha é filha, mas, na Turquia essa história ganha contornos muito especiais e comoventes.

Turcos

Não é filme para se ver em tempo de distanciamento social porque a gente sente uma vontade incontrolável de sair correndo para abraçar um monte de gente que a gente ama. Uma história simples incrustrada numa cultura que co nheço pouco, numa religião que respeito, mas também não sei muita coisa e ambientada numa região do mundo de onde se ouve falar muito e não se sabe quase nada. Na verdae, diante dos turcos tenho três sentimentos. Quando era garoto assisti ao “Expresso da Meia-noite” que me deixou com um medo horrível daquele universo doido das prisões que acolhem acusados estrangeiros. Quando cresci, aprendi que não se pode chamar de turco todo mundo que vem daquela região do mundo. Há muitos árabes, especialmente libaneses que, erroneamente, são chamados de turcos pelo interior do Brasil. E, por último, devo dizer que expulsei todos os meus medos e equívocos quando conheci, em 1990, uma Istambul esplêndida e acolhedora.

Repolho

Ainda assim, “Milagre da cela 7”, filme turco dirigido por Mehmet Ada Öztekin, me fez dar uma passo atrás e não tentar analisar aquele mundo. O filme parece um pé de repolho. Antes de assistir, eu havia visto na internet que existem repolhos que se transformam em flores coloridas. Eu não sabia. Chamam-se Brassica oleraceae acephala. São repolhos ornamentais. Jardineiros mais sofisticados os cultivam e usam esses repolhos para embelezar festas. Descobri em uma lista de jardins que são plantas que apreciam o frio de climas subtropicais e é resistente a geadas. Esse filme, para mim, pode ser comparado a um desses repolhos: nas folhas externas estão o sistema corrupto do exército e a vingança como única forma de satisfação de personagens poderosos. Nas folhas centrais está o que sobra na consciência boa na cabeça de criminosos e de subalternos oprimidos das forças da ordem. E nas do centro a pureza, a beleza, a força da criança representada na saga de uma filha e um pai. E tudo isso colorido pela aura do cinema.

Pureza

O personagem central, um homem que não cresceu mentalmente, é o símbolo de algo que todos nós temos guardado no fundo do peito: a alegria de apenas viver em paz e harmonia. Ele se casou e se tornou pai apenas por um costume. Ficou viúvo e continuou sendo criado, juntamente com a filha, pela avó da esposa. A menina toca no que ainda temos de senso de justiça e de verdade. Tudo tão frágil, tudo tão dominado pela impotência dentro dos sistemas de cultura e de sociedade. Mas dá gosto ver os abraços desses dois “pedaços” de nós. O tal milagre vem de onde não se espera. Sem mais spoilers. E é preciso ver o filme. É preciso sentir cada passo dessa história.

Anciã

As atuações são impecáveis, desde os protagonistas até a linda professora que participa de poucas cenas. Raquel Carneiro, em crítica ao filme feita no Blog Terra Plana chama de “constrangedoras” a atuação do elenco inteiro. Talvez eu esteja andando bem fora do eixo no modo de avaliar as coisas. Eu gostaria de destacar não a dos atores principais, o Aras Bulut Iynemli que faz o pai e nem filha Ova  interpretada Nisa Sofiya Aksongur, mais da atriz que faz Fata, a avó deles, Celile Toyon Uysal. É uma senhora de estatura baixa, creio que usa vestes típicas da costa da Turquia. Que olhar, que jeito extraordinário de dar vida a essa senhora que cuida do genro como se fosse neto. Suas cenas são todas comoventes, tanto as bonitas e ternas como as de drama e angústia. E dela fico com o melhor desse filme. Verdade e Bondade.

Brasília, 23.04.2020

Rafael Vieira