LI, VI, OUVI, ESCREVI

O HOMEM QUE SABIA JAVANÊS de Lima Barreto

A minha ignorância literária é tal que eu não sabia que esse famoso livro de Lima Barreto era um conto. Uma leitura rápida e deliciosa. Uma linguagem absolutamente encantadora. É daquelas que a gente fica com o ouvido em absoluta sintonia ao contador de histórias. Do mesmo modo que o amigo do protagonista, tomava a cerveja com ele num bar prestava atenção em todos os detalhes da aventura, a gente também não desgruda dele enquanto não se sabe aonde aquela trama ia levá-lo. No fundo, um engodo, uma farsa, uma menstira levada até as suas últimas consequências, mas celebrada com detalhes finos e contada de modo nobre, interessante, bacana de se ler e se ouvir, como foi o meu caso, com o audiolivro.

O nosso narrador fala de Java e do idioma de modo muito interessante. Java é a principal ilha da Indonésia, a mais populosa do mundo, segundo a Wikipedia. A capital do país está localizada nessa ilha, a cidade de Jacarta. De origem vulcânica, a ilha e é pontilhada com uma série de mais de 100 vulcões, muitos dos quais estão ainda ativos, incluindo o Monte Merapi com 2.930 metros, que é o vulcão mais ativo do país. Se a gente começar a pesquisar nos blogs de viagem começa a ter vontade de ir passar uns dias por lá. Não foi essa a disposição do nosso personagem falastrão do livro, muito pelo contrário, ele se aproveitou do completo desconhecimento do mundo dessa ilha para se apresentar como professor de Javanês.

Há um detalhe no conto que me chamou a atenção, particularmente. O protagonista se interessou pelos grandes escritores javaneses. Foi à biblioteca, e mesmo que seu principal objetivo tenha sido de tentar aprender ao menos o alfabeto javanês, ele procurou conhecer os grande nomes da literatura. Gostei disso. Uma forma toda particular de tentar entrar no universo de um idioma. Eu nunca fiz isso. Tentei aprender italiano, sem ler seus maiores autores. Tento, até hoje, aprender inglês sem conhecer os maiores nomes da literatura inglesa e norte-americana. Tenho comigo que sou vítima de uma mania de tratar uma lingua desprovida de uma cultura. Até o português também é ensinado desse modo, sem o vínculo necessário com os seus maiores literatos. Machado de Assis virou um bicho-papão para os adolescentes.

O esperto personagem central e narrador do conto é um sujeito de tanto sorte que mesmo quando as coisas se complicam na sua imposturam, elas acabam dando muito certo para a sua carreira. A história do homem que falava javanês, portanto, é intrigante, inteligente e muito bem contada. Quando terminou, fiquei com aquele gosto de “quero mais” que, afinal, deixam na gente as grandes histórias mesmo contadas em pouco tempo.

Rafael Vieira

25.07.2021