LI, VI, OUVI, ESCREVI

NO ARMÁRIO DO VATICANO

Dossiê

Consegui, depois de muito esforço, vencer as quase 500 páginas escritas por Frédéric Martel a respeito da vida íntima de pessoas que, mesmo sendo dedicadas a um serviço interno numa religião importante no mundo, continuam tendo o direito universal à privacidade. Da primeira à última página do livro, o autor ignora, arrebenta deita e rola sobre esse direito com ares de que ele pode e deve fazer isso porque se considera uma espécie de “justiceiro” capaz de escancarar a orientação sexual de cardeais, bispos e padres. Intitulou e subtitulou sua pesquisa com expressões capazes de abalar o mercado editorial do Ocidente: “No armário do Vaticano. Poder, hipocrisia e homossexualidade“. A investida desse escritor, jornalista e sociólogo francês está, segundo confissão exposta no livro, embasada em centenas de entrevistas com os personagens cujas intimidades são devassadas, quatro anos de pesquisa, a companhia de consultores em todo canto do mundo, além de revisores que checam suas informações e uma bela equipe de advogados que, supostamente, lhe deu um caminho jurídico seguro para sobrevoar os últimos sessenta anos de história da Igreja Católica. Suas afirmações são contundentes.

Análise

A constatação que serve de guia para a elaboração final de suas pesquisas é a de que existe um sistema de poder e de relações dentro do Vaticano que norteia as decisões mais importantes – inclusive ascenção e queda de vários personagens – definido pela homossexualidade experimentada pelos clérigos nas modalidades de praticantes e de não praticantes. Esse sistema, definido pelo autor, leva em uma enxurrada única a figura de três papas, dezenas de cardeais da Cúria e sacerdotes que estão no Vaticano, particularmente no serviço diplomático. A análise que ele faz das conversas que teve não lhe deixa dúvidas que um percentual altíssimo do clero católico no mundo inteiro é gay e as figuras que transitam na cúpula da Igreja agem e reagem segundo a condição homossexual. Como se trata de alguém que é doutor em Sociologia, aguardei a colocação de atenuantes, variantes, possibilidades de erro ou outras considerações que o trabalho científico exige. Martel faz isso aqui e ali, mas está certo demais para dar espaço a esses “entraves”. E mais: ele teve a sorte de encontrar pessoas que romperam com a Igreja por causa da questão posta e umas três figuras tagarelas que se prestaram ao papel de lhe fazer todas as fofocas possíveis de temática homossexual.

Sodoma

Não quero defender o universo interno do Vaticano, que desconheço quase que inteiramente. Não quero me posicionar sobre questões de orientação homossexual, no interior da Igreja. Me prendo apenas ao direito à privacidade das pessoas citadas no livro. Elas não poderão, mediante a divulgação do discurso feito com tanta convicção por Martel, manifestarem suas versões. O  “the right to be let alone” (o direito de ser deixado em paz), segundo o jurista norte-americano Louis Brandeis, o primeiro a formular o conceito de direito à privacidade nem de longe foi considerado pela fúria investigativa do escritor francês. Ele faz uma costura tal que o leitor tem a sensação que a Santa Sé é uma Sodoma em festa. Aliás, em português o título omitiu o símbolo bíblico da devassidão, o que está explícito em outras línguas. Uma sére de quatorze ou quinze lições que resumem o livro e são apresentadas pelo autor no final de cada série de entabulamentos de informações cruzando entrevistas, informações de livros e boatos conhecidos, serve como suporte para pontificar que a Igreja Católica  – tão homofóbica, segundo sua opinião – está tomada, infestada, dominada pelos interesses de pessoas homossexuais.

Rimbaud

O autor exibe muita erudição. Cita escritores franceses com muita segurança. Ele parece apaixonado por Arthur Rimbaud. Conheci algum fragmento da obra desse poeta homossexual e anticlerical francês quando estudei Teologia Moral. Uma de suas afirmações colossais está no iníco da obra de Alfred Plé, “Por dever ou por prazer”: “constato que os meus males vêm de não haver a tempo refletido que estamos no Ocidente. Os pântanos ocidentais!“.  Martel admira Papa Francisco com o mesmo fervor que tenta pintar com cores do arco-iris Bento XVI, Paulo VI, João XXIII e Pio XII. A questão do homofobia apresentada, repetidamente, é uma grave situação a ser considerada na Igreja. Vale lembrar isso. O livro – traduzido inicialmente em oito idiomais – é uma bandeira levantada contra a homofobia produzida pela Igreja Católica. Mas, continuo me perguntando onde está a base jurídica ou até mesmo o argumento jornalístico para encontrar tantas pessoas, conversar com elas sobre um tema tão sensível – ainda que que se tenha o consentimento delas para uma gravação – e depois amarrar as pontas dessas conversas na elaboração um veridicto no qual essas mesmas pessoas são “condenadas” por uma sanha justiceira e “jogadas” ao mundo inteiro por meio de um livro lançado com grande estrutura de marketing. O que elas poderão fazer? Acho que nada parecido com o que Martel fez.

Brasília, 10.10.2019

Rafael Vieira