LI, VI, OUVI, ESCREVI

O ALIENISTA de Machado de Assis

O ALIENISTA de Machado de Assis

Quando comecei a leitura/audição deste livro, meu primeiro pensamento foi uma reação a quem acha que Machado de Assis é um autor difícil. Que nada, é facílimo. Depois, a medida que a historia se desenvolvia e que aquele médico de Itaguai, no Rio de Janeiro, desenvolvia seu caminho em nome da ciência erguendo uma obra psiquiatra, já comecei a recuar. Fiquei atento aos detalhes, mas a trama ficava complexa. Do meio para o final da obra, fiz um ato de penitência e me enfileiro entre os que acham que Machado não é um autor fácil. De todo modo, achei delicioso seguir os labirintos da complexidade do alienista, Dr. Simão Bacamarte.

Este apenas um conto fantástico do autor, calcula o que se pode encontrar nos clássicos dele que são obras de um fôlego imenso. Em todo caso, me chamou a atenção o resumo da história: um adorador da ciência que coloca metade do povo no hospício para estudar desvios mentais, depois a outra metade para estudar virtudes e, por fim, coloca quem? Não vou dar spoiler. Você terá que ler ou ouvir essa belíssima história. Destaco que achei a narrativa super simples e que o autor aqui e ali jogava um termo mais complicado, daqueles que a gente tem que procurar um dicionário.

A trama de “O Alienista” é também uma ode ao trabalho de investigação científica com alguns de seus sacrifícios bem conhecidos. O médico abriu mão de carreira internacional e de cargos importantes para enfiar raízes numa cidadezinha no interior do Rio de Janeiro no tempo da Colônia. Casou-se com uma mulher feia para que a sensualidade não lhe tirasse o foco dos estudos e montou a que se chama num certo momento a maior biblioteca do reino no Brasil. Tinha apenas um amigo e foi capaz de leva-lo para a famosa “Casa Verde”, o que o narrador chama de Casa de orates, ou seja, Casa de doidos.

Fico ainda com algo superficial e simpático: a narrativa não se perde nas elocubrações científicas do Dr. Bacamarte, mas se esmera na descrição de toda a ação que ele provoca nos poderes, na população e na cabeça das pessoas. Apesar de se dar uma lista do tipo de loucura, a história não se embaraça na explicação de cada uma delas e eu que fiquei esperando, o tempo inteiro, algum diálogo entre o médico e os doidos internados, isso não ocorre. Por fim, pensei na política antimanicomial diante dessa história. Eu acho que há elementos interessantes para uma análise.

Rafael Vieira

Ubook, Goiânia, 23 de março de 2021