LI, VI, OUVI, ESCREVI

MORTES: JOSÉ WILKER E MANUEL FORJAZ

A incrível vida e morte de Manuel Forjaz

No dia em que o Brasil inteiro se despede do grande ator José Wilker, a quem vi na tela e que me marcou do modo como foi para maioria, conheci a lição de vida e morte de Manuel Forjaz, um professor moçambicano que viveu em Portugal e morreu neste sábado quase na mesma hora e circunstância que Wilker, com uma diferença: ele lutou, durante mais de 5 anos, contra um câncer no pulmão. E os jornais de Portugal publicaram uma frase síntese de arrepiar: “eu posso morrer de câncer, mas o câncer nunca vai e vencer”. Portanto, estão absolutamente erradas as manchetes que insistiram em dizer que Forjaz perdeu a luta contra o câncer. Ele venceu. Fui me inteirar mais sobre esse homem que vivia e fiquei muito impressionado. Ele estava com 50 anos de idade, nunca fumou e era praticante de esportes.

Numa entrevista concedida ao jornal português Diário de Noticiais, no ano passado, logo depois de saber que já tinha metástases no cérebro, ao responder a pergunta se tinha algo ainda a fazer, ele respondeu: “Adoraria saber tocar viola, já três ou quatro vezes comecei. Provavelmente, não acabarei a tese de mestrado e gostaria de avançar para uma de doutoramento. Esse é um ponto importante. Vou lançar agora um livro sobre o câncer e, depois, outro sobre histórias de pessoas que fizeram coisas extraordinárias e que não são conhecidas. Gostaria de ter um programa de televisão. Gostaria de ser orador global, acho que já não vou lá. Já sou orador há tempo suficiente para eles me terem descoberto e convidado. Gostaria de ter feito uma grande obra de arte. O processo da escrita foi interessante – comecei por escrever mal e estou a tentar construir melhor o meu português. No essencial, acho que sim, que tive a sorte. O meu filho formou-se agora. O mais novo vai formar-se em junho. Considero a minha obra feita”.

Assisti a uma longa conversa dele com um apresentador de TV de Portugal e ele estava esplêndido. O programa foi ao ar no último dia 29 de janeiro. Ele se apresentava como um empreendedor social, um inconformado e um romântico. Depois de contar as péssimas condições de saúde  em que se encontrava por causa dos tratamentos de quimioterapia, repetiu “nunca deixe de viver”, “nunca deixe de fazer o que a vida tem de melhor”.  Disse ainda que o diagnóstico do câncer o levou a mudar prioridades na vida e a gerenciá-las de modo novo. Ele dizia estar consciente de que seu tempo de vida era curto, mas nunca perguntava isso ao médico porque achava desnecessário. Confessou ser um otimista “patológico”. Por conta disso, desde que começou a luta contra a doença, procurou discutir, contar para os outros, estudar e a expor o que vivia na esperança de que alguém pudesse se beneficiar de tudo o que ele dizia. Revelou que passava por momentos de dor no grau máximo e que a nem a morfina amenizava.

Criou uma página no Facebook para compartilhar suas opiniões e estabelecer um diálogo com as pessoas que acreditavam na sua luta. Eu fui ver essa tal página e encontrei algo incrível. Claro que as duas últimas postagens eram dos filhos e foram feitas ontem, sábado, mas no dia 1 de abril, Manuel Forjaz fez um dos últimos posts e não tinha nada de autocomiseração ou morbidez, era uma proposta de futuro na qual ele pedia a ajuda dos internautas para enviarem sugestões de temas para um próximo livro dando alternativas: “1) Revolução – Mudar o futuro do país; 2) Montar uma empresa; 3) Conseguir trabalho; 4)Criar uma marca pessoal; 5) Seduzir e conquistar; 6) – Gerir redes sociais; 7) Gerir a carreira, subir na empresa; 8) Entrar/lançar projetos no mundo social, o do outro do mais frágil; 9) O que temos de aprender; o que temos de ler todos os dias; 10) Divertir/fazer experiências, sair da caixa; 11) Sair do buraco psicológico, emocional, das derrotas”. E terminava a postagem com recomendações práticas, perguntando se os internautas comprariam esse livro que ele “poderia” escrever. E finalizava, perguntando e recomendando: “e que outras urgências deveriam ou poderiam ser tratadas no livro? sejam objetivos e sem pudores”. Forjaz era católico, se confessava e ia à missa, mas não era convencional. Deixa um testemunho de quem sabe, como costumava dizer, que “quem ama não morre”. Os filhos Zé Maria e Antônio (com Forjaz, na foto) comunicaram a morte do pai desse modo: “Hoje às 11:55 o nosso pai foi embora. Com fé profunda e sem sofrimento, foi em paz em casa no seu sofá. Por favor, vivam a vida, e sorriam”.

Rafael Vieira, 6.4.2014