LI, VI, OUVI, ESCREVI

NOÉ NO CINEMA: METÁFORAS

Eu suponho que quem quer conhecer a história bíblica de Noé deve tomar o livro do Gênesis e ler desde o capítulo sexto até o décimo. Se alguém quer fazer uma séria e profunda pesquisa sobre os elementos presentes nesses relatos que fazem parte de um corpo de histórias dos 11 capítulos iniciais do primeiro livro da Bíblia, imagino que deve procurar estudos de especialistas, exegetas. Se a ideia é fazer reflexão sobre o significado do relato da vida desse personagem no conjunto da história da salvação, eu calculo que a pessoa tem que procurar uma boa biblioteca teológica e descobrir autores competentes que interpretem esses componentes no grande quadro da Revelação de Deus ao seu povo que caminha. E, por fim, se a vontade é de observar um vulto da Sagrada Escritura para alimentar a própria espiritualidade, creio que o caminho pode ser o da leitura orante, sem amarras intelectuais. O cinema não parece ser um lugar apropriado para nenhuma dessas experiências. Eu assisti ao filme “Noé” e, a pedido de um amigo, arrisco comentários sobre o que pensei e senti naquela sala da Piazza della Repubblica, em Roma.

Os efeitos distraem porque estão “gritando” da primeira à última cena. O roteiro é de qualidade porque consegue costurar uma odisseia familiar em meio a deveres transcendentes e a ambiguidades das situações humanas. Os clichês povoam as situações vividas pelos personagens do filme que lembram remotamente a saga do dilúvio bíblico: um épico senhor perseguido pela obediência ao Criador, uma mulher amorosa, filhos bonitinhos, homens malvados, anjos caídos que se tornam monstros de pedra penitentes, traições, amores, acusações, tragédias aos borbotões. O óbvio ululante não se fez de rogado e apareceu de modo explícito, afinal, como se poderia fazer uma arca se não existisse uma floresta imensa para uma escandalosa devastação? Como se poderia construir essa mesma arca se não fossem operários gigantes movidos pela busca de libertação de uma culpa ancestral? Como se poderia manter um casal de exemplares de “todas as espécies” dentro de um ambiente único se não fosse uma fumacinha alucinógena que os fizessem dormir e acordar somente depois da passagem da tsunami? E por ai vai.

Tomara que ninguém pense que estou elogiando o filme, afinal, prefiro não repetir a experiência aqui do blog a respeito do comentário que fiz sobre a peça Jesus Cristo Superstar quando fui chamado de divulgador de uma obra blasfema. O teor dos conflitos mostrados em “Noé”, no entanto, são interessantes. O protagonista é uma figura fraca e que se arrasta o filme inteiro, mas desperta sentimentos fortes ao insistir em querer tomar parte de uma obra sobre humana de modo a deixar qualquer pessoa indignada. Especialmente quando cisma de achar que a vida de uma pessoa não vale tanto quanto um plano sobrenatural. Aliás, acho que essa é a razão de muita gente boa não ter apreciado o filme. Mas, há personagens mais bem construídos. Os “mauzinhos” são mais bem feitos e colocados de modo correto no contexto de oposição a Noé. Os textos do líder dos humanos que “deviam” morrer e que acaba se abrigando na arca por causa da conivência de Cam são excepcionais.

E se eu tivesse pegar pra mim uma daquelas figuras do filme eu não teria dúvida alguma em tomar uma personagem sem nome próprio, mas com o mais completo e absoluto perfil digno da humanidade: a mulher do Noé, a mãe dos filhos do Noé. Eu sempre encontro Deus em tudo quanto é mãe! E o clímax daquela sucessão de efeitos especiais foi, para mim, o pedido que aquela mulher fez ao marido ensandecido quando disse: “pune a mim, não aos meus filhos”. Aquela atriz tinha nos olhos e nas lágrimas os sinais mais bonitos pelos quais, eu acredito, que Deus ama a humanidade e sobre os quais o pecado jamais vai triunfar. A tentativa em expor o dilema filosófico do que significa ser homem e sua relação com toda a criação no diálogo do líder dos humanos e o filho do meio de Noé realizado entre uma dentada e outra num bicho vivo no interior da arca também não é de se jogar fora. Anthony Hopkins faz aparições desconcertantes com seu Matusalém mágico e Russel Crowe desfila cabeleiras e carecas sem repetir a atuação de “O Gladiador”. Os garotos estão todos bem: Emma Watson (o amigo que viu o filme comigo disse que não me perdoa por não tê-la visto em Harry Potter), Douglas Booth e Logan Lerman. Uma frase, repetida várias vezes durante o filme, me deixou com a sensação de nem foi tempo perdido ter ido ao cinema: “Tudo acaba. Tudo recomeça”. Ainda uma última coisa: não contem comigo para fazer uma fogueira para destruir esse filme. Eu me lembrei de um fato. Um dia, fui aguardar um missionário no confessionário da paróquia onde trabalhei e encontrei um livro, em inglês, sobre o Espirito Santo que ele esquecera sobre a poltrona. Nas primeiras páginas daquele livro havia uma afirmação com a qual eu concordo em gênero, número e grau: “toda linguagem religiosa é metafórica”. A do cinema épico também.

Rafael Vieira, 24.4.2014